• Navarātrī – As nove noites da Durgā

    Do dia 26 de Setembro ao dia 5 de Outubro celebra-se o Princípio Feminino e a vitória do bem contra o mal, num Festival Hindu chamado Navarātrī, as nove noites. Este Festival, é bianual. Um ocorre na primavera, por isso é chamado de Vasanta Navarātrī, o outro, mais importante e popular, ocorre no Outono, sendo chamado de Śarada Navarātrī.

    São 9 noites de prece, de rituais e de muita devoção à Durgā, a Mãe do Universo, e consorte do Senhor Śiva, nas quais os devotos expressão a sua devoção ao máximo para poderem beneficiar de uma vida mais harmoniosa e pacífica.

    Nestas nove noites, 9 formas da Durgā são reverenciadas ritualmente para conferirem os resultados desejados e respetivos. Em baixo seguem três estrofes que referem as nove formas da Durgā, que podem ser encontradas numa obra de reverencia à Devī, intitulada Śrīdurgāsaptaśati, e muito conhecida e adorada pelos Śāktas, aqueles que seguem a adoração da Śakti.

    प्रथमं शैलपुत्री च द्वितीयं ब्रह्मचारिणी ।

    तृतीयं चन्द्रघण्टेति कूष्माण्डेति चतुर्थकम् ॥

    prathamaṃ śailaputrī ca dvitīyaṃ brahmacāriṇī |

    tṛtīyaṃ candraghaṇṭeti kūṣmāṇḍeti caturthakam ||

    पञ्चमं स्कन्दमातेति षष्ठं कात्यायनीति च ।

    सप्तमं कालरात्रीति महागौरीति चाष्टमम् ॥

    pañcamaṃ skandamāteti ṣaṣṭhaṃ kātyāyanīti ca |

    saptamaṃ kālarātrīti mahāgaurīti cāṣṭamam ||

    नवमं सिद्धिदात्री च नवदुर्गाः प्रकीर्तिताः ।

    उक्तान्येतानि नामानि ब्रह्मणैव महात्मना ॥

    navamaṃ siddhidātrī ca navadurgāḥ prakīrtitāḥ |

    uktānyetāni nāmāni brahmaṇaiva mahātmanā ||

    Tradução:

    As nove Durgās são chamadas: primeiro Śailaputrī, em segundo, Brahmacāriṇī, em terceiro Candraghaṇṭā, em quarto Kūṣmāṇḍā, em quinto, Skandamātā, em sexto, Kātyāyanī, em sétimo Kālarātrī, em oitavo, Mahāgaurī e em nono, Siddhidātrī. Estes nomes (sagrados) foram revelados por Brahmā, cuja mente é imensa (em sabedoria).

    Assim sendo, em cada noite uma das formas de Durgā é reverenciada de acordo com as estipulações e procedimentos.

    1 – Śailaputrī – A Filha da Montanha

    2 – Brahmacāriṇī – A Asceta

    3 – Candraghaṇṭā – Aquele cujo sino (brilha) como a Lua

    4 – Kūṣmāṇḍā – Aquela que tem calor no Ventre – representa a fertilidade

    5 – Skandamātā, a Mãe de Skanda

    6 – Kātyāyanī – Representa a forma suprema, representa o poder

    7 – Kālarātrī – A Noite Escura – representa a dissolução do cosmos

    8 – Mahāgaurī – A Imensamente Brilhante – representa o conhecimento

    9 – Siddhidātrī – A que confere sucesso – Mokṣa.

    O festival Navarātrī pode ser festejado de forma diferente, sem a reverência das nove formas da Devī, reverenciando, ao invés, nas três primeiras noites, Durgā, nas três noites do meio, Lakṣmī, e nas últimas três noites, Sarasvatī.

    Durgā representa a coragem, a saúde, e é a consorte de Śiva. Lakśmī, representa a riqueza e a beleza e é a consorte de Viṣṇu. Sarasvatī representa as artes e a sabedoria, sendo a consorte de Brahmā.

    Este festival representa a vitória da Deusa sobre o mal, representado por Mahiśasura, um demónio com a forma de um búfalo que derrotou todos os devas. Derrotados, os devas reúnem e unificam os seus poderes, criando, a Durgā, que derrotará o demónio, no 10º dia da batalha, dia esse que recebe o nome de vijaya daśamī, o décimo dia lunar da vitória.

    A vitória sobre os demónios indica a capacidade de vencer as tendências destrutivas da mente. A batalha é representada externamente, servindo como espelho e pretexto para a reflexão que visiona o crescimento emocional e a maturação espiritual.

    Posto isto, claro é que estas nove noites são nove oportunidades de expressarmos as imensamente terapêuticas qualidades que um mumukṣu deve ter: devoção e gratidão.

    Possam estas noites ser mágicas para todos!

    Setembro de 2022

    Paulo Abreu Vieira

  • Mensagem Importante do dia do Guru

    A vida é uma grande viagem. A morte é outra grande viagem. Entramos neste mundo e dele sairemos um dia. Somos eternos viajantes perdidos na eternidade do saṁsāra quando nascemos. Indefesos e caídos neste mundo complexo, tremendamente dinâmico e instável, tentamos navegar com estabilidade, quase sempre sem sucesso. Os despistes e as colisões são constantes, inevitáveis, são o dia-a-dia cru de muitos de nós e deixam marcas profundas, individualmente e coletivamente.

    Não bastava o universo ser instável, as pessoas tornam-se instáveis nele. Vivem numa instabilidade quotidiana composta de ansiedades, medos, raivas, irritações, incompreensões, ódios, indiferenças e muitas mais questões do foro psicológico que quebram a sanidade outrora vivida em criança, fazendo dela uma utopia confirmada.

    Olhe à sua volta e aprecie as pessoas. Vivem freneticamente, apressadas para a morte, hipnotizadas por uma promessa de bem-estar que nunca chega. Correm como loucas atrás dessas promessas sem saberem que nada mais são do que uma cruel miragem assassina projetada pela ignorância.

    A mensagem é clara: “Desperta! Acorda! Está na hora de questionares o que andas aqui a fazer! Vives ou sobrevives?! Ou direi mesmo “sub-vives”?! Estas a seguir o teu talento, alinhado por um propósito maior?!”

    Se a resposta a estas perguntas não é clara como água cristalina, então reflete. Repara que nada até ao momento te trouxe o que realmente procuras e que muito provavelmente irá continuar a ser assim. Como esperas ter resultados diferentes fazendo a mesma coisa?!

    Está na hora de trazer para a Vida uma boa dose de espiritualidade e descobrir o que significa a Vida para ti. A necessidade coletiva é de conexão, de amor, de paz e de felicidade. Sempre foi, sempre será. O Guru é importante porque ele é a chave que abre a porta para a dimensão espiritual da vida, onde, precisamente a conexão, o amor, a paz e a felicidade residem à espera de serem descobertas.

    Quando penso no Guru, o Mestre, penso Nele como o enviado especial e capaz de quebrar o feitiço da hipnose da ignorância. Ele é o Despertador, aquele que desperta os demais. Ele é a Luz que remove a ignorância. Ele é o Cantor que canta a Canção do Absoluto embalando de amor os corações da humanidade. Ele é o Cirurgião, que opera os olhos e remove a cegueira existencial. Ele é a Mãe que acolhe a nossa dor e nos nutre com o alimento espiritual. Ele é o Pai que nos indica onde poderemos errar e nos protege das adversidades. Ele é o Espelho que espelha as nossas dificuldades. Ele é o Guerreiro interno que habita em cada um de nós. Ele é a Humildade que tempera o Conhecimento. Ele é a Força do Universo que quer o nosso maior bem. Jaya Guru!

    Paulo Abreu Vieira,

    Maia, 13/07/2022

  • योगविश्वदिनम् – Yogaviśvadinam – O Dia Mundial do Yoga

    Hoje em todo o mundo celebra-se o dia mundial do Yoga. Por essa razão, hoje decidi compartilhar consigo algumas palavras sobre o Yoga e sobre o que ele representa ou deverá representar.

    Yoga, como já muito bem sabe, significa:

    1 – Meditar, contemplar ou ficar absorto.

    2 – Unir, associar

    3 – Controlar ou parar.

    Estes são os significados[1] que podemos extrair de acordo com a gramática do Sânscrito e com o dhātupāṭha, a lista das raízes verbais.

    Assim, sendo, vamos mais fundo naquilo que é o Yoga –

    Yoga é todo o processo físico, respiratório, emocional/mental e cognitivo que permite a um ser humano chegar a um estado calmo de absorção meditativa.

    Yoga é físico porque está na forma de uma disciplina física, que envolve o corpo. Essa disciplina física faz uso de posturas físicas, denominada āsanas, que têm como principais objetivos a saúde muscular, ligamentosa e articular, promovendo e melhorando a circulação dos fluidos e da energia vital pelo corpo. Para este efeito existem muitos e variados āsanas com graus de dificuldade diferentes e com efeitos diferentes, proporcionando aos praticantes, tanto um estímulo para evoluírem dentro da prática, como também efeitos de saúde diferentes.

    Yoga é respiratório porque uma das suas partes é o prāṇāyāma, as técnicas de expansão, contração e contenção do fluxo respiratório. Estas técnicas são variadas e têm efeitos diferentes, podendo acalmar a mente, ou então estimulá-la, podendo aquecer o corpo, ou então arrefecê-lo, etc. A respiração no Yoga é muito importante, pois faz a ponte entre o físico e o mental, influenciando e harmonizando ambos.

