• Nidana a causa primária

    आयुर्वेद – Nidana, a causa primária

    Tanto no āyurveda como na medicina convencional, o ponto de partida é, geralmente, o sintoma. Mas na tradição ayurvédica, o sintoma é o fim de uma história que começou muito antes. 

    A palavra Nidana significa literalmente causa primária e diagnóstico. Os cinco métodos de conhecer uma doença são: hetu (factores causadores), purvarūpa (sinais e sintomas premonitórios), rūpa (características clínicas), upaśaya (factores pacificadores) e samprapti (etiopatogenia).

    A mesma causa nem sempre produz o mesmo resultado

    Uma causa não é algo fixo, o seu impacto depende da forma como ela encontra o corpo. 

    Por exemplo, pó nos olhos comporta-se de forma diferente do pó nos pulmões. Porque é que o mesmo calor de verão causa refluxo numa pessoa e erupção cutânea noutra? O gatilho é idêntico. O caminho interno que ele percorre não.

    A etapa intermédia

    Uma doença não acontece de repente. Antes de surgirem os sintomas, o gatilho já começou a perturbar o equilíbrio interno do corpo. A esta perturbação chamamos doṣa vikṛti. Podemos dizer que doṣa vikṛti é o espaço entre a exposição e a doença:

    • Exposição prolongada a vento frio perturba o vata. 
    • Alimentos picantes em excesso perturbam o pitta. 
    • Hábitos sedentários e alimentos pesados acumulam kapha. 

    Ainda nada é diagnosticável, mas as condições para a doença estão a formar-se. Esta é a fase que o Ayurveda mais se interessa por detectar.

    Sintomas são como um mapa

    vyādhi (doença) é o que acontece quando este desequilíbrio se aprofunda o suficiente para afetar tecidos e canais específicos. 

    Os textos clássicos definem doença simplesmente como tudo o que torna a vida difícil. Mas observam também que esta varia de pessoa para pessoa, a mesma condição, com intensidades diferentes e com limiares diferentes.

    Quando um profissional de Ayurveda vê articulações inchadas, não vê simplesmente o inchaço. O inchaço tem uma história, uma evidência de onde o desequilíbrio se originou e até onde se propagou. 

    Quebrar a cadeia

    A sequência é: nidana desencadeia doṣa vikriti que por sua vez progride para a doença. São estas três etapas, os factores causativos causam distúrbios nos doas que por sua vez causam doença.

    Isto significa que nidana parivarjanamm (remover a causa) é uma ação clínica primária, em vez de um conselho secundário.

    Ao detectar os distúrbio antes que se estes se instalem nos tecidos, e o corpo tem espaço para se corrigir. Ao esperar até que se torne uma condição crónica tornar-se-á consideravelmente mais difícil de resolver.

    E é por isto que recomendações de alimentação e de estio de vida são fundamentais no āyurveda, por vezes até mais importantes que a própria medicação.

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

    www.instagram.com/ricardo_ayurveda

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  • jyotish

    A minha jornada no Jyotish

    Este é apenas o meu caminho. Poderia ter sido outro, mas foi este que o Divino desenhou para mim.

    Na realidade, as sementes foram lançadas bem cedo.Lembro-me que, quando adolescente, já manifestava interesse e profudo respeito pelos mistérios do Universo e da vida: na altura olhava as linhas das mãos com uma curiosidade sagrada!

    Após anos de afastamento, a vida encarregou-se de me conduzir de volta. Em 2013, num momento de profunda provação — daqueles em que a dor nos obriga a mergulhar no nosso interior — a Astrologia surgiu. 

    Movida pelo respeito absoluto pelas tradições e pela vontade de beber diretamente da fonte, entreguei-me, durante 3 anos, ao estudo da Astrologia Ocidental Tradicional Clássica, sob a orientação da professora Patrícia Fidalgo Henriques. Foi um momento divisor de águas: simplesmente senti-me em “casa”!

    Um pouco mais tarde Vedanta cruzou o meu destino. Como praticante de Yoga, fui apresentada a este conhecimento sagrado pelo meu professor, Paulo Vieira, a quem guardo uma gratidão eterna. Há uma vida antes do Vedanta e outra, inteiramente nova, depois dele.

    Foi o Professor Paulo quem me estendeu a mão para o mundo do Jyotish. Confesso que, no início, hesitei. Tinha investido anos na astrologia ocidental; a ideia de mudar de sistema, de reeducar o olhar e a mente, parecia uma montanha intransponível e sem sentido. Mas quando o destino chama, a resistência dissolve-se. Os sinais eram inegáveis. Aceitei o convite do Universo e mergulhei na luz da Astrologia Védica.

    A graça divina guiou-me então ao encontro de Goura Hari Dasa, um mestre devoto, fiel ao Shastra (escrituras), com quem sigo a aprender esta arte. Hoje, continuo a expandir este horizonte com outro mestre, o professor Marc Boney, pois no Jyotish, o estudo é uma constante.

    Transmitir este conhecimento aos outros é, simultaneamente, uma honra e uma enorme responsabilidade. Ao ensinar, testemunho a beleza do desabrochar do outro, o entusiasmo de quem vê a luz acender-se pela primeira vez. 

    O caminho de um Jyotishi é o de um eterno aprendiz. A tradição védica é um oceano vasto, complexo e divino. Não se pode parar; a própria riqueza do conhecimento impulsiona-nos a ir mais longe.

    É fascinante observar como a vida opera. Muitas vezes, entramos num caminho para nos conhecermos, e a vida, na sua inteligência infinita, transforma essa caminho na nossa profissão. É a “cereja no topo do bolo”: quando o trabalho não nasce de uma escolha racional, mas de uma paixão avassaladora que nos transcende!

    Vejo essa mesma chama nos olhos das minhas alunas, e isso confirma que o caminho é este. 

    O entendimento desta linguagem exige esforço intelectual, rigor técnico e memória. Mas, acima de tudo, exige coração aberto. Aprendi que nada depende apenas de nós. Somos meros instrumentos, canais por onde o conhecimento divino flui para tocar o coração de quem procura. Por isso, a prática espiritual e a gratidão são imprescindíveis!

    Agradeço a Deus! Estudar e compreender o Jyotish não é um mérito meu: é uma bênção que recebi. E por essa luz, sou eternamente grata!

    Hari Om

    Maria João 

  • a luz na escuridao

    A luz na escuridão

    “Karma is nothing next to God’s grace. Love people, feed people, serve people.”

    Ouvi esta frase há pouco tempo do meu professor Mark Boney, e, desde então, reflito nela com muita frequência..tornou-se um lembrete diário, uma luz que está sempre presente. 

    Esta frase traz uma visão muito profunda da espiritualidade: por mais que o karma organize a vida através de causa e efeito, ele não é maior do que a graça divina. O karma fala de justiça mas a graça fala de misericórdia.

    Dentro de muitas tradições espirituais, e dentro do jyotiṣa, o karma é visto como a lei que equilibra as nossas ações. Tudo o que fazemos gera consequências. Aquilo que plantamos, colhemos. Essa compreensão traz responsabilidade: somos participantes ativos da própria jornada. No entanto, a frase lembra que existe algo além dessa matemática espiritual. 

    Dizer que o karma não se compara à graça não significa negar a lei de causa e efeito, mas reconhecer que existe uma dimensão superior onde o amor pode transformar destinos. A graça é aquilo que interrompe ciclos de repetição e que suaviza dores.

