• Dores de crescimento Paulo Vieira

    As dores de crescimento

    A maior escola é o universo e a própria vida é a sala de aula. Se viver fosse um contrato de trabalho, então, uma das alíneas seria, obrigatoriamente, o compromisso individual pelo ganho de sabedoria e maturidade.


    O ganho de sabedoria e maturidade pressupõe necessariamente duas coisas, honestidade intelectual e honestidade emocional.


    Honestidade intelectual é a admissão clara da nossa própria ignorância, para nós mesmos e perante os demais também. Não pretenda aparentar ser mais sábio do que é. Liberte-se da pressão que isso gera de uma vez por todas e seja franco e justo sobre o que sabe e o que não sabe. O processo de encontro desta honestidade dói porque o ego não gosta de se sentir inferior, mesmo quando o é. Esta é uma das dores de crescimento.


    Honestidade emocional é a admissão clara das emoções, perante nós mesmos e perante os demais. Esta admissão revela-se muito difícil para as pessoas ditas espirituais e é muito comum no mundo do yoga e da meditação, onde esconder sentimentos e emoções parece ser uma prática geral. Fingem estar tudo bem, quando não está e têm vergonha de admitir que não está. Como é que um professor de yoga irá admitir que está triste e deprimido, quando o que ensina é que somos paz e felicidade?!


    Há que sair da visão estereotipada e ser autêntico. A viagem até à autenticidade gera muitas dores de crescimento pois há que encarar a pessoa emocional, que não é agradável e geralmente é escondida.
    As pessoas querem crescer, querem tornar-se a melhor versão, querem superar-se, etc. Para tal, é necessário sair da área de conforto e sentir desconforto. Não há outra alternativa. Se deseja crescer, consciencialize-se e convença-se que terá dores de crescimento e que estas fazem parte do processo.

    Paulo Abreu Vieira

    Professor de Vedanta e Fundador do Centro Arshavidya

  • Vedanta nao é fast food

    Vedānta não é “fast-food”

    Numa sociedade que corre desenfreadamente e competitivamente em busca de resultados rápidos somos condicionados e treinados para desejar resultados rápidos. A ideia é esta: queremos tudo, e queremos para ontem.


    Desta forma, cultiva-se, quase inevitavelmente, a cultura da impaciência e a cultura da desistência. Não há paciência para esperar por resultados que não sejam rápidos, ou, pior ainda, há a tendência para desistir daquilo que aparenta não dar resultados imediatos.


    Olhando para a natureza apreciamos que tudo surge no tempo que tem que surgir. Uma semente poderá permanecer na terra sem germinar por duas semanas inteiras após ter sido semeada. Uma árvore poderá demorar anos para dar frutos. Os seres humanos só se tornam férteis na adolescência, etc. Há certas coisas na vida que demoram para dar fruto e talvez sejam as que mais realização trazem. Vedānta é uma delas. Vedānta não é fast-food. Não existe algo chamado Mac-mokṣa.


    O estudo demora o seu tempo e não há milagres. Há sim, um compromisso com um projeto de amadurecimento emocional que acompanha o estudo de Vedānta apoiado pelas práticas coadjuvantes que em si constituem o que é chamado de “uma vida de karmayoga”.


    Mokṣa é um projeto que requer a dedicação de uma vida, é um compromisso vitalício. Quem “vende” resultados rápidos está enganado e no seu engano engana os demais. Não se deixe enganar. Empenhe-se, mantenha-se empenhado e o fruto do Vedānta certamente virá.

    Paulo Abreu Vieira

    Professor de Vedanta e Fundador do Centro Arshavidya 

  • Swami Dayananda Ashram

    Vedanta Camp no ashram do Swami Dayananda em Rishikesh

    De 10 a 14 de novembro de 2023, o Acarya Paulo Abreu Vieira, fundador do Centro Arsha Vidya em Portugal, conduziu um Vedanta camp onde ensinou aos alunos versos selecionados do Bhagavadgita, transmitindo-lhes também o conhecimento do karmayoga como a visão da unidade.