    Yoga é emocional/mental pela simples e importante razão de que o yogin, o praticante, é convidado a aprender a conviver saudavelmente com as suas emoções. Este convívio saudável passa pela identificação correta das emoções que se manifestam, passa pela compreensão das necessidades que não foram supridas e que estão na base da manifestação das emoções, passa pela arte de saber estar com as emoções – principalmente as desagradáveis, como a raiva, a tristeza, o medo, etc., e passa finalmente, pela arte de expressar adequadamente as emoções às pessoas ao nosso redor, o que implica não vitimizar nem violentar ninguém devido às emoções.

    Yoga é cognitivo, pois, ultimamente, terá que haver uma mudança cognitiva na forma como a pessoa se vê. Esta mudança advém do estudo de Vedānta, que revela a verdadeira natureza do Eu, do mundo e de Deus como a única realidade imutável e transcendente, a que chamamos Sat, Existência, Cit, Consciência e Ānanda, Plenitude.

    Fica assim muito claro através desta pequena partilha na forma de palavras sobre o que é o Yoga, que Yoga é uma viagem profunda de transformação pessoal, sem dúvida alguma para melhor, que culmina na visão única de que a essência de tudo é o Ser, e que tomos somos esse Ser.

    21 de Junho de 2022,

    Paulo Abreu Vieira


    [1] 1 – 7√युज् (युजिर्), योगे – raiz verbal “yuj”, pertencente à 7ª conjugação, com o significado de unir, associar.

    2 – 4√युज् (युज), समाधौ – raiz verbal “yuj”, pertencente à 4ª conjugação, com o significado de meditar, contemplar, absorção.

    3 – 10 √युज् (युज), संयमने – raiz verbal “yuj”, pertencente à 10ª conjugação, com o significado de parar, controlar, conter, do qual advém o significado autodomínio.

  • O Infinito Ilimitado numa “casca de noz”

    Nada está separado do Infinito

    Uma pergunta frequente é a seguinte: – Professor eu só consigo imaginar o infinito numa galáxia no universo. O professor consegue imaginá-lo de uma outra forma?”

    Repare, o infinito que é espacial ou temporal não é infinito, porque o tempo e o espaço não são absolutos. O infinito transcende todos os conceitos de espacialidade ou de temporalidade. Infinito é o “lugar” não-espacial e não-temporal onde o tempo e o espaço acontecem. Esse infinito é você, aqui presente neste preciso instante. Se o infinito existe, então nele tudo existe, incluindo o tempo e o espaço, por isso, em momento algum você está separado dele, porque nada está separado dele, incluindo você. Esse infinito só pode estar aqui e agora.  Se está aqui e agora, é você, porque você está aqui e agora. Seja lá o que for o infinito, não é espacial nem temporal.

    A Verdade do Tempo não é um Intervalo de Tempo

    Repare que a verdade do tempo, a realidade do tempo, não é um intervalo de tempo. A verdade do tempo é este preciso instante não medível, cuja a natureza ou verdade transcende o tempo. Essa natureza é chamada Existência. A existência é o “lugar”, a verdade imutável onde o espaço e o tempo acontecem. Por outras palavras, o ser do espaço é a verdade do espaço. O ser do tempo é a verdade do tempo. O ser é a Existência, por isso pode ser chamado de Ser.

    Qualquer objeto deste mundo, incluindo o espaço ou o tempo, são objetos do seu conhecimento. Por isso dizemos:  A caneta é. Uma árvore é. A Terra é. O Sol é. O tempo é. O espaço é. Já parou para pensar no que é o É?! O “É” é o Ser, a Existência livre de limitações. Não há nada que não seja. Este Ser, a Existência, não é limitado pelo tempo, nem pelo espaço, porque o espaço e o tempo são. Se lhe perguntar: onde existe o tempo? Provavelmente nunca lhe fizeram esta pergunta, por isso provavelmente nunca deve ter pensado na resposta. Estará o tempo nele mesmo? Está longe do infinito? Outra pergunta é: será que o tempo pode condicionar o infinito, será que tem a capacidade de condicionar o infinito? A resposta é que o tempo existe na Existência, onde tudo existe. Quando digo “o tempo é”, isso significa que o tempo existe. O tempo depende da Existência para existir, para ser, contudo, a Existência é independente do tempo. Por isso, o tempo não tem capacidade de condicionar a Existência. Quando o tempo acabar, a Existência continuará. Jamais a Existência descontinuará de existir.

    A Existência é independente de tudo, existe por Ela mesma

    A Existência é independente de tudo, existe por Ela mesma. Aquilo que existe por si só, aquilo que existe sem depender de nada para existir, é a Existência. Como nada está longe ou separado da Existência, porque a Existência é ilimitada, a Existência é infinita, a Existência é o Infinito.

    As pessoas estão habituadas a pensar no infinito em termos temporais e espaciais, contudo, o infinito em si é atemporal e não-espacial. O Infinito é o Ser, é a Existência não limitada temporalmente e não limitada espacialmente. Pense assim, a Existência “veste-se” da roupagem chamada espaço, que está intimamente associado ao tempo, mas, em si mesma, é totalmente independente do tempo e do espaço, porque quando o tempo e espaço terminarem, a Existência continuará a Ser, continuará a Existir. O Ser continua a ser, quer haja ou não tempo e espaço. Então, a Existência não é temporal nem é espacial, intrinsecamente falando, portanto, é ilimitada.

    Agora, tendo uma mente humana habituada a pensar de forma polarizada, habituada a objetivar tudo, a tendência é tentar encapsular a Existência infinita, assim como encapsulamos todos os outros objetos de cognição. Contudo, não é possível ter a cognição do Infinito ou da Existência infinita, como quiser chamar, da mesma forma que encapsula uma caneta na sua mente. Se pensar em caneta, uma forma mental da caneta surge na sua mente. Isso é encapsular a caneta, é objetivar a caneta. O Infinito como não é um objeto da perceção dos sentidos, não pode ser objetivado pela sua mente como um objeto, por isso não pode ser encapsulado. A tendência de o imaginar deve ser abandonada pois é infrutífera.

    Ao tentar imaginar o infinito em termos temporais, a mente, sendo vítima da sua polaridade, vai imaginar tudo o que passou e tudo o que virá a ser. Como a imaginação é limitada, a imaginação do infinito será limitada, será finita, será uma mera aproximação infinitamente distante daquilo que é o infinito realmente. Em termos espaciais o mesmo acontece.

    Se se condiciona o Infinito por tudo o que foi para trás e por tudo o que será para a frente, espacialmente e temporalmente, estamos a dimensionar o infinito, e isso é retirar-lhe a infinitude. Por natureza o Infinito é o Absoluto, aquele que é um sem um segundo. Esse Absoluto é o que você é. Ganhar esta visão: Eu sou o Absoluto – é o objetivo do estudo Vedānta.

    Então, eu não imagino o Infinito porque nunca o conseguirei fazer, nem nenhum ser humano o conseguirá fazer, pelas razões acima apresentadas. Agora, eu sei que eu sou o Infinito Absoluto, eu sei que sou a Existência infinita que permeia todas as coisas, da qual todas as coisas dependem para existir. Eu sei que transcendo este corpo-mente e sei que transcendo todos os corpos, porque, sendo eu Existência infinita, transcendo o tempo, transcendo o espaço, e tudo o que neles os dois acontece. Por esta razão, também não existe a ideia de localização interna do Eu, aqui dentro deste corpo. Você é Existência infinita, você não está localizado num ponto temporal-espacial. Por outro lado, todos os pontos temporais-espaciais estão localizados em si, Existência.

    Agora darei um exemplo que ilustra bem o que acabei ser mencionar. Estou sentado na praia e vejo uma onda a rebentar na areia. E pergunto: o que é mais verdadeiro, a onda ou o oceano? Para entender a resposta primeiro é necessário entender que a onda não existe sem o oceano. A onda nada mais é do que uma forma que o oceano manifesta. Portanto, a resposta mais verdadeira é o oceano. Porquê? Porque a onda é uma consequência ou produto do oceano, porque o oceano é a causa da onda. Certo? Agora a pergunta é outra e convida a ir mais fundo na análise: quando olho para a onda e para o oceano, vejo a água; o que é mais verdadeiro, a onda, o oceano ou a água? A resposta certa é água. Porquê? Porque onda e oceano são formas da água, são formas que a água assume. A água está na forma de onda e na forma de oceano. A água assume várias formas, pode ser gelo, neve, gota, vapor de água, nuvem, rio, etc. Mas, a verdade de todas as formas de água é a água. Só há uma verdade, a água, presente em todas as formas de água, manifesta como todas as formas de água.

    Quando pergunto onde está o oceano, a resposta é: ele existe na água, porque é feito de água. Posso então dizer que, no exemplo, a verdade ou o ser do oceano é a água e posso dizer que a água é o ser de todas as formas de água. Todas as formas de água têm o seu ser na água, porque, na realidade são água. A água que é sem forma, assume todas as formas, existe sem uma forma específica, contudo, pode ser todas as formas, tem potencial para ser todas as formas.

    Quando se pergunta à onda que descobriu que é o oceano e que, acima de tudo, também descobriu que é água, onde está localizada, a onda responderá de várias formas. Como onda, está em dada parte do oceano, viajando nele. Como água, é o oceano inteiro, por isso está em todo lado. Se a onda se vê como na realidade é, portanto, se se vê como água, então ela não dirá que está localizada numa dada parte do oceano ou em si mesma. Ela dirá que está por todo lado.