    A segunda parte da frase mostra o caminho prático para nos alinharmos com essa graça: amar pessoas, alimentar as pessoas, servir as pessoas. Não se trata de ideias abstratas, mas de ações concretas. Amar é reconhecer a dignidade do outro; alimentar é sustentar a vida e servir é colocar o ego em segundo plano. 

    Quando alguém ama, serve e alimenta, deixa de agir apenas por interesse próprio.E é justamente nesse movimento que a graça se manifesta com mais força. 

    Esta frase também nos lembra que espiritualidade não é isolamento, é relação, cuidado e presença. A forma mais direta de viver sob a graça não é fugir do mundo, mas agir nele com compaixão.

    Porque a graça talvez não seja algo distante, abstrato e inatingível, mas sim algo que  se manifesta exatamente quando escolhemos amar, servir e cuidar uns dos outros.

    Hari Om

    Maria João Coelho 

  • ama ayurveda ricardo barreto

    आयुर्वेद āma: uma das principais causas das doenças

    O que āma realmente é

    A palavra āma significa “aquilo que é parcialmente digerido”.

    Quando o fogo digestivo é fraco, os alimentos não são transformados adequadamente. Em vez de se tornarem nutrição, transformam-se numa substância pegajosa e prejudicial que obstrui o sistema.

    Os textos clássicos são específicos: āma é o produto formado de forma inadequada, resultante de uma digestão incompleta. Não se trata de “toxinas” num sentido vago, mas sim de alimentos não digeridos que o organismo não consegue utilizar.

    Razões para a formação de āma

    – Os Alimentos

    Alimentos pesados, secos, frios ou congelados. Alimentos que não quer comer, alimentos contaminados, combinações alimentares incompatíveis. Comer em horários inadequados.

    Tudo isto pode criar āma.

    – A Mente

    O estado mental importa tanto como a qualidade dos alimentos. Os textos são directos sobre isto: os alimentos saudáveis, ingeridos na quantidade certa, não serão digeridos se estiver ansioso, de luto, zangado, com medo ou privação de sono.

    A mente impacta diretamente a digestão. É por isso que “comer limpo” por si só muitas vezes não resolve os problemas digestivos.

    – Outras Causas

    Jejum excessivo ou excesso de comida. Comer antes da digestão da refeição anterior. Horários irregulares das refeições. Suprimir a vontade de ir à casa de banho. Alterações climáticas repentinas. Doenças. Uso inadequado de desintoxicações.

    Como Saber se Tem āma

    * Sensação de bloqueio, algo preso

    * Cansaço mesmo dormindo o suficiente

    * Sensação de peso no corpo

    * Baixa energia, circulação lenta

    * Digestão fraca

    * Saburra espessa na língua

    * Obstipação ou micção pouco frequente

    * Falta de apetite

    * Exaustão geral

    Sem āma, sente-se o oposto: leveza, força, energia, boa digestão, língua limpa, evacuação regular e apetite saudável.

    Como o āma se Transforma em Doença

    A progressão é simples:

    Algo enfraquece o fogo digestivo → a comida não é digerida → āma forma-se → āma fermenta e azeda → āma ao fermentar torna-se tóxico → a digestão fica mais prejudicada → aparecem doenças.

    O ponto principal: uma vez que o fogo digestivo está fraco, não consegue lidar nem com alimentos leves. A partir daí, as coisas pioram.

    Como funciona a terapia quando se tem āma:

    1. Digestão de āma e restabelecimento do fogo digestivo
    2. Preparação do corpo com óleo e calor
    3. Panchakarma
    4. Rasayana – nutricão e rejuvenescimento

    O que pode fazer para prevenir āma (indicações gerais, mas podem não ser apropriadas para todos)

    – Não comer sem fome a sério

    – Se a comida não está a ser bem digerida, beber chá de gengibre ou cominhos

    – Fazer uma caminhada leve após as refeições

    – Ser mais fisicamente ativo/a

    Agni: Porque é que tudo se resume a isto

    Tudo o que se deseja: longevidade, aparência saudável, força, vitalidade, clareza mental, depende do funcionamento do fogo digestivo. Quando este pára, morremos. Quando funciona normalmente, prospera. Quando está prejudicado, adoecemos.

    A comida só nutre quando a digestão está a funcionar. Sem ela, até a formação básica dos tecidos falha.

    O que realmente significa:

    – Não se pode limpar o que ainda não foi digerido e não se pode nutrir o que é tóxico.

    – Digerir, restaurar o fogo digestivo, limpar e depois nutrir. Esta é a sequência correta.

    – A ansiedade, a raiva, a tristeza e o mau sono podem criar āma (toxinas) mesmo com alimentos perfeitos.

    Referências clássicas:

    * Charaka Samhita Vimana Sthana

    * Charaka Samhita Medical Sthana

    * Ashtanga Hridaya Sutra, partes 13 e 24

    * Madhava Nidana

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

    www.instagram.com/ricardo_ayurveda

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  • Ayurveda Kapha - Aquele que Sustenta

    आयुर्वेद – Kapha – Aquele que Sustenta

    Kapha vem da raiz “śliṣ āliṅgane” – abraçar, unir, sustentar. É o que mantém tudo junto, o que dá estrutura, o que nutre e protege. Kapha é a substância que liga, a humidade que preserva, a força que estabiliza.

    Os textos antigos dizem que é snigdha, śīta, guru, manda, ślakṣṇa, mṛtsna, sthira – oleoso, frio, pesado, lento, suave, viscoso, estável. E esta qualidade de coesão, de sustentação, saṃghātana, é o que define kapha em tudo. Está sempre a unir, a nutrir, a manter as coisas firmes e íntegras. A estrutura é a sua natureza fundamental.

    Kapha emerge da combinação de dois elementos – jala (água) e pṛthvī (terra). A água traz fluidez e nutrição, a terra traz solidez e forma. .

    Onde mora o Kapha?

    Os textos dizem que kapha habita principalmente o peito (uras), na garganta (kaṇṭha), na cabeça (śiras), “pancreas” (kloma), nas articulações (parva), no estômago superior (āmāśaya), no plasma (rasa), na gordura (meda), no nariz (nāsā) e na língua (jihvā). O local mais importante é mesmo o peito (uras).

    O Kapha Equilibrado

    Kapha fornece sthiratva (estabilidade), snigdhatva (untuosidade), sandhibandhatva (une as articulações), kşama (tolerância) etc.

    Depedendo do seu estado, normal ou agravado, kapha provoca efeitos positivos e negativos no organismo. dārḍhya-śaithilya (força ou fraqueza)

    upacaya-kārśya (robustez-magro)

    utsāhaṃ-ālasya (vigor-letargia)

    vṛṣata-klībatā (potencia-impotencia)

    jñāna-ajñāna (conhecimento ou ignorância)

    buddhi-moha (Inteligência, confusão 

    etc 

    Os Cinco Subtipos Kapha

    O kapha divide-se em cinco formas – diferentes tipos de sustentação no corpo e na mente. Compreender estas cinco forças ajuda a compreender como a estrutura opera em todas as camadas da nossa existência.

    Kledaka Kapha

    Situado no estômago (āmāśaya), este é o kapha que humedece, que amolece o alimento (anna kledana) e o prepara para a digestão. Sem kledaka, o alimento ficaria seco, duro, impossível de transformar.

    Avalambaka Kapha

    No peito (hṛdaya), avalambaka dá suporte (avalambana) ao coração e aos pulmões. É o que sustenta os órgãos vitais, o que protege o centro.

    Avalambaka é a almofada do coração. A proteção das estruturas mais preciosas. 