    O grupo contou com as bênçãos de Swami ji Sakshakrtananda na forma de sua presença e também na forma de duas aulas de Vedanta, a primeira ocorrendo no início do camp e a segunda no final.

    Swami ji falou sobre a história do Dayananda Ashram e também sobre a grandeza de Pujya Swami Dayananda. Em seguida, ele ensinou aos alunos que o eu é diferente de todos os papéis que desempenhamos na vida, transmitindo de forma brilhante o conhecimento de que a consciência está sempre intocada pelos problemas e fricções que fazem parte do desempenho de papéis.

    Os alunos tiveram também a oportunidade de frequentar aulas de Yoga uma vez que o grupo contava com duas professoras de Yoga, Sónia Monteiro e Sónia Vilela, ambas portuguesas. Esta foi uma oportunidade para todos os estudantes, alguns de Portugal e outros do Brasil, vivenciarem em primeira mão o estilo de vida num ashram Vedanta. Todos gostaram e foram enriquecidos pela experiência e pelo ensino.

  • Vedanta

    Amizades e Vedānta

    O estudo de Vedānta só é efetivo se o estilo de vida for adequado. Por estilo de vida digo uma vida de karmayoga, que é uma vida de valores éticos e morais, e também uma vida de contribuição social e comunitária na qual se deseja diminuir o impacto mental nocivo das paixões e aversões, em sânscrito chamadas de rāgas e dveṣas, respetivamente. Como diz um dos meus mestres, o Swami Sadātmānanda, não existem dois compartimentos de vida diferentes, “a vida de Vedānta” e a “a minha vida pessoal”. Para Vedānta funcionar, Vedānta é o compartimento e a vida deverá ser Vedānta.


    Se Vedānta é uma prioridade, terão que haver escolhas de vida conducentes e de suporte ao Vedānta. As escolhas são relativas ao uso do tempo de vida e ao uso das companhias que escolhemos para usar esse tempo. A verdade é que uma boa parte do tempo de vida tem que ser usado para o Vedānta para que este dê frutos. Outra verdade é que as amizades ou companhias deverão, pelo menos, não atrapalhar o estudo.


    “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” – este é um dito popular muito conhecido e que tem muito de verdade. Portanto, rodeie-se de pessoas que o apoiem nos seus objetivos. Rodeie-se de pessoas que o ajudem a ser uma pessoa melhor. Rodeie-se de pessoas que tragam inspiração para a sua vida. Evite a companhia de pessoas que não seguem o dharma. Se alguns amigos seus não têm valores éticos e morais e são dados a ações impróprias, talvez seja melhor ponderar se essas amizades são benéficas para si. Talvez não sejam. Se não forem, não invista nelas.

    Paulo Abreu Vieira

    Professor de Vedanta e Fundador do Centro Arshavidya 

  • Otimismo ou realismo

    Otimismo ou realismo

    Entre o ideal e o factual a distância geralmente é grande. Aquilo que consideramos ótimo para nós é muitas vezes uma forma de idealismo, uma meta quase inalcançável, uma utopia. O factual é a verdade crua e nua que se relaciona com os factos da vida, aqueles que permanecem inalteráveis mesmo perante um idealismo de grande potencial.

    Estas duas posições, chamemos-lhes assim, vêm de duas atitudes diferentes. A primeira é o positivismo, que descamba no otimismo. A segunda é o objetivismo, força que nos coloca da apreciação real das coisas, tal e qual elas são, sem desculpas ou negacionismos. Ser positivo é interessante, porém é falacioso, pois na sua génese reside a omissão daquilo que é negativo.