    Este é o exemplo. Agora há que entender o exemplificado – a Existência, o Infinito. Assim como a água, a Existência transcende todas as formas. Tempo e espaço existem na Existência, são formas da Existência e a Existência é a verdade de ambos, porque ambos não existem sem a Existência. Podemos ver o espaço como o vasto oceano e podemos ver o tempo como a deslocação que uma onda demora a percorrer certa distância do oceano. Então, assim como o oceano e a onda não têm realidade absoluta, porque a realidade deles é a água, da mesma forma, o tempo e o espaço não têm realidade absoluta, porque a realidade deles é a Existência. Assim como a água não tem forma, e nesse sentido não é um objeto, também a Existência infinita, não tendo forma, não é um dado objeto sensorial. Não sendo um objeto sensorial não pode ser imaginada, não pode ser encapsulada pela mente. Contudo, pode ser apreciada em todos os objetos, porque todos os objetos são existentes.

    A mente só imagina objetos, só imagina formas, sejam elas visuais, sonoras, linguísticas, matemáticas, etc. Tudo neste mundo, à exceção da Existência, é objeto do pensamento. A Existência infinita que tudo transcende, que transcende todas as formas, é o Eu, Consciência. Este é conhecimento do Eu Ilimitado revelado por Vedānta. Por isso é que Vedānta é um pramāṇa, meio de conhecimento, que revela a realidade ou verdade do Eu, que, como não é um objeto dos sentidos não está disponível para ser conhecido por outros meios de conhecimento.

    Maia, Março 2022,

    Paulo Abreu Vieira

    Citação do livro “A Luz do Conhecimento”

  • Guru-śiṣya-sambandhaḥ

    A Relação entre o Professor e o Aluno

    A nossa vida é feita de vários tipos de relações, sem as quais não seria possível viver uma vida normal e equilibrada, porque muito do equilíbrio e força individual advém precisamente do equilíbrio e força ganhos nas relações. A todo o momento nos relacionamos com algo, seja com uma pessoa, com um animal, com uma planta, com um facto, com uma situação ou com um objeto. Quando a pessoa não se relaciona com o mundo externo, é porque, nesse momento, provavelmente está a relacionar-se com o mundo interno. Não podemos abrir mão desta joia de crescimento que são os relacionamentos.

    Relações interpessoais


    Existem muitos tipos de relações interpessoais. Temos relações interpessoais de sangue ou familiares, românticas ou afetivas, profissionais, amigáveis e também, podemos dizer, neutras, nas quais não há nenhum investimento emocional ou afetivo. Se alguém nos perguntar as horas na rua, há obviamente uma relação interpessoal, contudo é neutra, porque não há um investimento afetivo.


    De entre as relações interpessoais, a primeira relação de um ser humano é a relação com a sua mãe. Esta é uma relação tremendamente importante, não só porque um ser humano vive 9 meses dentro de outro, mas porque, será dependente dele por bastantes anos. Um filho literalmente habita no ventre da mãe, absorvendo umbilicalmente todos os nutrientes e oxigénio que precisa. Se não fosse assim não sobreviria. A natureza é incrivelmente magnífica e sábia.

    Depois do parto, que é a verdadeira chegada do bebé ao mundo, o cordão umbilical é cortado. Os dois, mãe e filho, são separados fisicamente, porém, continuam juntos pelo milagroso amor de mãe. Temos então um bebé totalmente indefeso e incapaz de sobreviver sozinho, que se completa com uma mãe totalmente pronta, equipada e preparada para defender e nutrir a sua cria. Nessa altura, após o nascimento, apesar do bebé só ter ouvido a voz do pai enquanto ainda estava dentro do ventre da mãe, ele conhece-o fisicamente, sentindo agora uma energia diferente, a energia paterna, da qual também ele é feito. Então, em condições normais, a relação com o pai é a segunda relação. Juntos, pai e mãe, são tudo o que o bebé tem.


    A terceira relação que o bebé conhece é a relação entre o pai e a mãe. Ele absorverá tudo o que conseguir dessa relação. Todo o amor trocado entre eles será sentido pela criança. É claro que, mesmo durante a gravidez o bebé já foi tendo conhecimento da relação entre o pai e a mãe, porque os ouvia e sentia, contudo, como ainda não estava separado fisicamente da mãe, como ainda era parte da mãe, era diferente. Ainda assim, todo o amor e também o desamor que o casal experimenta durante a gravidez vai sendo registado e absorvido pelo bebé. Como todos bem sabemos, é importante que o pai e a mãe desenvolvam entre ambos uma relação honesta, amorosa, amigável e de companheirismo para que o bebé a assimile desde muito cedo.


    Obviamente, depois, na medida em que vai crescendo e desenvolvendo-se, o bebé que se transformará em criança, conhecerá os seus familiares, os amigos dos pais e fará muitas amizades com as quais terá oportunidade de brincar e aprender a relacionar-se. Eventualmente terminará os seus estudos e, eventualmente, descobrirá também qual o seu talento e contributo para o mundo, usando-o para prosperar financeiramente. Depois, bem mais tarde, caso deseje, independentemente da sua orientação sexual, poderá ter um parceiro ou parceira com quem poderá ter um bebé, seja ele biológico o adotado. Este é o ciclo – nascer, crescer, estudar, trabalhar para prosperar financeiramente, constituir família, aposentadoria e morrer.


    Algumas pessoas descobrem que este ciclo, apesar de ser normal, é incompleto. Falta algo a este ciclo, porque a vida não pode ser simplesmente isto. Não faz sentido trabalhar toda uma vida para depois morrer e deixar tudo para trás. Se supusermos que este ciclo é completo então temos que admitir que ele é sem significado, simplesmente pelo facto de que as pessoas não se sentem realizadas, mesmo tendo realizado com sucesso todos os passos do ciclo. Se o ciclo fosse completo, então as pessoas, tendo-o terminado deveriam sentir-se completas e realizadas. Esse não é definitivamente o caso!

    A pergunta é: O que falta a este ciclo? O que completa este ciclo?


    Este ciclo é assente, do início ao final, em ignorância – a ignorância fundamental, a ignorância universal. Que ignorância é esta? É a ignorância da verdadeira natureza de si mesmo e de todas as coisas. É esta ignorância a causadora do senso de vazio, o sendo de inadequação, o senso de insuficiência, que acompanha a pessoa enquanto ela atravessa todas as etapas do ciclo, mas que apenas se começa a manifestar em criança quando o senso de individualidade fica formado, e que se torna inegavelmente visível na adolescência, perdurando para o resto da vida.


    Ignorando a dimensão espiritual de si mesmo e consequentemente concluindo que tudo o que a pessoa é, é somente o complexo corpo-mente, naturalmente surge insuficiência, porque o corpo, a energia vital e a mente são insuficientes. Por outras palavas, há um senso de insuficiência centrado no corpo, por isso a pessoa pensa: “não sou suficientemente bonito”, ou, “não sou suficientemente alto”, etc. Há um senso de insuficiência centrado na energia vital, e há também um senso de insuficiência centrado na mente. Este senso de insuficiência é transversal e condena a pessoa a desejar ser mais, ser mais em termos de corpo, ser mais em termos de energia e ser mais em termos de mente. Então, é esta insuficiência vestida de desejo que empurra e motiva ferozmente as pessoas para agir, agir para serem mais, agir para serem diferentes, agir para serem melhores.

    Há um problema radical neste ciclo incompleto, simplesmente pela razão de que não é resolvido com a ação. Por mais que a pessoa aja, continuará a sentir-se insuficiente, continuando a desejar mais e mais. Assim é porque a ação não remove o senso de insuficiência, nem remove a ignorância que o causa. Este é o feitiço da vida que aprisiona a pessoas a um ciclo intrinsecamente incapaz de as satisfazer e realizar.

    Como acabar com o feitiço? Há que recorrer à magia, há que recorrer a um mago. O mago é chamado guru, mestre ou professor. Guru é a pessoa que remove a escuridão A sílaba “gu” representa a escuridão e a sílaba “ru” representa o removedor. Qual é o feitiço? É a ignorância. Qual é o antídoto? É a poção mágica chamada conhecimento que desenfeitiça a pessoa, que a faz sair da falsa fantasia. Qual é a falsa fantasia? É a pessoa acreditar que é somente o corpo-mente e que não existe uma dimensão mais profunda em si. Sem receber a poção mágica do conhecimento, ninguém conseguirá por si mesmo livrar-se do feitiço, porque o feitiço é a própria vida que é tida como real na qual a pessoa vive.


    Fica claro, agora, que esta última relação é muito, muito importante. Todas as relações são importantes, mas três são as que se destacam: a relação com a mãe, com o pai e com o mestre. A relação com o mestre é a mais peculiar destas três, porque, apesar de, geralmente, não ser uma relação familiar ou de sangue, encontramos no mestre uma figura tanto paternal e maternal. O mestre é simultaneamente o pai e a mãe espiritual, e o aluno é o bebé espiritual.
    Esta não é uma relação de troca, simplesmente porque o mestre não recebe nada. Quem recebe é somente o aluno. Recebe o conhecimento de si mesmo, que é a poção mágica que o desenfeitiça.

    Esta relação é destinada a isso mesmo e a nada mais – remover a ignorância que o bebé espiritual tem para que fique livre do saṁsāra, para que fique livre do sofrimento que é a constante insuficiência sentida durante a vida. Se a mãe e o pai trazem a criança ao mundo, ao saṁsāra, é o guru e mais ninguém que a retira do saṁsāra, e, por vezes, retirando também o seu pai e a sua mãe.
    Imaginem alguém que caiu em areias movediças. Quando mais essa pessoa se mexe, mais ela se afunda. Sozinha não conseguirá sair e morrerá a tentar. É uma aflição, é um sofrimento O saṁsāra é isto mesmo!