    Bodhaka Kapha

    Situado na língua e boca (rasanā), bodhaka governa o paladar (rasa bodha). É o que permite saborear, distinguir os sabores, conhecer através do gosto.

    Tarpaka Kapha

    Reside na cabeça (śiras), nutre os órgãos dos sentidos (indriya tarpana). É o fluido que mantém o cérebro, os olhos, os ouvidos húmidos e funcionais.

    Śleṣaka Kapha

    Espalhado por todas as articulações (sandhi), śleṣaka lubrifica (sandhi śleṣaṇa), permite o movimento suave, sem atrito, sem dor.

    Compreender para Equilibrar

    Conhecer estes cinco kaphas é como conhecer as diferentes “águas” de uma terra. Todos eles, na sua essência, são expressões da mesma força: sustentação. 

    Kapha, em todas as suas formas, é o princípio que mantém a vida unida.

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

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  • Trânsitos relevantes para 2026 Astrologia Vedica

    ज्योतिष – JYOTIṢA – Trânsitos relevantes para 2026

    Apesar do ano astrológico apenas iniciar quando o Sol dá entrada no rāśi (signo) de Mesha
    (Carneiro / Áries) no mês de abril, é comum, no ocidente, considerar o início do ano civil como
    um momento importante de reflexão e de previsão acerca das promessas mais importantes
    para o ano que se inicia.
    A minha proposta neste texto, é colocar as principais orientações astrológicas para este ano de
    2026, para que cada um possa refletir nas mesmas, tentando integrar todas essas energias na
    sua vida, quer externa como interna, de forma a navegar nas ondas do samsara de forma mais
    segura, firme e consciente, tomando as melhores decisões a todo o momento, sempre que
    possível.

    Em termos globais, e observando os trânsitos dos planetas mais lentos, podemos dizer que o
    ano de 2026, excetuando alguns momentos que poderão trazer algumas tensões adicionais
    principalmente a nível mundial, tende a observar uma continuidade daquilo que tem sido a
    realidade dos últimos meses. Tendências mistas serão esperadas, mas o facto de Júpiter ir
    transitar o signo de caranguejo (câncer) a partir de junho, signo no qual ele se exalta e tende a
    trazer bons resultados, e ainda pelo facto de, nesse signo, Júpiter estar em aspeto favorável
    com Saturno que transita em peixes, será de esperar um atenuar de situações mais intensas e
    desagradáveis que possam vir a surgir. A nível mundial, poderemos assistir a eventos mais
    marcantes e penosos quando Saturno transitar o signo de carneiro (áries), signo regido por
    Marte, entre 2028 e 2030.

     Śani (Saturno) entrou no dia 29 de março de 2025 no signo de Mina (peixes) e
    permanecerá neste signo até dia 23 de fevereiro de 2028, embora entre junho e
    outubro de 2027 ele chegue a entrar e a permanecer no signo de áries (carneiro) antes
    de retrogradar para o signo de peixes novamente. Após cerca de 2,5 anos no signo de
    aquário, um dos seus signos e onde detinha muita força, Śani ficará agora até 2028 no
    signo de peixes sobre a alçada de Guru (Júpiter), o graha (planeta) que rege o signo de
    peixes.
    Peixes é um signo de água, de modalidade dual e de natureza sáttvica (equilibrada,
    pura) muito associado à espiritualidade, mas também a um lado mais fantasioso,
    sonhador e com potencial escapista.

    Será importante verificar a casa astrológica onde temos o signo de peixes no nosso
    mapa e quais os grahas (planetas) ali presentes assim como as casas e os planetas
    situados nos signos de touro, virgem e sagitário, pois serão ativados também pelo
    olhar de Śani.
    Como graha maléfico, Śani atua predominantemente de forma mais severa, podendo
    levar a perdas e prejuízos, desonras, infortúnios, medos e inseguranças,
    desentendimentos, mas, atuando de forma mais benéfica, pode levar a progresso
    material, vitórias, capacidade de trabalho e foco, persistência, honras.
    Aconselho a leitura da newsletter de abril de 2025 “Saturno em Peixes”, na qual referi
    os impactos mais importantes deste trânsito de Saturno de acordo com cada
    ascendente.

     Eclipses de 2026

    Desde meados de maio de 2025 que os eclipses têm ocorrido no eixo leão-aquário e
    assim permanecerá até final do ano de 2026.
    Quanto mais visível o eclipse na região onde nos encontramos, maior os seus efeitos.
    Os eclipses afetarão em particular quem tiver grahas (planetas) no eixo leão – aquário
    ou quando esse eixo corresponde a áreas importantes do mapa. De qualquer forma, as
    casas onde ocorrem os eclipses terão os seus temas afetados por estas energias.
    Os efeitos dos eclipses podem ocorrer até cerca de seis meses após a sua ocorrência,
    sendo responsáveis, muitas vezes, por mudanças abruptas na vida da pessoa,
    correspondendo a finais ou inícios de novos ciclos. São períodos que fogem por
    completo ao nosso controlo e quando decisões são tomadas, mudam, por completo, a
    nossa vida.

    Teremos então:

     7 de fevereiro de 2026 – Eclipse solar anular (visível total ou parcialmente no
    sul américa latina, sul do continente africano e antártica).
     2–3 de março de 2026 — Eclipse lunar total (visível total ou parcialmente no
    leste europeu, ásia, austrália, américa do norte, américa do sul, oceano
    atlântico, índico e pacífico, antártica e ártico).
     12 de agosto de 2026 – Eclipse solar total (visível total ou parcialmente no
    continente europeu, norte áfrica, américa do norte, gronelândia, brasil).

     27–28 de agosto de 2026 — Eclipse lunar parcial (visível total ou parcialmente
    no continente europeu, áfrica, américa do norte, américa central e américa do
    sul, gronelândia).

     Guru, Júpiter em caranguejo (câncer): 1 de junho de 2026 a 25 de junho de 2027 (com
    um pequeno período no signo de leão entre início de novembro de 2026 e final de
    janeiro de 2027).
    Guru (Júpiter) exalta-se no signo de caranguejo e tende a trazer bons resultados. Guru
    tem a capacidade de beneficiar tudo aquilo em que toca ou que influencia.
    O bhāva (casa astrológica) por onde Guru irá transitar, é o local/área da nossa vida
    com maior oportunidade de expansão, de conhecimento, de sabedoria e prosperidade,
    em geral.
    Em termos gerais, tenderão a beneficiar-se mais deste trânsito aqueles que possuem o
    ascendente e/ou lua nos signos de caranguejo, escorpião e peixes e ainda, mas em
    menor grau, os que possuem ascendente e/ou lua nos signos de carneiro, gémeos,
    virgem, balança e capricórnio.
     Retrogradações em 2026
    Quando um graha (planeta) se encontra retrógrado (aparentemente a movimentar-se
    em sentido oposto zodiacal), ele distancia-se do Sol e fica mais próximo da Terra.
    Neste caso, o fenómeno da retrogradação é considerado um fator de força para o
    graha. Ele é considerado śākta (forte, poderoso), mas também irreverente, pois um
    graha retrógrado está associado a um comportamento menos previsível do graha,
    estando também associado a indecisões e mudanças de direção. Um graha śākta
    estará mais forte, podendo a sua influência ser potencialmente mais benéfica ou mais
    maléfica do que quando se encontra no estado de movimento direto.