    Tal omissão degenera num conhecimento parcial das coisas, que é aquele que prefere e elege as ditas coisas positivas, agradáveis, convenientes até. Esta parcialidade cognitiva é a causa de muitos prolemas da vida, aqueles derivados da falta de coragem de lidar com aquilo que é considerado negativo e que precisa de ser visto como tal, para que se possa melhorar e crescer. Ser realista, por outro lado, permite a obtenção de um conhecimento mais integral, pois aqui há ausência de um negacionismo covarde, e dá-se então, desejavelmente, claro, a contemplação e a confrontação daquilo que consideramos ser negativo, para que se possa melhorar e crescer.

    Dito isto, cabe a cada um escolher ou descobrir para onde tende, se para o otimismo ou para o realismo. Se o propósito é crescer e é para isso que cá estamos, não somente como estudantes de Vedānta mas também como humanos, então, certamente o realismo bate em muitos pontos o realismo na corrida de ajuda ao crescimento. E ainda, ser maduro deverá incluir a capacidade de análise daquilo que realmente consideramos negativo nas nossas vidas, para que a mudança para melhor efetivamente aconteça. Aponte para o céu, mas esteja pronto para acertar na terra.

  • Vedanta Paulo Abreu Vieira

    Vedānta não é erudição académica

    A exposição continuada ao ensinamento de Vedānta, que consiste em assistir às aulas de forma regular e comprometida põe o aluno em contacto com a imensa vastidão e a profundidade da literatura de Vedānta existente, que dá suporte e ajuda aos professores, e que coadjuva e complementa o ensinamento das Upaniṣads, que por vezes é encriptado e precisa de mais explicações.


    Perante tal visão da imensamente vasta e profunda literatura de Vedānta e perante a visão da incapacidade humana de estudar tudo numa só vida, a tentativa de alguns é a de cobrir o máximo de literatura, num esforço mais académico e de erudição do que o de ganhar a verdadeira compreensão e visão da não dualidade, que afinal de contas é o grande objetivo do estudo. O objetivo do estudo de Vedānta não é a erudição académica, mas sim, o ganho da visão de que o Eu é Absoluto e Ilimitado.


    Esquecendo este propósito, ou, talvez, estando presos aos padrões consumistas antigos e muito enraizados da mente ignorante, inconscientemente redirecionam a mente consumista e samsārika para a “aquisição” de mais “um texto de Vedānta”. O objetivo passa a ser a aquisição de textos estudados para fins académicos e de massagem ao ego, e não para o ganho da visão da não dualidade.


    Estas palavras não são uma crítica, apesar de poderem ser interpretadas erradamente como tal. São sim, e esse é que é o propósito, uma chamada de atenção para o objetivo do estudo, que é, e repito, o ganho da visão do Eu Ilimitado e não o academismo intelectual.


    Também poderá ser comum em alguns alunos mais antigos e em alguns professores, desenvolverem para si mesmos e por si mesmos uma “pseudo-hierarquia” do género: “como já estudei mais textos, sou mais avançado, sou hierarquicamente superior”, ou “como residi mais anos na Índia, sei mais de Vedānta”, etc. Estas hierarquias são fantasiadas por egos inseguros que ainda precisam de aprovação e revelam que algures o caminho desviou-se. Como dizia o Swami Chinmayananda: “Não interessa em quantas Upaniṣads tocaste, interessa sim quantas te tocaram”.
    Relembre que o propósito do estudo são dois tipos de maturidade: 1 – emocional; 2 – espiritual. Boa sorte para os seus estudos!

    Paulo Abreu Vieira

    Professor de Vedanta e Fundador do Centro Arshavidya 

  • O mundo é a nossa casa. Artigo por Paulo Abreu Vieira

    O Mundo é a nossa Casa

    As identificações do ego são muitas e o ego precisa delas, até certo ponto, pelo menos. Uma delas, e muito bem enraizada, é a identificação com o nosso lugar – “é aqui que eu pertenço”, “esta é a minha casa”, “esta é a minha rua”, “esta é a minha cidade”, “este é o meu país”.