    As pessoas estão nas areias movediças da vida, sofrendo da insuficiência, do vazio, do senso de inadequação, causados pela ignorância, esperando em vão, que, sozinhas e através da ação, consigam se soltar e ficar livres.

    Mas isso nunca chega a acontecer. Quanto mais agem, mais se fundam nas areias movediças da vida. Repare no seguinte, que é muito importante: os que pensam que casar é a solução, geralmente desiludem-se e acabam divorciados, porque casar vai com certeza revelar o senso de insuficiência enquanto marido ou mulher; os que pensam que ter filhos é a solução, esses certamente se desiludem e muito rapidamente entenderão a quantidade de insuficiência e inadequação que está centrada em ser pai e mãe e toda a culpa inerente à parentalidade; os que pensam que a profissão é a solução, na aposentadoria claramente entenderão que não é. Quanto mais agem, mais se afundam. Merece ser contemplado este facto.


    Como sair das areias movediças? Primeiro é necessário compreender que sozinho não será possível. Depois, é necessário pedir ajuda, é necessário gritar bem alto para que alguém ouça e venha ajudar. Depois, é necessário confiar que essa pessoa que vem ajudar e que está livre das areias movediças nos consiga ajudar. Finalmente, é necessário colaborar com a ajuda que nos está a ser dada.


    Que troca existe entre a pessoa que salva outra das areias movediças?

    Nenhuma. Uma salva a vida à outra e a outra ficará eternamente agradecida por ter sido tirada de lá. O guru é a pessoa que está na terra firme do conhecimento, livre, e que possui a capacidade e as ferramentas necessárias para ajudar outra a sair das areias movediças do saṁsāra. Para isso a pessoa tem que pedir ajuda, tem que pedir para ser ensinada. Este pedido resulta da compreensão de que sozinha não consegue resolver o problema. Então, tem que haver total confiança no guru, assim como tem que haver total confiança da pessoa que está a afundar-se em areias movediças na pessoa que a irá tirar de lá. Enquanto isto não for percebido, não há verdadeiramente uma relação entre o aluno e o mestre.

    Saṁbandha significa relação. Neste caso a relação é algo que prende duas pessoas, o guru, mestre, e o śiṣya, aluno, a um propósito – a remoção do feitiço chamado ignorância. Este propósito maior, a liberdade, é o que junta ambos. Podemos dizer que é uma conspiração cósmica porque é um evento único e muito especial.


    Śiṣya é uma palavra muito significativa, pois significa śikṣaṇīyaḥ, aquele que é para ser ensinado, aquele que merece ser ensinado. Isso significa que o aluno deverá reunir ou fazer por reunir tudo aquilo que o ajudará a colaborar com o trabalho do professor. O trabalho do professor é ensinar e transmitir o conhecimento para a mente do aluno. Então, torna-se óbvio que a colaboração do aluno é em desenvolver as qualidades mentais necessárias para poder aprender o melhor possível. Aqui não estamos somente a falar de qualidades cognitivas, como a atenção e o raciocínio. Estamos também a falar de inteligência emocional, a capacidade de lidar saudavelmente com as emoções. Tudo isso é esperado do aluno, tudo isso é a sua colaboração com o professor e com o ensinamento. Quanto melhor for o crescimento em termos de maturidade, melhor é a colaboração do aluno.


    Como invocar o professor na pessoa que desempenha o papel de professor?

    O segredo é a humildade e a prontidão para a aprender e ajudar no que for preciso. A humildade do aluno invoca o professor. Se o aluno tem o ego grande e pretende enganar o professor fazendo de conta que já sabe, ou que sabe muito, o professor não ensina, porque é inútil ensinar quem já sabe, e mais inútil ainda é ensinar o ego que acha que já sabe. É fácil acordar quem dorme. Contudo, é impossível acordar quem está acordado ou quem finge que dorme. Quem está acordado não precisa que o acordem porque está acordado.

    Quem finge que dorme não vai acordar, porque está a fingir. Similarmente, o aluno que acha que já sabe e vaidosamente o mostra, nunca despertará do sono da ignorância. A honestidade é um dos valores de qualquer relação. Não há vergonha nenhuma em não saber. Porém, há muita vergonha em revelar que fingiu que sabia, quando na realidade não sabia. Ser honesto é um requisito fundamental na relação professor-aluno. Se não houver honestidade, não há relação possível.


    O professor é também invocado pelo respeito adequado, seguindo um determinado protocolo. O professor é amigável, mas isso não significa que seja amigo. Por isso, é bom ter sempre em mente que o professor é o professor e não o amigo de infância ou adolescência com quem se vai almoçar. O respeito protege o aluno, porque respeitando o professor, o próprio aluno é respeitado.


    A honestidade, o respeito e a humildade e outras virtudes formam a estrutura que permite que o amor se manifeste. O aluno sentirá amor pelo professor e vice-versa. É este amor que torna a relação única. É um amor livre porque o propósito é a própria liberdade, na qual o aluno descobre que, essencialmente ele não é diferente do guru.

    Paulo Abreu Vieira
    Janeiro 2022

  • Amor ao Próximo

    O Natal está mesmo a chegar e com ele chega também o novo ano de 2022. Para quase todos nós esta é uma altura de muita reunião familiar e também de muita reflexão porque mais um importante ciclo está prestes a terminar.

    Nesta altura temos a oportunidade e também o oportuno pretexto para dar o amor e o carinho que sentimos às pessoas que nos são especialmente queridas. Muitos fazem-nos com mensagens e telefonemas desejando o melhor, desejando muito amor, paz e abundância. Outros, podendo, viajam para se encontrarem “em carne e osso” com os seus familiares, comprando-lhes prendas e presenteando-os com as comidas e as bebidas típicas desta época, que compraram especialmente para o efeito, para que nada falte na consoada e no dia de Natal.

    Os que não podem viajar para estarem juntos presencialmente, seja por questões profissionais, económicas ou familiares, têm a oportunidade de fazer uma consoada virtual por Zoom, Skype, Whatsapp, que, não sendo o melhor, é o segundo melhor, sem dúvida bem melhor do que nada! Outros ainda, devido às angularidades austeras e implacáveis da vida, passam esta época mais sós, lembrando com muita saudade os que já partiram, desejando muito a sua presença e carregando no peito a dura dor da sua ausência. Cada um vive o Natal e a vinda do ano novo à sua maneira, de acordo com a sua educação, valores, e condição atual. Contudo, podemos dizer que a busca por dar e receber amor é transversal, é geral, é universal.

    Quando penso no Natal, invariavelmente penso no grande Mestre Jesus e em tudo o que ele representa e lembro um dos seus maiores ensinamentos, senão mesmo o maior – o do Amor ao próximo.

    Geralmente dirigimos o nosso amor aos que são significativos para nós. Somente as pessoas queridas, íntimas, significativas, que geralmente são familiares e amigos recebem o nosso amor. Se assim é, então este amor é limitado, é limitado na sua expressão – é um amor pequeno que ainda precisa de crescer.

    Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Humanidade. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Vida. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Terra. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos um só Universo.

    Este amor cresce quando nos damos conta de que somos um só Ser. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos todos Um. O entendimento deste ensinamento – Somos todos Um – é a base para a expressão do amor incondicional, chamado dayā, compaixão, que é o que Jesus realmente quer dizer com “Amor ao próximo”. O nosso querido mestre Swami Dayānanda disse uma vez numa das suas aulas: a expressão dinâmica do Ser, é a compaixão, é o amor.

    A questão agora é a seguinte: se a expressão dinâmica do Ser é o amor, a compaixão, então porque é que todas as pessoas não vivem expressando amor, compaixão?

    Esta pergunta é muito importante e a resposta ainda mais. A realidade é que todos conseguimos expressar amor. Isso é facilmente apreciado na forma amorosa em que qualquer ser humano, em situações normais, trata um bebé, ou até um animal. Os animais e os bebés invocam em nós a pessoa amorosa, a pessoa compassiva.

    Na presença deles o amor naturalmente surge. Surge porque eles não invocam resistência em nós. Surge porque podemos ser quem realmente somos sem o medo de sermos julgados. Então, preste atenção, o medo de sermos julgados e a nossa resistência interna ao momento presente, ao que estamos a experienciar a dada altura, são bloqueadores do amor.

    E mais, quando cuidamos de um animal de estimação descobrimos em nós uma grandeza, a grandeza de contribuir, de contribuir para o bem de alguém diferente de mim. A descoberta desta grandeza é a porta de entrada para o entendimento de um ensinamento profundo – o amor e cuidado que damos aos demais é imensamente curativo, é extremamente sanador do ponto de vista emocional. Porquê? Porque esta grandeza, a capacidade de dar amor ao próximo, tem o potencial de se transformar em profunda gratidão, a gratidão que vem do reconhecimento de ser privilegiado por estar numa posição de conseguir dar amor e cuidado. Isto o dinheiro jamais comprará.

    A única moeda de troca para a gratidão é o amor. Somos gratos a quem nos faz bem, a quem nos ama. Se faço bem a mim, sinto-me grato. Se me fazem bem, sinto gratidão por quem me faz bem. A regra é simples: quando mais amor der, mais gratidão sentirá. A gratidão é a bênção que Īśvara nos dá de presente por darmos amor, por termos compaixão.

    O segredo para o amor incondicional é conseguir expandir o senso de eu o mais que puder. Expanda-o para o Universo Inteiro e verá o acontece, ficará surpreso com o que acontece. Sentirá amor pela terra húmida. Sentirá amor pela água. Sentirá amor pelo ar que respira. Sentirá amor pelo Sol, pela Lua e pelas estrelas. Sentirá amor pelas formigas, mesmo que elas decidam que o pote de mel e o pacote de bolachas são delas e não seus. Sentirá amor por todas as criaturas. Sentirá amor por tudo e sentir-se-á infinitamente grato por poder sentir amor de forma não limitada.