    Este ano teremos:
     Retrogradação de Júpiter: 11 novembro 2025 a 11 de março 2026
     Retrogradação de Mercúrio: 26 de fevereiro 2026 a 20 de março 2026
     Retrogradação de Mercúrio: 29 junho 2026 a 23 julho 2026
     Retrogradação de Saturno: 26 julho 2026 a 11 dezembro 2026
     Retrogradação de Vénus: 3 outubro 2026 a 14 novembro 2026
     Retrogradação de Mercúrio: 24 outubro 2026 a 13 novembro 2026

     Retrogradação de Júpiter: 13 dezembro 2026 a 13 abril 2027

    Indicações:
     Guru, Júpiter é o guru celestial ou professor – o doador de sabedoria,
    conhecimento, bom karma, expansão e sorte. Está relacionado à fé, a
    grandes ambições e à manifestação de resultados positivos. Quando
    retrógrado, auxilia no trabalho em questões de crescimento e
    desenvolvimento, sucesso e felicidade. Rituais durante a
    retrogradação de Júpiter oferecem a oportunidade de aproveitar os
    seus poderes benéficos (favoráveis).

    • Realize um ritual simbólico simples aplicando um pouco de açafrão na
      testa, sobre o terceiro olho, nas quintas-feiras durante o período de
      Júpiter retrógrado, o dia regido por Júpiter, com a intenção de limpar e
      equilibrar a mente para que possa receber da melhor forma os dons e
      ensinamentos de Júpiter durante esse período.
    • Ofereça flores ao seu Guru, professor, mentor – as quintas-feiras são
      associadas a Guru (Júpiter).
    • Medite ou faça as suas orações durante o Brahma Muhūrta, a hora
      do criador, para obter as bênçãos de Júpiter.

     Budha, Mercúrio, rege o intelecto, a discriminação, a comunicação, a
    linguagem, a aprendizagem, a juventude, os amigos e o lazer. Quando
    está retrógrado, precisamos pensar duas vezes antes de agir ou reagir
    – em geral, é um período de mal-entendidos e equívocos, portanto,
    esteja mais atento. E, se algo der errado, assuma a responsabilidade,
    não culpe Mercúrio por todos os acontecimentos. É um bom momento
    para se concentrar em projetos existentes e em andamento, em vez
    de iniciar algo novo.

     Quando Śani, Saturno está retrógrado, temos uma segunda
    oportunidade de corrigir as coisas. Se não aprendemos as lições
    durante o seu trânsito anterior, então, ao retornar, temos uma
    segunda oportunidade de corrigir o erro. Saturno retrógrado não tem
    pressa; ele nos dará bastante tempo para assimilar as lições antes de
    prosseguirmos.

    Faça uma pausa e reflita sobre tudo o que aconteceu na sua vida nos
    últimos meses. Anote todas as experiências desagradáveis ​​e as lições que
    cada um desses eventos lhe ensinou – avalie se aprendeu algo com essas
    lições e, caso contrário, qual compromisso poderá assumir para aprendê-
    las. Demonstre disciplina e observe um jejum parcial ou completo aos
    sábados durante o período de Saturno retrógrado, o dia regido por
    Saturno.
    Pratique Pranayama, ou exercícios de controle da respiração, diariamente
    por alguns minutos durante o período de retrogradação. Saturno é um
    planeta Vayu (elemento ar), portanto, Pranayama é um dos remédios mais
    eficazes para lidar com a energia saturnina.

     Śukra, Vénus, o planeta do amor, da harmonia, da compaixão, da alegria,
    da beleza, do luxo, da arte, da poesia e da dança, entra em movimento
    retrógrado a cada 18 meses, por cerca de 6 semanas. Durante esse
    período, é bom dar um passo para trás e recuperar a perspetiva sobre
    tudo o que Vénus representa. É um momento para revelar a sua
    verdadeira beleza, principalmente em relação às pessoas mais próximas.
    Muitas vezes, criamos um escudo protetor ao nosso redor para evitar
    sermos magoados. E criamos distância em vez de desfrutar da intimidade
    dos relacionamentos, por medo de sermos vulneráveis ​​e nos abrirmos
    para emoções que não conseguimos lidar ou por medo de sermos
    desrespeitados – tudo isso é o ego em ação.

    Escolher o amor em vez da agressão. A agressividade não trará benefícios
    durante esse trânsito. É aconselhável não iniciar novos relacionamentos
    durante esse período.

     Lunações
    Devido às suas diferentes fases, é inevitável que possamos sentir nas nossas vidas, no
    nosso dia a dia, os efeitos destas oscilações de Chandra (Lua), assim como pela sua
    passagem pelos diferentes rāśis (signos), os quais irão impregnar Chandra com as suas
    caraterísticas peculiares.
    No entanto, cada diferente fase tem a sua energia e deve ser aproveitada para agir de
    determinada forma:

    Lua Nova (amāvāsyā): indica quando o mês lunar começa, ou seja, uma nova lunação.
    Esta fase é boa para criação/planeamento de novas ideias/atividades nas várias áreas
    da vida. Momento excelente para reflexão, contemplação, estudos.
    Lua Crescente: fase da lua que convida a agir. Por isso, é um bom momento para
    iniciativas e resultados rápidos.
    Lua Cheia (pūrṇima): momento excelente para exposição, visibilidade. Representa o
    ápice do mês lunar que começou na Lua Nova, de colheita de resultados
    anteriormente semeados. Fase com muita energia, na qual as emoções poderão
    manifestar-se de forma mais intensa.
    Lua Minguante: Esta é uma fase para começar a desacelerar o ritmo, de observação e
    de maior recolhimento, fase para analisar os resultados das ações das semanas
    anteriores.

    Nota: Outros trânsitos relevantes, mas que ocorrem num espaço de tempo mais limitado,
    serão alvo de análise semanal no grupo de WhatsApp e redes sociais.
    Excelente novo ano de 2026 para todos!

    Hari Om
    Maria João Coelho

  • Ayurveda Ricardo Barreto Terapeuta de Ayurveda

    आयुर्वेद – Pitta – O Fogo que Transforma

    Pitta vem da raiz “tap santāpe” – queimar, aquecer, transformar através do calor. E há outra raiz, “tapa dīptau” que significa brilhar, iluminar. Pitta é isso mesmo – o fogo que arde dentro, o calor que transforma uma coisa noutra, a chama que ilumina e digere tudo.

    Os textos antigos chamam-lhe agni, uṣṇa, tīkṣṇa – fogo, quente, penetrante. E esta qualidade de transformação, pariṇāma, é o que define pitta em tudo. Está sempre a converter, a metabolizar, a mudar as coisas de um estado para outro. A transformação é a sua natureza fundamental.

    Pitta emerge da combinação de dois elementos – agni (fogo) e jala (água). O fogo precisa de um veículo líquido para não se consumir a si próprio, e a água ganha propósito através do calor do fogo. Esta combinação cria algo quente (uṣṇa), ligeiramente oleoso (sasneha), penetrante (tīkṣṇa), leve (laghu), mau odor (visram), móvel (saram) e líquido (dravam).

    Onde mora o Pitta?

    Os textos dizem que pitta habita principalmente a região do umbigo (nābhi) – nābhiratra viśeṣataḥ – onde o fogo digestivo se concentra, onde a transformação verdadeira acontece. Mas também mora no suor (sveda), na “drenagem serosa” (lasikā), no sangue (rudhiram), nos olhos (rasaḥ/dṛk), na pele (sparśanam) mas o local mais importante é mesmo na região do umbigo (nābhiratra).

    Azia, inflamação, pele avermelhada, olhos irritados – tudo sinais de pitta a arder demasiado quente, demasiado intenso. E quando pitta não transforma de forma equilibrada, começa a queimar o que não devia. A digestão torna-se ácida, a pele inflama, os olhos ardem, o temperamento aquece demais.