    Repare: não existe “meu” nem “minha”, se conseguir ver que a posse é transitória, temporal…de facto bem breve dada a idade do Universo.
    Esta identificação com o lugar é instintiva e social. Instintiva porque somos animais e estamos instintivamente programados para defendermos aquilo que nos pertence, como a nossa propriedade. Social porque somos condicionados e programados para pensarmos que pertencemos a um dado lugar, como uma cidade ou país.


    Fruto desta identificação surgem conflitos desnecessários com os outros que não pertencem ao mesmo lugar que nós e, nesse sentido, parecemos não diferentes dos animais irracionais, que disputam até à morte o território.


    Então, há que pensar com uma certa profundidade para conseguir transcender as barreiras da mente instintiva e da programação social que nos encerram, por vezes mortalmente, dentro de um modelo fragmentador e separatista. A verdade é que somos todos pessoas a viver num planeta mágico – um pequeno berlinde azul, se visto de muito longe – inserido num todo harmonioso chamado Universo.


    Se existe um lugar ao qual todos pertencemos, sem exceção alguma, esse lugar é este mundo, este cosmos, livre de fronteiras e espaçoso o suficiente para todos podermos viver em harmonia.
    Liberte-se da territorialidade, liberte-se dos “patriotismos”. Somos todos Um Universo em movimento expressando algo fundamentalmente transcendente e eterno, o Ser.

    Paulo Abreu Vieira

  • Vedanta e os relacionamentos amorosos

    Como o Vedānta pode ajudar nos relacionamentos amorosos

    Um dos maiores desafios para os seres humanos são os relacionamentos amorosos, porque é neles que os grandes desafios emocionais inevitavelmente aparecem.

    Dentro da tradição de Vedānta um relacionamento íntimo a longo prazo, como o casamento ou a união de facto, é Yoga. Significa isto que deverá servir para o crescimento emocional de ambos. De facto, qualquer relacionamento com o mundo deverá ser visto como Yoga.


    Um grande objetivo do Yoga é diminuir as tendências impulsivas da mente que tantas vezes são contrárias ao dharma – à ética e à moral – e que afastam a pessoa da paz, da tranquilidade e da felicidade que ela tanto procura e deseja para si. Paralelamente, o objetivo do Yoga é também o de conseguir fazer aquilo que realmente deve ser feito a cada momento e que está de acordo com os vários papéis da vida, como o de mãe, pai, irmão, companheiro, filho, profissional, etc. Portanto, Yoga é decidir e agir de forma informada seguindo a ética e os valores para que as tendências instintivas e impulsivas da mente percam progressivamente o seu poder potencialmente e geralmente nefasto. Falar é fácil, o Yoga é difícil.


    É muito comum no relacionamento surgir insegurança, ciúme, medo da perda, ansiedade, raiva, necessidade de controlar e desentendimentos sobre as tarefas da casa. Tudo isto tem que ser endereçado e trabalhado para que sirvam para crescer e não para detonar o relacionamento e transformá-lo num suplício.


    O Vedānta ajuda a identificar e a superar as emoções desagradáveis que podem prejudicar as relações e mostra que cada ser humano naturalmente as tem, o que possibilita o desenvolvimento de empatia. Para além disso, como confere a realização interior e a verdadeira felicidade, a pessoa deixa de as procurar no outro, evitando assim a dependência emocional. E como incentiva a prática da compaixão, da gratidão e da humildade, que ajudam a fortalecer e a enriquecer o relacionamento. Para além disso, no Vedānta há o grande benefício que advém da convivência com os restantes alunos que são um suporte de crescimento e de ajuda. Finalmente, a presença do professor nos momentos de maior dificuldade ajuda a dar uma orientação.

    Paulo Abreu Vieira

  • Poema Paulo Abreu Vieira

    Milagre mais evidente do que este

    Beija-me a brisa ao de leve a pele num gesto terno de pura calma,
    da janela mergulho na magia das cores que entram na alma…
    são colorido fogo criativo, são a divina dança de Śiva,
    cuja fragrância do milagre da vida faz a minha mente cativa.