    Talvez o Natal seja renascer nessa pessoa em quem o amor incondicional se manifeste sem resistência. Talvez o Natal seja renascer nessa pessoa em quem a compaixão brota como a água duma nascente. Talvez o Natal seja a descoberta de que essa pessoa chamada Jesus, nosso Mestre, já existe dentro de si.

    Paulo Abreu Vieira

    Dezembro 2021

  • Ahiṁsā – Não-violência

    Vivemos num mundo extremamente complexo no qual são incontáveis as variáveis que determinam a nossa condição futura. Este mundo foi-nos dado, estamos todos nele e não há como evitá-lo. Já os nossos pais estavam nele, bem como os nossos avós e todos os antepassados, graças a quem o leitor está, neste preciso e especial momento, a ler estas palavras.


    Não é que o mundo se tenha tornado complexo nesta geração, pois ele já assim o era. O mundo sempre foi complexo e isso não mudará. Esta complexidade do mundo, da vida, dos relacionamentos e das próprias questões fundamentais da existência humana, desorienta as pessoas, assustando-as e deixando-as confusas relativamente ao rumo a tomar neste oceano de infindáveis oportunidades chamado vida.

    Para além da confusão natural, que, aliás, é tremendamente sentida na adolescência, fase em que a individualidade de cada um se sobrepõe à vontade parental naturalmente instituída desde o nascimento, muitos de nós, infelizmente, não tiveram modelos parentais ideais que poderiam eventualmente ter sido um fator de diminuição dessa confusão ou desorientação inerente à vida. Quando assim é, portanto, quando uma criança é educada por pais incapazes de educar, estando eles mesmos confusos sobre a vida, essa criança pode transformar-se num adolescente problemático para ele mesmo e para a sociedade.

    Quero dizer e tornar claro que acredito que qualquer pai ou mãe quer dar o seu melhor e que faz tudo o que está ao seu alcance para ser um bom educador. Contudo, há uma diferença entre querer ser um bom educador e ser, de facto, um bom educador. Para se ser um bom educador não basta querer, é necessário também aprender a sê-lo. Para além disso, é necessário ainda consumar a educação, educando de facto, educando realmente, e também levar uma vida que sirva de exemplo, na qual as ações do educador são a luz orientadora para quem vem a trás.


    O futuro da humanidade são as crianças. Elas são puro potencial criativo que um dia se manifestará. Se queremos bons pais, bons educadores, então, necessariamente, teremos que educar bem as nossas crianças, para que elas se tornem também em bons educadores e bons pais.

    A pergunta agora é: como é que se educa bem uma criança?


    A resposta não é linear nem simples. De facto, nós, humanidade, ainda estamos a descobrir como educar bem as nossas crianças. O mundo muda, evolui, trás situações que não existiam no passado e coloca-nos constantemente em posições novas e desafiantes. Há 100 anos atrás a discussão sobre as mudanças climáticas não era assunto de interesse público, contudo, hoje é! Há 30 anos atrás não se falava dos perigos inerentes à internet e às redes sociais. Porém, hoje em dia todos estamos preocupados com isso. Com a mudança veloz das estruturas do mundo, os modelos educacionais das nossas crianças ficam rapidamente ultrapassados porque a nossa sociedade é tecnológica, é de informação, e cavalga quase tão rápido como o próprio tempo, tornando esses modelos forçosamente obsoletos.

    Apesar dos modelos educativos poderem e serem de facto ultrapassados, jamais será ultrapassada a necessidade que as nossas crianças têm de aprenderem os vários valores éticos e morais. Reparem que a sociedade poderá mudar, e mudará, de facto, contudo, jamais mudará que todos queremos viver em paz e felizes, que todos queremos um mundo mais pacífico e com oportunidades de realização para todos. Se queremos um mundo pacífico, então temos todos forçosamente que aprender a sermos pacíficos. Não há outra via para a paz a longo prazo do que valorizar a paz e praticá-la.


    Os Yogis sábios da antiguidade sabiam que os valores éticos e morais são a estrutura que sustenta a paz entre os humanos. Algures, no grande épico Mahābhārata, ocorre a popular frase “ahiṁsā paramaḥ dharmaḥ” – a não-violência é a maior virtude, é o maior valor. Os Yogasūtras, no sūtra 2.30, também mencionam este valor como um dos yamas, disciplinas comportamentais nas quais nos abstemos de algo. Para a pessoa que estude Vedānta o valor da pacificidade também é conhecido e denotado pelos Mestres como sendo de suma importância. Então, este é, sem dúvida alguma, um valor a ser ensinado a todas as crianças do mundo.

    Mas o que é ahiṁsā, não-violência ou pacificidade?

    A definição em sânscrito é a seguinte –

    वाङ्मनःकायैः सर्वभूतानां पीडाभावः अहिंसा ॥
    vāṅmanaḥkāyaiḥ sarvabhūtānāṁ pīḍābhāvaḥ ahiṃsā ||
    A não-violência é a ausência de violência para com todos os seres vivos, ao nível da voz, da mente e do corpo.

    Este valor tem que ser valorizado através da compreensão consensual e comum de que ninguém gosta de ser objeto de uma ação violenta, seja ela mental, oral ou física. Quero dizer com isto que é do senso comum o seguinte: “se não gosto que me façam mal, que me violentem, então não farei mal aos demais, não violentarei os demais, pois também, certamente, eles não gostarão”. A reflexão nesta ideia deverá ser encorajada a todas as crianças, e deverá ser acompanhada da lembrança das emoções sentidas quando a criança se sentiu violentada. O valor da paz só poderá ser verdadeiramente valorizado quando se torna um valor para o próprio, portanto, quando o próprio o valoriza.

    O mecanismo é ironicamente eficaz, pois tendemos a valorizar a paz somente quando a perdemos. Então, há que trazer à memória a perda dessa paz juntamente com as emoções consequentes. Depois, há que fazer ver a essa criança que todos queremos paz, que não é somente ela que quer paz e que, se todos formos mais pacíficos, todos teremos mais paz. A criança terá que entender que se cada um contribuir com a sua parte da paz, a paz cresce para todos. A contribuição individual resulta num benefício coletivo bem como individual.


    Não é à toa que a tradição Védica nos ensina que o valor da pacificidade é o mais exaltado. A razão para isso fica clara quando se entende que a paz é o tecido onde reside a harmonia individual, familiar, social e mundial. Sem paz individual não há paz familiar. Sem paz familiar não há paz social. Sem paz social não há paz mundial.
    A não-violência tem duas direções, a primeira é interna, a segunda é externa. A não-violência interna é a prática da pacificidade com o complexo corpo-energia-mente. A não-violência externa é a prática da pacificidade com o mundo externo, em todas as formas no qual está manifesto.


    Na primeira, interna, a pessoa deverá aprender a aceitar inteligentemente, objetivamente e pacificamente as suas próprias limitações, entendendo que ultrapassar os limites do seu complexo corpo-energia-mente é um ato violento. Ir além dos limites razoáveis que cada um tem põe em risco a saúde física, a saúde energética e mental. Então, quando se pensa em não-violência, deverá ser incluída a componente fundamental da relação consigo mesmo. A relação consigo mesmo deve ser não-violenta. O resultado a médio-longo prazo de se relacionar não-violentamente consigo mesmo é chamado maturidade emocional, algo tremendamente desejável para todos os seres humanos. Quanto mais cedo na vida a pessoa se torna madura emocionalmente, menos se violenta a si mesma e naturalmente menos violentará os demais. Isso é muito desejável tanto a nível individual quanto coletivo.

    Na expressão externa da não-violência criamos um ambiente onde a segurança individual aumenta, porque os demais não se sentem ameaçados com a nossa conduta. Com isso vemos pessoas mais relaxadas, calmas e com níveis de stress baixos. Num lugar onde o índice de violência, seja ela mental, verbal ou física, é baixo, as pessoas naturalmente se sentem mais conectadas, livres e à vontade para serem quem são, expressando os seus talentos e virtudes sem medo de represálias ou ameaças. Por outro lado, vemos que um ser humano inserido num ambiente continuamente hostil desenvolve traumas, medos, ansiedades e cria, consequentemente, um comportamento reativo-defensivo como resposta.

    Ele deixa de poder expressar as suas virtudes em função da necessidade instintiva de se proteger, porque muita da sua energia é empregue na sua proteção. Para além disso, tendencialmente a violência é respondida com violência, o que gera mais violência. É como gasolina atirada para uma fogueira! O efeito é catastrófico.


    Cada um sai muito beneficiado com apenas alguns minutos de contemplação reflexiva sobre o que é a pacificidade e quais as consequências positivas e desejáveis deste nobre valor que se transforma numa conduta de vida. A análise de como e quando se é violento abre a possibilidade ao vislumbre de como não o ser. Daí, cada um poderá implementar metas diárias para aperfeiçoar e implementar ahiṁsā nas suas vidas sem necessidade de recorrer a filosofias complicadas.


    Para os que buscam espiritualmente, portanto para os que buscam deliberadamente a paz, que fique bem claro que somente pela paz a paz é alcançada. Pela prática da paz surge a estabilidade na prática da paz. Pela estabilidade continuada na conduta pacífica surge a descoberta da santidade, que é a natureza pura mental de cada um, que assume a forma de compaixão. Então, há a descoberta de algo muito profundo e bonito, sarvabhūtadayā, a compaixão dirigida a todos os seres, que não é mais do que o desejo de que todos os seres não sofram, de que todos os seres possam ter paz.