    O Pitta Equilibrado

    Quando pitta funciona bem, traz digestão forte (pakti), calor corporal adequado (uṣmā), visão clara (darśana), fome (kṣut), sede (tṛt), paladar apurado (ruci), brilho na pele (prabhā), inteligência aguçada (medhā), compreensão profunda (dhī), coragem (śaurya) e tecidos flexíveis (tanumārdavaiḥ).

    Pitta em harmonia: aquele fogo no estômago que digere tudo, olhos que veem o mundo com clareza, pele que brilha com saúde, uma mente que corta através da confusão, coragem para agir quando é preciso, e um corpo que se mantém flexível e vital.

    Os Cinco Subtipos Pitta

    O pitta divide-se em cinco formas – cinco agnis que governam diferentes tipos de transformação no corpo e na mente. Compreender estas cinco chamas ajuda a compreender como a transformação opera em todas as camadas da nossa existência.

    Pācaka Pitta

    Situado entre o intestino delgado e o estômago (madhya – bw pakvāśaya and amāśaya), este é o fogo central, o grande transformador. Digere o alimento (anna pacana), separa os nutrientes (sara kitta vibhajana), fortalece os outros quatro pittas (anugraha/bala to other pittas).

    Pācaka é o fogo da lareira. O ponto de onde todo o calor se irradia. Quando este fogo está forte e equilibrado, tudo o resto funciona. 

    Rañjaka Pitta

    No estômago (amāśaya), rañjaka dá cor ao plasma e ao sangue (rāsa rañjana). É o que tinge, o que colore, o que dá aquele tom vermelho vivo ao sangue que corre nas veias.

    Sādhaka Pitta

    Reside no coração (hṛdaya), governa a inteligência (buddhi), a compreensão (mdhā), o ego saudável (abhimana) e a realização de objetivos (siddhi of abhipreta artha).

    Sādhaka é o que nos faz querer saber, compreender, realizar. É a chama da ambição saudável, da clareza mental, da capacidade de processar experiências e emoções. 

    Ālochaka Pitta

    Situado nos olhos (dṛk), ālochaka governa a visão (rūpa alocana) – não só ver as formas e cores, mas a perceção visual em si.

    Ālochaka é o fogo que ilumina o mundo através dos olhos. 

    Bhrājaka Pitta

    Espalhado por toda a pele (tvak), bhrājaka governa o brilho da pele (bhrajana of twak).

    Bhrājaka é o lustro da pele. O brilho natural. 

    Compreender para Equilibrar

    Conhecer estes cinco pittas é como conhecer os diferentes fogos de uma casa. Todos eles, na sua essência, são expressões da mesma força: transformação. Pitta, em todas as suas formas, é o princípio que digere a vida – não só o alimento, mas as experiências, as emoções, o conhecimento, tudo.

    Sem ele, nada se transforma. Em excesso, tudo se queima. Em equilíbrio, pitta é o fogo sagrado que mantém a vida quente, brilhante e em constante renovação. É o que nos faz arder com propósito, digerir a realidade e transformá-la em sabedoria, momento após momento.

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

    www.instagram.com/ricardo_ayurveda

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  • A combustão de Śukra Maria João Coelho

    ज्योतिष – JYOTIṢA

    A combustão de Śukra (Vénus)

    Sūrya é considerado o Ātman, a alma, regendo a vida e a consciência e é a luz que
    permite que todo o universo se manifeste. Apesar disto e embora de natureza sattvica,
    pura, ele é considerado um graha maléfico pois pelo seu excesso de calor e secura
    pode ser causa de dificuldades, principalmente se existir algum graha muito próximo
    dele. Nesse caso, dá-se um fenómeno chamado de astangata (combustão).

    A combustão é um fenómeno astrológico que acontece quando os grahas (planetas) se
    movem tão próximos do Sol que se tornam invisíveis para nós. Quanto mais um graha
    se aproxima do Sol, mais distante se torna da Terra e quanto maior a sua proximidade
    ao astro rei, menor será a sua força e o seus significados sairão prejudicados, tanto
    quanto no mapa natal de um indivíduo, como quando em trânsito pelo mesmo.
    Devido ao trânsito de Budha (Mercúrio), ser muito idêntico ao de Sūrya, ele nunca fica
    muito distante, podendo estar afastado dele no máximo um signo. Apesar desta
    proximidade, a conjunção dos dois grahas é considerada uma configuração que denota
    também inteligência e capacidades cognitivas.


    Os grahas benéficos naturais (Guru e Śukra) quando combustos, perdem a sua
    habilidade para exercer a sua influência benéfica nas áreas do mapa com as quais se
    relacionam. Por exemplo, Guru combusto poderá prejudicar o tema “filhos” (um dos
    temas significados por Guru) e Śukra, quando combusto, prejudicará a área afetiva (um
    dos temas significados por Śukra). Os grahas maléficos naturais (Maṅgala e Śani), por
    sua vez, ganham a habilidade de exercer uma influência mais maléfica. Isto acontece
    em termos gerais, pois outras configurações do mapa podem atenuar ou acentuar
    estas tendências, como a força do graha, a casa astrológica na qual se situa, as casas
    astrológicas que rege, aspetos que recebe de outros grahas, entre outros.


    Como referido anteriormente, quanto maior a proximidade de Sūrya, mais severos
    tenderão a ser os resultados. Outro aspeto que importa referir é que, os efeitos
    negativos são mais evidentes quando o graha caminha em direção ao Sol do que
    quando ele começa a afastar-se, mesmo que esta distância seja a mesma: os aspetos
    aplicativos são sempre mais potentes que os aspetos separativos.

    As orbes de combustão (distância em graus do Sol) variam de um graha para o outro.
    Hart de Fouw considera as seguintes orbes: 17º para Maṅgala, 14º para Budha (12º
    quando retrógrado,), 11º para Guru, 10º para Śukra (8º quando retrógrado) e 15º para
    Śani. No entanto, a combustão é considerada significativa a partir de 10º, severa a
    partir de 6º e muito severa a partir de 3º.


    Quando um graha se encontra retrógrado (aparentemente a movimentar-se em
    sentido oposto zodiacal), ele distancia-se do Sol e fica mais próximo da Terra. Neste
    caso, o fenómeno da retrogradação é considerado um fator de força para o graha. Ele
    é considerado śākta (forte, poderoso), mas também irreverente, pois um graha
    retrógrado está associado a um comportamento menos previsível do graha, estando
    também associado a indecisões e mudanças de direção. Um graha śākta estará mais
    forte, podendo a sua influência ser potencialmente mais benéfica ou mais maléfica do
    que quando se encontra no estado de movimento direto.


    Desta forma, quando śāktas (em movimento retrógrado), Budha e Śukra, embora
    combustos, estarão mais fortalecidos do que se estiverem combustos e em movimento
    direto, sendo os seus significados beneficiados.
    Outros grahas que também possuem movimento retrógrado, para além de Budha e
    Śukra, são Maṅgala, Guru e Śani.