    O gesto esvoaçado de um pardal pintado de liberdade,
    os risos gritados, bonitos e puros da inocência da mocidade
    a dança das folhas e flores embaladas por melodiosa brisa,
    tudo isso é a Verdade, é expiração poética que a alma improvisa.

    E esse mesmo é o fio que tece os pensamentos,
    E que une as memórias dos amores, dores e fantasias,
    e que alimenta a imaginação e a esperança de melhores dias.

    Uma só força, imaterial, atemporal, imaculada e imutável impera e
    permeia todo e qualquer ser deste quadro vivo de êxtase e felicidade.
    Preso na contemplação da verdade, aprecia-te, és pura liberdade.

    São urdidos os seres por poder maior que os ultrapassa,
    vivificados pela eterna presença que sempre os abraça.
    São expressão finita da infinitude, limitações do ilimitado,
    são o amor feito vida por tantos poetas cantado.

    São um rio de força que desce e sobe ao mesmo tempo,
    E tudo isso contido num só eterno momento,
    O Agora, este mesmo, cuja origem é lugar nenhum,
    a que os visionários unanimemente chamam de Um.

    Paulo Abreu Vieira

  • Análise gramatical da Bhagavadgita Paulo Abreu Vieira

    भगवद्गितायाः व्याकरणम् – Análise gramatical da Bhagavadgītā (continuação)

    Símbolos usados na análise gramatical:
    √ – raíz verbal; ⊘ – indeclinável; m – género masculino; f – género feminino; n – género neutro; I/1 – primeira pessoa singular; II/1 – segunda pessoa singular (a numeração romana indica a pessoa, a numeração indo-arábica indica o número, que pode ser singular, dual ou plural; 1/1 – 1º caso singular; 1/2 – 1º caso dual; 1/3 – 1º caso plural; 2/1 – 2º caso singular (existem oito casos, vibhaktis, no total; 7/1 – sétimo caso singular; P – parasmaipadī; Ā – ātmanepadī; U – ubhayapadī; VA – voz ativa (kartari prayoga); VP – voz passiva.

    अर्जुन उवाच ।
    दृष्ट्वेमं स्वजनं कृष्ण युयुत्सुं समुपस्थितम् ॥ १.२८ ॥
    सीदन्ति मम गात्राणि मुखं च परिशुष्यति ।
    वेपथुश्च शरीरे मे रोमहर्षश्च जायते ॥ १.२९ ॥

    पदच्छेदो (सन्धिच्छेदः) विभक्तिपरिच्छेदः पदार्थो व्युत्पत्तिश्च
    अर्जुनः 1/1m – Arjuna; उवाच III/1, 2P√वच् (वच, परिभाषणे), लिट् लकारः, VA (कर्तरि प्रयोगः) – ele disse:
    दृष्ट्वा Ø 1P√दृश् + क्त्वा – tendo visto, vendo; इमं 2/1m सर्वनाम, इदम् शब्दः – este; स्वजनं 2/1m – minha gente (स्वस्य जनः स्वजनः, तम्); कृष्ण 8/1m – ó Kṛṣṇa; युयुत्सुं 2/1m – desejoso de lutar (योद्धुम् इच्छुः) युयुस्तुः, तम्); समुपस्थितम् 2/1m, सम्-उप-1P√स्था + kta – presente, reunidos, estacionados; सीदन्ति III/3 1P√सद् – fraquejam; मम 6/1 सर्वनाम, अस्मद् शब्दः – meus; गत्राणि 1/3n – membros; मुखं 1/1n – boca; च Ø – e; परिशुष्यति III/1, परि-4P√शुश् – seca, está seca; वेपथुः 1/1m – tremor; च Ø – e; शरीरे 7/1n – no corpo; मे – meu; रोमहर्षः 1/1m – eriçar dos pelos; च Ø – e; जायते III/1, 4A√जन् – nasce, surge.