    Tendo como valor no coração a conduta pacífica, a pessoa abstém-se da conduta violenta. Há que aprender a vigiar os pensamentos, aprender a filtrar as palavras e aprender a conter qualquer expressão ou impulso físico violento. Um Yogin é alguém íntegro, uma pessoa em quem o pensamento, a palavra e a ação estão alinhados. Alinhe-se pela paz. Amorosamente seja pacífico consigo mesmo e com os demais seres que partilham a vida aqui na Terra consigo.

    Paulo Abreu Vieira
    Novembro 2021

  • Bhūmī-devī – A Mãe Terra

    O momento é mais do que oportuno para falar sobre a Devī. Hoje, dia 14 de Outubro, após as 14.22h, começa o daśamī tithiḥ, o décimo dia lunar, e portanto celebra-se o Vijaya Daśamī, o décimo dia. Este é um dia novos começos, um dia de celebração da vitória do bem sobre o mal, da vitória do dharma sobre o adharma. Assim sendo, fica aqui o meu profundo desejo: que o dharma possa sempre prevalecer nas nossas vidas, sendo o principal fator decisivo nas nossas escolhas e tomadas de decisão.


    Porém, o tema do artigo de hoje não é o Navarātrī, mas sim a Mãe Terra, ou se quisermos a Mãe Universal. Primeiramente, antes de falar sobre Mãe Terra, falarei sucintamente sobre a mãe individual, mãe de cada um de nós, a sua mãe. Se está a ler estas palavras, foi pela graça da sua mãe, e do seu pai, claro, como é óbvio. Na Taittirīya Upaniṣad, na primeira Vallī, intitulada Śīkṣāvallī, na anuvāka nº20, deparamo-nos com um mantra muito importante:

    मातृदेवो भव । पितृदेवो भव । आचार्यदेवो भव । अतिथिदेवो भव।
    mātṛdevo bhava | pitṛdevo bhava | ācāryadevo bhava | atithidevo bhava|
    Possa ser aquele para quem a Mãe é Īśvara. Possas ser aquele para quem o Pai é Īśvara. Possas ser aquele para quem o Professore é Īśvara. Possas ser aquele para quem o convidado é Īśvara.

    Este mantra ocorre num contexto muito importante, cuja relevância é também importante para a vida de qualquer ser humano. Qual é o contexto? O contexto é o seguinte: o professor, tendo concluído o ensinamento do Veda aos seus discípulos, que o memorizaram na íntegra, liberta-os da aprendizagem, abençoando-os para que possam constituir família e seguir crescendo emocionalmente e espiritualmente.

    Neste contexto, ele dá alguns conselhos importantes para a vida aos seus discípulos. Um deles, relevante para nós neste momento, é “mātṛdevo bhava”; bhava, que possas ser, que possas tornar-te, mātṛdevaḥ, aquele para quem a Mãe é Deva, uma deidade, ou Īśvara. A Upaniṣad quer revelar que a mãe ocupa um lugar especial, equivalente a uma deidade, equivalente a Īśvara.


    De facto, quando a mãe trás no ventre por nove meses um filho – e cada um de nós é filho ou filha – a mãe é um instrumento completo do Criador ou da Criação, como quiser chamar-lhe. O Universo inteiro opera milagrosamente através da Mãe e uma criança nasce, tendo sito nutrida e magnificamente protegida por cerca de nove meses pela mãe, numa casa incrivelmente desenhada pelo melhor arquiteto, Īśvara, o Arquiteto Universal.

    Depois, tendo nascido, o bebé recebe o leite materno e todos os cuidados mais do que necessários para o seu crescimento e desenvolvimento adequados. Sem a mãe ou alguém que ocupe esse lugar, um bebé simplesmente não sobrevive. Assim sendo, tendo em conta estes factos, possa o leitor lembrar que se consegue ler estas palavras, isso deve-se à presença e à contribuição muito significativa da Mãe, seja ela biológica, ou não. Então, lembrando quem nos fez bem, e lembrando todo o bem que nos fez, o sentimento resultante num coração saudável é de amor e gratidão acompanhado de um profundo respeito.


    No seguimento do que acabou de ler, partilho aqui consigo, um verso juntamente com a sua tradução e comentário, que ocorrem no meu primeiro livro intitulado “Preces Matinais Antigas de Índia” e que, para mim, foi e continua a ser muito significativo, revelador e digno de contemplação –

    समुद्रवसने देवि पर्वतस्तनमण्डले ।
    विष्णुपत्नि नमस्तुभ्यं पादस्पर्शं क्षमस्व मे ॥
    samudravasane devi parvatastanamaṇḍale ।
    viṣṇupatni namastubhyaṁ pādasparśaṁ kṣamasva me ॥

    Significado das palavras:
    samudra-vasane devi – ó deidade, deusa, a que tem os oceanos como vestes; parvata-stana-maṇḍale – cujos seios redondos são as montanhas; viṣṇupatni – a consorte de Viṣṇu; namaḥ – saudação, reverência; tubhyaṁ – para si; pāda-sparśaṁ – tocar com os pés; kṣamasva – perdoe; me – a mim.

    Tradução:
    Ó Deusa! (Você é) a consorte de Viṣṇu, os oceanos são as suas vestes e as montanhas são os seus seios redondos. (A minha) saudação para si e perdoe-me por tocar (com os pés em si).

    “No Vaidika Saṁpradāya, Tradição Védica de Ensino, o planeta Terra é visto como Bhūmi-devī, a deidade Bhūmī, Mãe Terra, que é quem nos sustenta. Ela é o solo onde crescem as árvores que nos fornecem alimento, oxigénio e sombra, é o solo onde os oceanos encontram o seu repouso, é as montanhas em cujas encostas íngremes correm incontáveis rios que nutrem cidades, vilas e aldeias, é o chão que segura as nossas casas e que os nossos pés pisam. A Mãe Terra é simbolicamente a mãe de todos os seres vivos, pois todos eles nascem da terra, pela terra são sustentados e à terra retornam quando a vida termina.


    É importante e necessário saber que na cultura Indiana os pés são considerados impuros pois estão sujeitos a muita sujidade especialmente quando se caminha descalço ou de chinelos. Por isso, na Índia e noutros países, o calçado geralmente fica à entrada das habitações e as pessoas lavam os pés assim que chegam a casa. Desta forma evitam trazer para dentro de casa a sujidade das ruas. Nos templos hindus, por exemplo, para além de apenas se poder entrar descalço, existe geralmente à entrada uma torneira específica para lavar os pés e para salpicar o corpo com água, que é um pequeno ritual ou gesto de purificação que a maior parte das pessoas segue.

    Ainda há algo muito interessante a dizer sobre os pés. Na Índia, quando alguém acidentalmente toca com o pé noutra pessoa, a pessoa que acidentalmente tocou com o pé deverá tocar com a sua mão direita na pessoa tocada pelo seu pé. Este gesto é um pedido de desculpa. Depois de pedir desculpa, a pessoa toca com a sua mão direita nos seus olhos. O mesmo se aplica se chutarmos acidentalmente dinheiro, livros, instrumentos de música, ou objetos relacionados com o ensino. O gesto de tocar com as mãos nos olhos é uma forma de comunicar que o objeto em que toquei acidentalmente com o pé é sagrado, tal como os meus próprios olhos são, graças aos quais posso ver o mundo e apreciar a sua beleza e singularidade.


    Os pés também são vistos como um altar onde reverência, gratidão e humildade são oferecidas através duma prostração diante deles. Quando um sādhu, uma pessoa santa, o mestre, os pais ou avós, uma pessoa mais velha, ou outra pessoa importante nas nossas vidas chega, é costume expressar a reverência, o amor, a gratidão e a humildade que sentimos, através de nos prostrarmos e tocarmos nos pés deles com as nossas mãos. A pessoa que recebeu a prostração, em retorno, poderá colocar a sua palma da mão direita na nossa cabeça, que é um sinal das suas bênçãos. Portanto, embora os pés sejam considerados impuros na cultura indiana, eles são também o altar onde oferecemos a reverência, a gratidão e o amor que sentimos pelas pessoas que são significantes e importantes para nós.

    Gostaria ainda de acrescentar algo importante. Na Índia esticar as pernas deixando as plantas dos pés voltadas para o professor ou para alguém que esteja a palestrar, é falta de educação e falta de consideração. Por isso é costume as pessoas sentarem-se com as pernas cruzadas tapando os pés.


    Tendo abordado os pés no contexto cultural indiano, estamos preparados para entender o significado desta prece. Quando nos levantamos da cama a primeira parte do corpo a tocar o chão são os pés. Como a Terra é a Deusa Mãe é apropriado pedirmos desculpa porque iremos pisá-la ao ter que sair da cama. Sendo simbolicamente seus filhos, nós deveríamos tocar nos pés da Mãe Terra para receber suas bênçãos evitando voltar nossos pés na sua direção. Uma vez que isso é impossível porque inevitavelmente tocaremos no chão, o pedido de desculpa é mais que apropriado.


    Com esta prece estabelecemos uma ligação e comunhão com o planeta, que nos enche o coração de amor e gratidão. Este pedido de desculpa é na verdade o reconhecimento da importância que Bhūmī, a Mãe Terra, tem. Existe um ditado que diz: “uma mãe é para cem filhos, mas cem filhos não são para uma mãe”. A mãe tem amor protetor, um amor que sempre dá e que sempre cuida. A mãe está sempre disposta a ajudar os seus filhos pois essa é a natureza de ser mãe. Por outro lado, nenhum filho sobrevive sem uma mãe, ou sem alguém que ocupe esse papel, porque todos os seres humanos vêm ao mundo totalmente indefesos e sem qualquer capacidade de olharem por si próprios.