    Śukra (Vénus) já está combusto neste momento, mas a sua forma mais severa iniciará
    dia 11 de dezembro de 2025 e continua até à primeira semana de fevereiro de 2026.
    Durante todo esse período, Śukra torna-se invisível devido à sua proximidade com o
    Sol e, de acordo com a astrologia védica, e conforme referi acima, a sua força natural
    enfraquece. Como Śukra rege o casamento, o amor, a harmonia, a beleza, a arte, o
    conforto e a prosperidade, esta fase é considerada sensível para o início de novas
    atividades auspiciosas.
    Neste período, eventos como casamentos, grandes eventos familiares, inaugurações
    de casas e estabelecimentos e outras cerimónias semelhantes, são totalmente
    desaconselhadas na medida em que Śukra, neste seu estado enfraquecido, não
    consegue conceder os seus bons resultados e as suas bênçãos. Qualquer coisa iniciada
    durante esta fase pode enfrentar atrasos, desequilíbrios ou instabilidade. Este período,
    segundo a tradição védica, constitui uma excelente oportunidade para refletir acerca dos relacionamentos, desejos e harmonia interior. É um bom momento para
    purificação, para reestabelecer a harmonia. Maior conexão interna, expressar a
    gratidão e abrandar o ritmo são as ações chave para atravessar este período que
    poderá ser mais desafiante para aqueles que são regidos por Śukra, os que possuem
    ascendente em Touro ou em Balança (Libra).


    A partir do início do mês de fevereiro, a energia de Śukra irá de novo restabelecer-se
    com vigor e entusiasmo. Até lá, estejamos conscientes da necessidade de observação,
    de aceitação das contrariedades e aproveitemos este período, que também é de maior
    introspeção no hemisfério norte (começará o inverno muito em breve), para
    recarregar energias e repensar caminhos que queremos trilhar e vivenciar.

    Hari Om
    Maria João Coelho
    Imagem – Fonte: https://pt.vecteezy.com/foto/27005951-flor-de-lotus-branca

  • A importância do Professor jyotisha astrologia védica Maria João Coelho

    ज्योतिष – JYOTIṢA

    A importância da tradição no estudo do Jyotiṣa

    Estudar Jyotiṣa é muito mais do que aprender astrologia.
    É aprender a ver o tempo, o karma, o dharma, e o mistério que vive por detrás de todas as
    formas. É um caminho de autoconhecimento e reverência.
    O Professor é uma figura essencial no caminho do estudo do jyotiṣa e de todas as disciplinas
    védicas. Na tradição védica, o conhecimento é uma transmissão viva (paramparā).
    O professor é aquele que guarda o fio da continuidade, que recebeu a luz e a transmite de
    forma ininterrupta, com humildade e devoção.
    No Jyotiṣa, o professor não ensina apenas fórmulas ou combinações planetárias — ele mostra
    como olhar. Ele ensina o estudante a ver o mapa não como destino fixo, mas como espelho da
    consciência. Sob a orientação de um professor, o estudo deixa de ser uma busca mental e
    torna-se uma jornada interior.
    Sem essa presença, o Jyotiṣa corre o risco de se tornar técnico, fragmentado e mecânico.
    O estudo com um professor é o primeiro passo, o qual é apoiado pelos textos-fonte que são as
    raízes deste conhecimento.
    Obras como o Bṛhat Parāśara Horā Śāstra, Phaladīpikā, Saravali, Bṛhat Jātaka, Jātaka Parijata e
    Jaimini Sutra são alguns dos tratados antigos e são verdadeiros mapas do universo interior.
    Cada verso é uma fonte de sabedoria e a sua linguagem é simbólica, precisa e luminosa.  Ler
    estes textos com reverência é um exercício de humildade.
    Mesmo que o entendimento pareça parcial, é o contato com a fonte que transforma o
    estudante.
    Porque o Jyotiṣa, na sua essência, é menos sobre “aprender” e mais sobre lembrar a luz que
    está presente em nós. 
    O Jyotiṣa não caminha sozinho. Juntos, Jyotiṣa, Vedānta, Sânscrito e Āyurveda formam um
    caminho completo.
    O Vedānta dá o eixo espiritual do Jyotiṣa. Ele ensina que o Ser que observa o mapa é o mesmo
    Ser que faz mover os planetas. O Vedānta lembra-nos que o verdadeiro propósito do Jyotiṣa é
    libertar.
    O Sânscrito faz com que cada palavra de cada texto sagrado ganhe um outro significado, mais
    profundo e mais próximo da fonte.

    O Āyurveda ensina como harmonizar os movimentos dos astros na vida concreta através da
    alimentação, do ritmo, da respiração e da escuta do corpo.
    O conhecimento é uno e toda a busca é, no fundo, o anseio de retornar à unidade.

    Muito grata aos meus professores e a toda a tradição pelos ensinamentos, pelo exemplo, por
    serem farol neste caminho da vida tão sublime, mas por vezes tão sinuoso.
    Ter um professor e uma tradição que nos apoiam, é a bênção que necessitamos para que a
    vida seja mais leve, luminosa e carregada de significado. É o que nos devolve à origem de nós
    mesmos. 

    Hari Om
    Maria João Coelho

  • Vāta: O Princípio do Movimento Artigo de Ricardo Barreto

    आयुर्वेद ,Vāta: O Princípio do Movimento

    Normalmente no sânscrito, há algo no nome que revela tudo. O termo “vāta” deriva da raiz “va gati gandhanayoh krit“. Gati significa mover, originar, conduzir, através de um meio ou efetuar movimento. Gandhana significa entusiasmar, iluminar, promover o esforço contínuo, etc.

    Existem muitos sinónimos de vāta: marūta, anila, samīraṇa, pavana ,todos de certa forma evocam vento, ar, o que circula sem parar. E esta qualidade de movimento constante, calatva, é o que define vāta em tudo. Nunca está parado. O movimento é a sua natureza fundamental.

    vāta emerge da combinação de dois elementos ,vāyu (ar) e ākāśa (espaço/éter). O ar necessita de espaço para se mover, e o espaço ganha vida através do movimento do ar. Esta combinação cria algo seco (rūkṣa), leve (laghu), frio (śīta), áspero (khara), subtil (sūkṣma) e móvel (cala).

    Onde mora o  vāta?

    Os textos dizem que vāta habita principalmente o cólon (pakvāśaya), mas também as ancas (kaṭī), as coxas (sakthi), as orelhas (śrotra), os ossos (asthi) e o sentido do tato (sparśanendriya). E de entre todos estes lugares, o cólon é especial, pakvādhānaṃ viśeṣataḥ, porque é aí que vāta se acumula primeiro quando está em desequilíbrio.

    Pense nisto: obstipação, gases, inchaço são tudo sinais de vāta bloqueado no cólon. E quando o vāta não flui bem ali, começa a afetar tudo o resto.

    O vāta equilibrado

    Quando o vāta funciona bem, traz entusiasmo (utsāha), respiração adequada, tanto a inspiração (ucchvāsa) como a expiração (niśvāsa), todos os movimentos corporais (ceṣṭā), a iniciação dos impulsos naturais (vegapravartana), o transporte correcto dos tecidos (dhātūnāṃ samyaggatyā) e a eficácia dos sentidos (akṣāṇāṃ pāṭava).

    O vāta em harmonia: energia, respiração profunda, movimentos fluidos, a vontade de agir no momento certo, digestão que move os nutrientes para onde precisam de ir, sentidos apurados que captam o mundo como ele é.

    Os cinco subtipos Vāta

    Mas vāta não é apenas uma coisa. Divide-se em cinco formas, cinco vāyus que governam diferentes regiões e funções do corpo. Compreender estes cinco elementos ajuda a compreender como o movimento flui por todas as camadas da nossa existência.