    अन्वयः
    अर्जुनः उवाच ।
    इमं युयुत्सुं समुपस्थितम् स्वजनं हे दृष्ट्वा कृष्ण मम गात्राणि सीदन्ति मुखं च परिशुष्यति मे शरीरे वेपथुश्च रोमहर्षश्च जायते ॥
    V.1.28 e 1.29 – Arjuna disse: Ó Kṛṣṇa, tendo visto esta minha gente aqui presente (e) desejosa por combater, os meus membros fraquejam, a minha boca seca, surge (um) tremor no meu corpo e os (meus) pelos ficam eriçados.

    Paulo Abreu Vieira

  • A Necessidade de Uma Mente Madura para a Libertação

    Vedānta é um caminho só de ida no qual é inevitavelmente necessário deixar para trás a tralha que só atrapalha a viagem. Isso passa obrigatoriamente por crescer emocionalmente, e quem não quiser crescer ou achar que não precisa de crescer, não conseguirá fazer a viagem e estará a enganar-se a si mesmo, lamentavelmente.
    Para a pessoa com inteligência média assistir às aulas de Vedānta e ganhar o vislumbre do ensinamento não é assim tão difícil, especialmente se o professor for um comunicador hábil que transmita o conhecimento de forma simples e clara. De facto, é inevitável que esse vislumbre aconteça; irá certamente acontecer. Se a pessoa tiver foco mental e a fase da vida em que a pessoa assiste mais entusiasticamente às aulas for boa, é de esperar que a pessoa ganhe um entendimento superficial da natureza da realidade. Digo isto porque o Vedānta, sendo um pramāṇa, meio de conhecimento, funciona, é eficaz.
    O entendimento não é tudo no Vedānta, é uma parte de um todo que precisa de ser completo para que o fruto do conhecimento se manifeste. O estilo de vida chamado de Yoga é uma parte importante e fundamental, sem a qual, Vedānta está destinado a fracassar. O Yoga deverá preceder o Vedānta – esta é a condição intransponível. Se deseja ganhar o conhecimento inabalável do Eu maior, da realidade, então, nesse caso, viva uma vida de Yoga.
    Yoga é o processo de vida através do qual certas qualidades e virtudes são ganhas e a que chamamos de maturidade emocional e espiritual. A Bhagavadgītā, o maior tratado de Autoconhecimento e Yoga, menciona algumas – amānitvam, ausência da exigência de respeito, adambhitva, ausência de exibicionismo ou pretensão, ahimsā, não-violência, kṣānti, aceitação objetiva, arjavam, integridade ou alinhamento entre pensamento palavra e ação, etc. Noutras obras, outros mestres mencionam as virtudes que constituem em si a elegibilidade para o entendimento, chamadas de sādhana-catuṣtaya, o conjunto dos quatro meios (indiretos) para o conhecimento: viveka, discriminação e discernimento, vairāgya, desapego ou desprendimento, śamādi, calma e tranquilidade, etc. A lista das qualidades e virtudes a serem ganhas é grande e importante. Todos os mestres as realçam e não se cansam de lhes atribuir valor.
    Sem o ganho destas virtudes a mente será instável, conflituosa, irrequieta e tremendamente problemática, causando muita aflição. As virtudes ou os valores incidem na mente, pois é na mente que grande parte do trabalho tem que ser feito, tanto a nível emocional como focal.
    Sem emoções relativamente apaziguadas e sem capacidade de gestão emocional não há conhecimento que aguente e o vislumbre ganho na aula não impacta. Sem capacidade de foco continuado não há a possibilidade de contemplação séria e sem contemplação não há assimilação do conhecimento. As qualidades e valores a serem buscados pelo aluno de Vedānta tornam a mente um recipiente saudável onde o conhecimento permanece para ser apreciado. Caso contrário, a mente é como um recipiente rachado e disfuncional. O conhecimento esvair-se-á pelas rachadelas da sua mente e por mais que se queira retê-lo, a impossibilidade da retenção impõe-se tiranicamente.
    Se a mente é o recipiente onde o conhecimento é recebido e retido, nutra-a. Diligentemente aprenda a melhorar a condição da sua mente. Impregne-a de compaixão, de compreensão, de calma, de discernimento, de foco, de paciência e de todos os valores que o Vedānta menciona.
    Não tente contornar a tradição de ensino, pensando que é mais esperto ou sábio do que ela. Receba de coração aberto os ensinamentos, sejam sobre Yoga ou Vedānta, e entenda que sem maturidade a libertação é um castelo nas nuvens.
    Maia, Março de 2023
    Paulo Abreu Vieira