    Um recém-nascido tem uma capacidade peculiar, é dotado da capacidade de confiar totalmente na mãe ou em quem cuida dele. A natureza é incrivelmente prática pois nascer totalmente indefeso e totalmente incapaz de cuidar de si próprio vem acompanhado da capacidade de confiar totalmente. Só assim o recém-nascido consegue sobreviver, confiando totalmente. A mãe, pelo contrário, para além de cuidar dela, ainda cuida dos filhos. Ou seja, uma mãe consegue cuidar de cem bebés mas cem bebés não conseguem cuidar de uma mãe. Por estas e outras razões a mãe é muito importante. Se a mãe biológica é muito importante, o que dizer da Mãe Terra que nutre e suporta todos nós? Bhūmī, a Mãe Terra, é a Mãe de todos os seres vivos, por isso, antes de a pisar, eu peço desculpa.”

    Paulo Abreu Vieira,
    11/10/2021

  • A Importância de Japa no Ganho de Maturidade Emocional

    No decorrer do estudo de Vedānta, ou até do Yoga, geralmente os alunos deparam-se com uma prática de meditação muito específica chamada “mantra-japa” ou simplesmente “japa”. Japa vem da raiz verbal “jap”, que significa dizer. Mantra-japa significa dizer um mantra. Este “dizer” poderá ser alto, murmurado ou então mental. Contudo, geralmente está implícito que esse “dizer” seja um dizer repetido. Ou seja, japa significa repetir diariamente um determinado mantra por um determinado período de tempo ou, então, repetir um determinado número de vezes estipulado pelo professor ou pelo próprio praticante.


    Japa, para além de ser uma prática de meditação específica, também é um compromisso que a pessoa assume perante ela mesma e perante o professor, com vista a desenvolver certas características mentais importantes para o estudo de Vedānta e também para a vida.


    Porque é necessário ou importante fazer japa, repetir um mantra? Por várias razões. Uma delas e muito importante é que sem esta prática específica é muito difícil gerir os pensamentos, é muito difícil ter uma palavra a dizer sobre o fluxo mental. Como? Vamos ver. Quando o praticante repete um mantra, por exemplo “oṁ īśāya namaḥ”, que significa literalmente “saudação para īśa” – (īśa é um dos nomes de Śiva e representa o Absoluto) – ele ocupará a sua mente somente com esse mantra, que será o seu pensamento deliberadamente repetido. No processo de repetição do mantra, e no processo de da aquisição da mestria da prática de japa, a pessoa nota, primeiramente, que a mente se distrai com muita frequência, e, depois, aprende algo fundamental sobre a mente – a tendência natural da mente é a distração. Depois, se for um praticante atento, notará que a mente geralmente pensa os mesmos pensamentos todos os dias, portanto notará que a mente pensa pensamentos recorrentes. Dentro do contexto da prática de japa, todos os pensamentos, recorrentes ou não, que não sejam o mantra, são considerados distrações e, portanto, não são para lhes darmos corda. Ou seja, se a pessoa dá conta de que se distraiu a pensar nas compras para o jantar, ou no companheiro, ou no filho, ela deverá parar de entreter esses pensamentos que saem fora do âmbito da meditação e voltar à repetição do mantra. Este processo de “voltar ao mantra” deve ser feito com muita compaixão e paciência e a pessoa não deve criticar-se negativamente por sentir dificuldade em manter a mente focada na repetição do mantra. A realidade é que nos primeiros tempos da prática, japa não é fácil e pode até ser frustrante, contudo, os resultados desta prática valem bem o esforço!


    Assim sendo, é muito importante a prática de japa porque a pessoa fica munida da capacidade de manter a mente focada em qualquer coisa e em qualquer altura. Esta capacidade de foco unidirecional é chamada de ekāgratā e é muito importante para o estudo de Vedānta, no qual a atenção auditiva do aluno e a disponibilidade da mente em permanecer com essa atenção é tremendamente precisa. Se esta atenção não estiver presente, haverão muitas distrações durante a aula sem que a pessoa as note, o que se traduzirá numa perda de muito conteúdo importante para o aluno. Assim é porque as aulas de Vedānta seguem uma linha de comunicação construtiva e progressiva onde cada ideia comunicada é substanciada pela ideia anterior e assim sucessivamente. A aula é como um caminho que o professor faz de mão dada com o aluno, mostrando-lhe as várias nuances da vida, da humanidade e da realidade. Se a dada altura o aluno se distrai sem se aperceber, é como se ele soltasse involuntariamente a mão do professor e fosse noutra direção, perdendo de vista todas as nuances importantes para as quais o professor aponta. Com isso ele perde o fio condutor da aula e a mensagem falha o alvo porque não encontra um recipiente válido onde ficar, e isso não é desejável, obviamente. Por esta razão japa é importante. Agora, se estendermos o que se passa com um aluno distraído durante a aula à vida desse aluno, facilmente entenderemos que ele terá muitas distrações. Estará a falar com alguém, mas a pensar noutra coisa, não ouvindo direito o que lhe é dito, o que causa inúmeros problemas comunicacionais. Vejam aqui e agora que japa ajuda-nos a comunicar melhor. Ajuda-nos a ouvir, ajuda-nos a estar presente na audição.


    Outra importância do japa é a conexão com a deidade invocada pelo mantra. Essa conexão é importante porque a deidade ajudará a pessoa, especialmente nos momentos difíceis. As deidades são nutridas pelas ofertas e pelos mantras, e em troca nutrem-nos. Por outras palavras, a repetição de um mantra trás puṇyam e esse puṇyam ajuda a pessoa a viver melhor. Isto também é desejável e importante.


    Tenho constatado através de relatos de vários alunos iniciados por mim em mantra japa, e, claro, também pela minha própria prática pessoal de mantra, que a capacidade para ultrapassar problemas emocionais aumenta consideravelmente. Isso dá-se não só pela graça, pelo puṇyam que a pessoa ganha para si pelo seu próprio mérito, como também pela graça que é passada com a iniciação do mantra. Para além disso, algo também muito importante acontece num praticante experiente de japa – o nascimento de uma mente meditativa, o nascimento de uma mente sāttvika. Numa mente assim todos os estados emocionais são acolhidos, pois quem tem uma mente assim aprendeu muito bem a observar a sua própria mente e sabe muito bem que a mente é um mero instrumento ao dispor de quem o uso, aliás, como qualquer outro instrumento. Esta mente contemplativa é um ganho muito desejável para qualquer pessoa, mas ainda mais desejável para um aluno de Vedānta, e representa que o instrumento chamado mente está bem “calibrado” ou “afinado”. Se a prática de japa for bem executada, com calma, perseverança, paciência, com a correta pronúncia e entoação, com a rapidez adequada, os resultados são visíveis em poucas semanas.

    Boa prática!