    Prāṇa Vāyu 

    Localizado na cabeça (mūrdha), move-se pelo peito e garganta (uraḥkaṇṭha). Mantém vivos o intelecto (buddhi), o coração (hṛdaya), os sentidos (indriya) e a consciência (citta). Governa a deglutição, o espirro, o arroto, a respiração e a entrada de alimentos. Prāṇa é a porta de entrada. O que traz oxigénio, alimento, informação sensorial, vida. Quando prāṇa está comprometido, a respiração torna-se curta, a mente confusa, os sentidos pesados. 

    Udāna Vāyu

    Situado no peito (uraḥ sthāna), move-se pelo nariz, umbigo e garganta (nāsānābhigalāṃ). Governa a fala (vākpravṛtti), o esforço (prayatna), a energia (ūrja), a força (bala), a cor da pele (varṇa), a memória (smṛti) e todas as atividades (kriyā).

    udāna é o que nos faz levantar de manhã. O que dá força à voz. O que traz cor às suas bochechas. A memória que surge quando se precisa dela. A energia que impulsiona para a ação. 

    Vyāna Vāyu

    Situado no coração (hṛdi sthitaḥ), vyāna move-se por todo o corpo (kṛtsnadehacārī) com grande velocidade (mahājavaḥ). Controla a marcha, os movimentos dos membros, a abertura e o fecho dos olhos (nimeṣonmeṣaṇa) ,praticamente todas as atividades corporais (prāyaḥ sarvāḥ kriyāḥ) dependem dele. vyāna é circulação. O sangue flui, os membros movem-se, a coordenação entre todas as partes. Quando Vyāna está desequilibrado, surgem problemas circulatórios, movimentos descoordenados, tremores e rigidez.

    Samāna Vāyu

    Junto ao fogo digestivo (agnisamīpasthaḥ), samāna move-se por todo o abdómen (koṣṭho carati sarvataḥ). Recebe o alimento (annaṃ gṛhṇāti), digere-o (pacati), separa o que é útil do que não é (vivecayati) e elimina (muñcati).

    Samāna é equilíbrio. O que equilibra a digestão. O que separa a nutrição da toxina. Quando o Samāna funciona, a digestão é suave, a absorção completa e a eliminação regular. Quando falha, há indigestão, má absorção e acumulação de ama.

    Apāna Vāyu

    Na região pélvica (apānagaḥ), move-se pela bacia, bexiga, órgãos reprodutores e coxas (śroṇibastimeḍhrorugocara), apāna rege a expulsão de sémen, sangue menstrual, fezes, urina e feto (śukrārtavaśakṛnmūtragarbhaniṣkramaṇa).

    Apāna é eliminação. Movimento descendente. Quando apāna está equilibrado, a eliminação ocorre naturalmente: menstruação regular, evacuações sem esforço, micção fácil, parto no momento certo. Quando bloqueado, surge obstipação, problemas menstruais, retenção urinária e dificuldades no parto.

    Compreender para Equilibrar

    Conhecer estes cinco vāyus é como ter um mapa prático. Quando se compreende que a falta de ar é prāṇa, que a fadiga é udāna, que a má circulação é vyāna, que a indigestão é samāna, que a obstipação é apāna ,temos informações mais detalhadas  acerca de vāta dosha.

    Mas, todos eles na sua essência, são expressões da mesma força: movimento. vāta, em todas as suas formas, é o princípio que faz com que a vida aconteça. Sem ele, tudo pára. 

    Em excesso ou desregulado, tudo se torna caótico. Em equilíbrio, Vāta é o maestro da orquestra, e faz com que cada parte do corpo toque no momento certo, com a intensidade certa. vāta é o que nos mantém em movimento a cada instante.

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

    www.instagram.com/ricardo_ayurveda

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  • Upadhātu: os tecidos secundários Ayurveda Ricardo Barreto

    आयुर्वेद – Upadhātu: os tecidos secundários

    A maioria das pessoas que estudam o Ayurveda familiariza-se com os sete dhātu — os tecidos primários que formam e mantêm o corpo: rasa, rakta, māṃsa, meda, asthi, majjā e śukra. Estes tecidos são descritos como os blocos de construção fundamentais da fisiologia humana, e por boas razões. Mas há outra camada neste sistema que merece mais reconhecimento: o upadhātu.

    Upadhātu pode traduzir-se como “tecido secundário”, o que infelizmente os faz parecer insignificantes. São tudo menos isso. Estes tecidos são criações intencionais da inteligência inerente do corpo, formadas pelo metabolismo do corpo. 

    Pequeno em Tamanho, Não em Importância

    O Ayurveda descreve como cada dhātu nutre o seguinte numa sequência ordenada. Durante esta transformação contínua, os tecidos secundários emergem naturalmente. Podem existir em quantidades modestas, mas as suas funções estão longe de ser modestas. A qualidade e a condição destes tecidos revelam a eficácia com que os tecidos primários estão a desempenhar o seu trabalho.

    Veja-se o rasa dhātu (os fluidos circulantes do corpo) como exemplo. Quando saudável e abundante, produz leite materno (stanya) e sangue menstrual (ārtava). 

    Não são efeitos secundários, são indicadores de um sistema a funcionar com precisão e inteligência. Quando estão ausentes, são insuficientes ou irregulares, sinalizam problemas mais profundos na forma como o organismo está a processar e a distribuir os nutrientes.

    O Elenco de Personagens

    Diferentes autores interpretaram estas ligações de diferentes maneiras mas 

    • Do rasa dhātu surgem a stanya (leite materno) e a ārtava (sangue menstrual)
    • Rakta dhātu dá origem à sira (vasos sanguíneos), e kaṇḍara (tendões)
    • Māṃsa dhātu produz tvak (pele) e vasa (gordura muscular)
    • Meda dhātu cria snāyu (ligamentos) e (sandhi) articulações
    • Asthi dhātu forma danta (dentes) * 
    • Majjā dhātu gera keśa (cabelo) *
    • Śukra dhātu produz ojas *

    Nada disto é secundário, upadhātus contribuem ativamente para a saúde, demonstrando o quão bem o corpo converte a nutrição em estrutura, força e força vital.

    * de acordo com um texto mais recente os textos mais clássicos não descrevem upadhātu para asthi, majja e śukra.

    O que se perde na tradução

    Na educação ayurvédica típica, a maior parte da atenção volta-se para os sete dhātu primários, e é aí que a conversa termina. A medicina moderna também reconhece muitos destes tecidos secundários, mas trata-os como estruturas isoladas, em vez de expressões de processos metabólicos subjacentes. De qualquer forma, os upadhātu, muitas vezes permanecem invisíveis nas discussões sobre saúde.

    Esta omissão tem consequências. Como estes tecidos estão tão intimamente ligados ao dhātu original, revelam frequentemente desequilíbrios precocemente, por vezes bem antes de surgirem problemas mais evidentes. As menstruações irregulares não são apenas um problema ginecológico; são um alerta precoce sobre a função do rasa dhātu. As alterações na qualidade da pele podem indicar problemas com o māṃsa dhātu antes que qualquer outra coisa pareça errada.

    Nas Entrelinhas

    Compreender os upadhātus muda a forma como interpretamos as mensagens do corpo. A saúde não se refere apenas aos principais tecidos que conhecemos primeiro. Trata-se também destas expressões mais silenciosas e subtis que nos mostram como todo o sistema funciona em conjunto.

    Da próxima vez que pensar na sua saúde, observe o que estes tecidos lhe estão a dizer. A sua pele, o seu ciclo menstrual, a produção de leite materno, a condição dos seus tendões. São os dhātus a falar. Quando aprendemos a sua linguagem, desenvolvemos uma compreensão mais precisa, precoce e abrangente do que significa realmente ser saudável.