  • A Coragem de Olhar para Dentro

    Geralmente quando se pensa em coragem associamo-la aos atletas de desportos de combate, de desportos radicais, ou a profissões de risco nas quais é grande e constante a convivência com a iminência da morte. Penso que tal associação está correta e é muito válida, porque, de facto, esses atletas e profissionais acima referidos têm muita coragem. Afinal de contas, enfrentar a própria morte ou a possibilidade elevada de uma lesão física que poderá limitar para sempre a vida é um sinal de grande coragem e é, definitivamente, louvável e memorável.

    Contudo, agora gostaria de trazer a atenção do leitor para outro tipo de direcionamento dessa força interna chamada coragem. Falo-lhe da coragem para olhar para dentro e ver, muito honestamente, o que precisa de ser visto, sem rodeios, sem desculpas e sem negações.

    Somos feitos de bom e de mau. Em cada um há um tanto de coisas boas a que poderemos chamar de virtudes e valores e há, também, inevitavelmente, outro tanto de coisas más – ou que conotamos como más – a que podemos chamar de defeitos ou desvirtudes. Nem tudo são rosas nos seres humanos.

    Acontece que somos ou estamos treinados para mostrar o nosso bom e esconder o nosso mau, até porque essa é uma forma segura de sermos aceites e amados pelos outros, como é óbvio, facilmente entendível, necessário e muito desejável numa sociedade, pois, para que uma sociedade funcione bem, é necessário que todos nos possamos entender e respeitar, no mínimo, e, utopicamente, que nos possamos amar e acolher, mesmo perante as enormes divergências mútuas.

    Será que o bom que mostramos é realmente o nosso genuíno bom? Ou será o bom que os outros querem ver e que é necessário mostrarmos para sermos aceites e amados? Ou seja, será que estamos a fazer de conta que somos bons, ou estamos mesmo a mostrar bondade genuína? A resposta a estas questões é difícil e cada um tem que olhar para dentro e descobrir. Para olhar para dentro é necessário muita coragem pois corremos o risco de ver coisas das quais não gostamos. Este é o risco de descobrir a verdade – pode ser dura de aguentar.

    Falo-lhe do lado sombra que tende a ficar na penumbra, em silêncio, esquecido, adorando passar despercebido como se não existisse. E uma parte de nós sabe que ele existe, mas é conivente e negligente, ou mesmo covarde – é preferível não olhar para o que é feio, pois assim não se sente a dor da feiura. E todos temos muita feiura escondida para a qual nos recusamos a olhar.

    O guerreiro interno recusa-se à covardia pois sabe muito bem que dela advém a estagnação ou a regressão do processo de maturidade e isso é insuportável para ele, que já descobriu a glória que lhe é destinada por direito. Por isso cavalga para essa glória, deseja esse triunfo sobre a sombra, sobre o seu lado de feiura.