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

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  • Saturno e as prioridades da vida astrologia vedica maria joão coelho

    ज्योतिष – JYOTIṢA – Saturno e as prioridades da vida

    Nos últimos dias em conversa com o Professor Paulo Vieira, conversávamos acerca do
    tempo, ou da falta dele e da necessidade de priorizar aquilo que realmente é
    importante na nossa vida. Sendo um assunto que já há alguns meses não abandonava
    o meu pensamento, ficou bastante claro para mim que este seria o tema do artigo
    deste mês, pela sua pertinência e relevância. E por este motivo, a presença de Saturno
    neste momento é fundamental!
    Saturno é o senhor do tempo — aquele que tudo observa, tudo mede e tudo
    amadurece. Ele não tem pressa, mas também não se distrai!
    Há momentos na vida em que vivemos períodos ou subperíodos de Saturno, ou
    momentos em que ele transita por locais bem especiais do nosso mapa e sentimos bem
    a sua presença. Essa presença sente-se quando o excesso nos cansa, quando
    percebemos que não dá mais para viver no modo automático, quando entendemos que
    na vida não dá para colocar a nossa energia em tudo. Quando Saturno chega, ele
    mostra tudo o que não vale mais a pena o nosso esforço e coloca-nos dúvidas e
    incertezas que depois de assentes na mente não se vão embora sem resolução. Ele
    chega como um silêncio que pesa, mas que também traz clareza. É nesse espaço que
    começamo-nos a questionar acerca do que realmente vale o nosso tempo, a nossa
    energia, o nosso coração.
    E então, depois de nos debatermos longamente com os nossos pensamentos, anseios,
    sonhos, ilusões e desilusões, chegamos a um ponto sem retorno, no qual sentimos que
    para continuar, há que parar. Por vezes para mudar de rumo, outras vezes apenas para
    ganhar fôlego para avançar com mais força e certeza.
    Definir prioridades é um exercício de maturidade — e talvez o mais difícil deles. É
    reconhecer que não podemos estar em todos os lugares, agradar a todos, fazer tudo ao
    mesmo tempo. Saturno ensina-nos que toda a escolha tem um custo, e que a liberdade
    verdadeira nasce quando aceitamos esses limites, mas sem revolta interior.

    Ele lembra-nos que o tempo é o grande mestre: cada ciclo que termina abre espaço
    para o essencial. Às vezes, isso exige deixar ir, desacelerar, reorganizar o que
    construímos. E, no meio dessa limpeza silenciosa, algo se alinha dentro de nós — uma
    sensação de propósito, de direção, de paz.
    Saturno não é cruel. Ele apenas nos devolve à realidade, para que possamos escolher
    com consciência o que sustenta a nossa vida!

    Om Sham Shanicharaya Namah.
    Maria João Coelho
    Fonte da Imagem: https://thiruvadidharisanam.com/sani-pooja/

  • ojas-a-forca-subtil-da-vida-ricardo-barreto

    आयुर्वेद – Ojas: A Força Subtil da Vida

    Se já conheces um pouco de  Ayurveda, provavelmente já ouviste rumores sobre Ojas. É uma daquelas palavras que resiste a uma tradução rápida. Uns chamam-lhe vitalidade, outros imunidade, mas os textos vão um pouco mais fundo.

    O que significa?

    A palavra Ojas vem da raiz sânscrita ubja com o sufixo asun, que significa força e brilho. Os autores clássicos descrevem-na frequentemente como a “força brilhante” dentro de nós, o brilho invisível que mantém a vida estável.

    Ao longo dos séculos, o Ayurveda usa muitos sinónimos para ojas: bala (força), prasāda (pureza), dhāri (aquilo que mantém a vida unida) e até jīva-śoṇita (o princípio vital do sangue). Cada sinónimo aponta para a mesma ideia: Ojas é o que faz a vida parecer viva.

    De onde vêm?

    O Ayurveda descreve os sete tecidos corporais (dhātus). No final desta cadeia da formação destes tecidos emerge o extrato mais subtil: Ojas.

    Para ilustrar, o comentador Dalhaṇa apresenta uma imagem: tal como o ghee se esconde no leite e só se revela depois de ser batido, Ojas escondem-se em cada tecido e brilha após o metabolismo adequado (Suśruta Saṃhitā 15/19).

    Algumas autoridades, como Vāgbhaṭa e Śārṅgadhara, debatem se o Ojas é a “essência” do tecido reprodutor ou simplesmente o seu subproduto, mas o consenso mantém-se: sem Ojas, o corpo não pode viver.

    As duas formas

    Os textos descrevem dois níveis:

    • Para Ojas – a forma suprema, com apenas oito gotas em quantidade, localizada no coração. Se for perdida, a vida termina instantaneamente (Caraka Saṃhitā 15/9).
    • Apara Ojas – a forma circulante, medida como meio añjali (um punhado). Esta espalha-se pelo corpo, sustentando os tecidos e refletindo a nossa força imunitária.

    A aparência de Ojas

    Os autores ayurvédicos atribuem ao Ojas quase um perfil sensorial: é fresco, suave, denso, branco como o ghee com um toque vermelho-dourado, doce como o mel e perfumado como grãos torrados (Caraka Saṃhitā 24/31). 

    Estas eram formas de descrever a estabilidade e a riqueza da essência da vida.

    Funções de Ojas

    Os clássicos são claros: Ojas são a base da vitalidade (Suśruta Saṃhitā 15/20).

    • Nutre o corpo e a mente.
    • Estabiliza o crescimento e a força muscular.
    • Assegura a clareza dos sentidos e a resiliência da mente.
    • Dá à voz uma qualidade agradável e à tez, o seu brilho.

    Em linguagem moderna, pode dizer-se que o Ojas é a forma ayurvédica de descrever a imunidade profunda, o vigor e a estabilidade mental, tudo num só.

    Quando Ojas é perturbado

    Os textos alertam ainda para o que acontece quando Ojas enfraquece: fadiga, medo, falta de confiança, pele fraca, enfraquecimento do corpo (Caraka Saṃhitā 17/73).

    Três distúrbios progressivos são descritos:

    • Oja Visraṃsa – deslocamento – quando Ojas saem do seu sítio, manifestado por frouxidão das articulações e fadiga.
    • Oja Vyāpata – viciação – marcada pela rigidez, inchaço e perda de tez saudável.
    • Oja Kṣaya – esgotamento –  leva à confusão, ao colapso e, eventualmente, à morte. (Suśruta Saṃhitā 15/24).

    Porque é que são Ojas importantes?

    Talvez a passagem mais marcante venha do Caraka Saṃhitā: Ojas é listado como o mais elevado dos centros de vitalidade do corpo (prāṇāyatana). Sem ele, nem os doshas mais equilibrados conseguem funcionar.

    Para o feto, diz-se que Ojas oscila no oitavo mês de gravidez, tornando a sobrevivência incerta se o nascimento ocorrer nessa altura. Para o adulto, é o reservatório oculto que decide se podemos resistir às doenças, recuperar das dificuldades e manter a força constante ao longo da vida.

    Em termos simples

    Ojas não é algo que se possa ver ao microscópio. É uma forma clássica ayurvédica de nomear a “cola invisível” da vida, são a essência destilada de toda a nossa nutrição, resiliência e radiância. 

    Quando os Ojas estão abundantes, sentimo-nos fortes, estáveis e lúcidos. Quando estão esgotados, tudo o resto vacila.

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de Ayurveda

    www.instagram.com/ricardo_ayurveda

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