    Amor que é amor, ama o feio e o bonito, simplesmente por que ama, e quando esse amor ama, vê o feio como bonito. Tal é o poder do amor e a sua intrínseca incondicionalidade. Seguindo o mesmo trajeto de pensamento, o amor próprio é aquele que acolhe todas as dimensões psicológicas que coabitam internamente, sejam elas de carácter esteticamente belo ou não. Então, olhar para o lado sombrio da psique é amor próprio e é coragem também, pois é a certeza do encontro da feiura que jaze em cada um e do sentir das dores subsequentes desse triste mas glorioso encontro.

    Não é fácil admitir a mentira entranhada na forma de ser e esculpida anos a fio pelo cinzel da ignorância e da vergonha. Não é fácil admitir a inveja do sucesso dos nossos irmãos e amigos, que desejam intimamente a mesma felicidade e realização que todos os outros.  Não é fácil admitir as raivas suprimidas por desejos de agradar e de aceitação, que tantas vezes nos separam daquilo que deveríamos ter sido. Não é fácil brilhar na presença daqueles que ainda não têm luz pois a antecipação da pena crucifica essa nossa luz. Não é fácil chorar as nossas fraquezas quando todos esperam a nossa força, porque eles mesmos são fracos. Não é fácil olhar para dentro, pois se o fizermos de forma honesta e corajosa iremos descobrir o quanto falta crescer.

    Olhar para dentro é amor próprio e amar nunca foi fácil. Todavia, se amar é incondicional e acolher, então amor próprio é o acolhimento incondicional de tudo aquilo que somos, tanto de mau, quanto de bom.

    Fevereiro 2023

    Paulo Abreu Vieira

  • A Importância do Yoga em Vedānta

    Grandes objetivos geralmente exigem grandes esforços. Grandes conquistas exigem grandes compromissos. Grandes viagens exigem grandes preparações. Quanto maior for a dimensão daquilo que deseja, em princípio maior será o investimento necessário.

    Dito isto, mokṣa, a libertação do sofrimento, é o derradeiro objetivo do Vedānta, que definitivamente não é ganho com uma atitude casual perante a vida. Para que a libertação seja ganha é necessário um compromisso constante acompanhado de muita resiliência.

    Yoga é o meio para ganhar o necessário e essencial para a frutificação do Vedānta, e isso abrange ganhar uma mente afiada e um coração relativamente pacificado e bondoso. Para que estes, mente afiada e coração bondoso, sejam ganhos, a pessoa tem que levar uma vida de valores éticos e morais. Quanto a isto não há dúvida alguma.

    Para além disso, uma vida de valores éticos e morais é chamada uma vida de dharma e certamente vai atrair circunstâncias de vida conducentes e imensamente favoráveis para o processo de estudo de Vedānta.

    O processo de estudo requer uma certa introspeção saudável. Esta só é possível se existir uma certa preparação emocional. Se não for assim o aluno não consegue estar consigo mesmo em paz e irá procurar distrações e o Yoga torna a pessoa capaz e elegível para a introspeção sem causar escapismo.

    Somente o aluno que tenha ganho o valor pela solitude, pela meditação e pelos valores éticos e morais é que terá a disposição interna de mergulhar no ensinamento de Vedānta e torná-lo parte de si. Sem a disposição interna gerada por uma vida de Yoga, o Vedānta é incapaz de germinar a semente do conhecimento, assim como uma semente é incapaz de germinar em cimento.

    Não há Vedānta sem Yoga e Yoga sem Vedānta fica incompleto. O Yoga completa-se com Vedānta e tudo o que ajudar a pessoa a ganhar maturidade, foco mental, capacidade meditativa e a seguir o dharma pode ser chamado de Yoga, seja ele vindo da Índia ou de outro lugar.

    Então, lembre-se de que o processo de crescimento está nas suas mãos, pois mais ninguém poderá crescer por si. Crescer é algo que terá que fazer sozinho. E lembre-se também que o Vedānta está nas mãos do professor. Chegue às aulas de Vedānta munido de Yoga, deixe que o ensinamento e o professor façam a sua função e verá em primeira mão como é bom resultado das aulas.

    Paulo Abreu Vieira