    Paulo Abreu Vieira

    Setembro 2021

  • Gurupūrṇimā

    Hoje é um dia muito especial chamado o Dia do Guru. Neste dia, por toda a Índia, tradicionalmente, as pessoas realizam Guru-pūjā, o ritual reverencial para os seus Mestres. Este dia também é conhecido como Vyāsa-pūrṇimā, a Lua Cheia de Vyāsa, pois Veda Vyāsa nasceu na lua cheia (pūrṇimā) do mês Āṣāḍha (Junho-Julho).
    Veda Vyāsa foi o compilador dos Vedas, o compositor dos Purāṇas, do Mahābhārata e dos Brahmasūtras. Ele, depois de Dakṣiṇāmūrti é o elo mais importante da nossa Tradição de Ensino, que se chama em Sânscrito Sampradāya, e que detém e protege o Conhecimento do Eu Ilimitado bem como método de o comunicar. Esta tradição é feita de pessoas que constituem guru-śiṣya-paramparā, a sucessão ininterrupta de mestres e alunos. Graças a esta sucessão ininterrupta, ainda hoje os Vedas são recitados como eram há 5000 anos atrás, o que é simplesmente incrível. Esta sucessão ou linhagem de mestres, que outrora foram discípulos, vai desde Śiva, a origem deste conhecimento, o Ādiguru, o primeiro Mestre (Dakṣiṇāmūrti), passando por Veda Vyāsa, por Ādi Śaṅkarācārya, chegando até aos meus Mestres.
    Quando reverenciamos o nosso Guru não estamos, na verdade, a reverenciar uma pessoa, mas sim toda tradição da qual ele faz parte, da qual ele é ou foi um elemento significativo. Para além disso, reverenciamos também todo o esforço de preservação, proteção, enriquecimento e tapas de todos os Munis, Sábios, desta nossa linda Tradição de Ensino de Vedānta. E ainda, quando reverenciamos o Guru, estamos na verdade a reverenciar o intelecto dele, no qual brilha o conhecimento de Brahmātman, o Eu Ilimitado, que por sua vez também reverenciamos. Reverenciamos ainda o conhecimento de todas as práticas acessórias necessárias ao florescimento deste conhecimento que liberta, e que habita na mente do mestre, e que ele vai conferindo sempre que necessário aos seus alunos. E mais, reverenciamos também toda a estrutura que apoia as atividades do mestre, pois é graças a ela também que o conhecimento do Eu Ilimitado chega a tantas pessoas por esse mundo fora. Podemos agora entender melhor que a palavra Guru representa uma Instituição de Conhecimento Espiritual e não meramente uma pessoa. Assim sendo, este dia é a oportunidade genuína de mostrarmos a nossa gratidão e expressarmos o nosso carinho. Muitos, neste dia, viajam para visitarem o seu Guru, levando-lhe comida, fruta, flores, roupas, presentes, dinheiro, amor, e tudo o mais que considerem que o Guru possa precisar. Enquanto presenteiam o Guru, oferecem também o seu namaskāra, saudação reverencial, pedindo bênçãos e desejos de sucesso, prosperidade e abundância a todos os níveis.
    O Sampradāya revela quatro tipos de bênçãos necessárias para o sucesso em qualquer coisa:1 – Ātma-anugraha, a bênção de si mesmo. 2 – Īśvara-anugraha, a bênção de Īśvara3 – Guru-anugraha, a bênção do Mestre.4 – Śāstra-anugraha, a bênção do śāstra, portanto de Vedānta.
    Para um aluno de Vedānta o verdadeiro sucesso será o entendimento claro e firme do conhecimento do Eu Ilimitado. Então, cabe somente à pessoa a decisão de ganhar este conhecimento e ir atrás dele. Esta decisão é, em si mesma, ātma-anugraha. Para que a busca por este conhecimento seja fluida, mais fácil, e sem obstáculos, é necessária a bênção ou a graça de Īśvara, que é obtida através de uma vida de preces, mais concretamente, com uma vida de Karmayoga. Com ātma-anugraha e Īśvara-anugraha, a pessoa irá encontrar o seu Mestre, ou seja, irá ver num ser humano a figura do Mestre, assim como a dada altura, Arjuna passa a ver Śrīkṛṣṇa como o seu Mestre. E tal como Arjuna pediu a Śrīkṛṣṇa para ser aluno dele, também a pessoa deverá pedir para aprender com a pessoa que fará esse papel. Tendo sido pedido o conhecimento ao Guru, recebemos a graça do guru que vem na forma de śāstra-anugraha, a bênção do ensinamento, chamada Mokṣa, a liberdade interior ou a liberdade do sofrimento. A pessoa inteligente entende a dinâmica destas quatro bênçãos e a seu tempo, naturalmente, ganha o conhecimento, ficando liberta em vida. Por essa razão, Mokṣa, o Mestre deve ser reverenciado.
    Saúdo reverencialmente o meu querido Mestre Svāmī Dayānanda Sarasvatī, o meu querido mestre Svāmī Paramārthananda Sarasvatī e o meu querido mestre Svāmī Sadātmānanda Sarasvatī, bem como todos os outros aqui não mencionados. Mentalmente ofereço aos seus pés de lótus o meu nasmaskāra acompanhado de flores e frutas, lembrando e reconhecendo a grande diferença que fizeram e fazem na minha vida. Oṁ Śrī Gurubhyo namaḥ ||

    Paulo Vieira

  • Dia Mundial do Yoga – 21 Junho

    Hoje, dia 21 de Junho, é um dia de luz. Primeiramente, é um dia de luz pois celebra-se o Solstício de Verão que marca o início do Verão, a estação quente, luminosa, que nos permite viver com energia e entusiasmo! Este é o dia mais longo do ano, portanto é também a noite mais curta do ano. Neste dia, o pôr-do-sol acontece no ponto mais a norte e depois deste dia o Sol começará aos poucos a pôr-se cada vez mais para sul, até chegar ao ponto máximo, o dia 21 de Dezembro, o Solstício de Inverno, que marca o início do Inverno, a partir do qual o Sol começará novamente a sua viagem para norte.

    Dentro da nossa Tradição a luz representa o conhecimento e a escuridão representa a ignorância. A luz, pela mera presença e nada mais, remove a escuridão, que simplesmente e impotentemente desaparece. Da mesma forma, pela mera e simples presença, o conhecimento implacavelmente remove a ignorância, que nada pode contra ele.

    Segundamente, este é um dia de luz porque é o dia mundial do Yoga, considerado e bem como Património da Humanidade. O Yoga não precisa de um dia para ser celebrado, pois ele é celebrado todos os dias por milhares de yogins por esse mundo fora. Sempre que um yogin faz uma saudação ao Sol, ele celebra o Yoga, e celebra as forças da Natureza, exaltando-as, seja por intermédio de preces, rituais, ou outros meios de expressão, como os āsanas, por exemplo, dos quais muitos mimetizam posturas de animais.

    Nem tão pouco o Yoga precisa de um dia mundial, pois o Yoga não pertence a um determinado país, não está feito refém de nenhum reino, por isso não precisa de ser libertado e entregue ao mundo todo.

    O Yoga é uma prenda dada à humanidade para que esta se contrua e reconstrua, para que esta aprenda a viver em harmonia, para que esta aprenda intimamente que faz parte da Natureza.

    Sendo uma prenda, uma bênção, que feliz que ficamos quando todas as pessoas por esse mundo fora podem proferir a palavra Yoga contemplando no seu significado. YOGA, YOGA, YOGA. Que este seja um mantra Universal – que haja Yoga para todos.

    Yoga significa união, significa absorção ou contemplação, e ainda autodomínio[1]. Yoga é o meio ou a disciplina do autodomínio, da conduta apropriada e disciplinada, indicada pelos yamas e niyamas, os fundamentos do Yoga. Yoga, significando união, é a integração de todos os aspetos da pessoa: físico, energético, mental, emocional, cognitivo e espiritual. Quando todos se unem com um só propósito, o do autoconhecimento, é como se as cordas do instrumento estivessem finalmente afinadas e prontas para ressoar juntas, em união. Nessa afinação estão juntas e em harmonia, e o instrumento, a pessoa, pode tocar a linda música da vida harmoniosa; então é dito que a pessoa tem Yoga.

    Yoga como absorção ou contemplação é o resultado de uma vida espiritual, que é, no fundo, uma vida de Vedānta, uma vida de exposição ao conhecimento do Ser. Este conhecimento é revelado nos vários śāstras com a ajuda de um professor e trás a profunda e libertadora descoberta da liberdade como sendo a Realidade Última da pessoa. Após esta descoberta, após esta mudança cognitiva, resta a última prática, a contemplação no Ser. Esta contemplação chama-se Yoga.

    Com a contemplação constante no Ser obtém-se o hábito de contemplar no Ser. Com o hábito de se contemplar no Ser, a contemplação torna-se espontânea, significando que o conhecimento do Ser foi assimilado. Esta assimilação completa do conhecimento do Ser também é chamada de Yoga, conhecida aqui no ocidente pelo romântico e místico nome de Iluminação. Por esta última razão também, o dia de hoje também é um dia de Luz.

    Paulo Abreu Vieira, 21 Junho, 2021

    [1] A – 7√युज् (युजिर्), योगे – raiz verbal “yuj”, pertencente à 7ª conjugação, com o significado de unir, associar. B – 4√युज् (युज), समाधौ – raiz verbal “yuj”, pertencente à 4ª conjugação, com o significado de meditar, contemplar, absorção. 3 – 10 √युज् (युज), संयमने – raiz verbal “yuj”, pertencente à 10ª conjugação, com o significado de parar, controlar, conter, do qual advém o significado autodomínio.

  • Ādiśaṅkarācārya Jayanti – Nascimento de Ādiśaṅkarācārya

    Hoje, dia 17 de Maio, śuklapakṣe pañcamī tithiḥ, no quinto dia a contar da lua nova do mês Vaiśākha (correspondente a Abril-Maio), celebra-se por toda a Índia o nascimento do grande sábio Ādiśaṅkarācārya, considerado por muitos um avatāra de Śiva Mahādeva.
    Este grande santo nasceu no sul da Índia, no estado de Kerala, em Kalady. Existe incerteza relativamente ao ano do seu nascimento, sendo que alguns referem ter sido por volta do Século Oitavo antes de Cristo. Porém, outros referem que este colossal Mestre nasceu muito mais tarde, já depois do nascimento de Cristo.
    Contudo, nenhuma incerteza existe relativamente ao seu importante contributo para a humanidade, que consiste na sua vasta obra literária e também na edificação de 4 Maṭhas, centros espirituais e escolas tradicionais de Vedānta, estrategicamente dispostos na Índia, a norte, a sul, a este e oeste, que ficaram a cargo dos seus principais discípulos.
    A Este, em Puri, e a cargo de Padmapāda ācārya, ficou o Govardhana Maṭha. A Oeste, no Gujarat, e a cargo de Hāstāmālaka ācārya, ficou Dvāraka Śārada Maṭha. A Norte e a cargo do Toṭaka ācārya ficou o Jyotir Maṭha. Finalmente, a Sul, em Karnataka, o Śringerī Maṭha, a cargo de Sureśvara ācārya.
    Desta forma, tendo edificado estes centros de propagação e ensino de Advaita Vedānta, este nosso grande Mestre assegurou que toda a humanidade pudesse ter acesso a uma tradição viva de ensino, passada de mestre a discípulo, que vem eliminando sem misericórdia o sofrimento da humanidade.
    A grande obra literária deste genial homem é profunda e vasta, sendo constituída pelo famoso Bhāṣya, que é o nome comummente dado ao comentário à Śrīmadbhagavadgītā, ao comentário a 10 Upaniṣads – īśa, Kena, Kaṭha, Praśna, Muṇḍaka Māṇḍūkya, Taittirīya, Aitareya, Chāndogya e Bṛhadāraṇyaka, e ao comentário aos Brahmasūtras.
    Para além do famoso Bhāṣya, Ādiśaṅkarācārya compôs ainda vários tratados de Vedānta, como o Vivekacūḍāmaṇi, Sādhanapañcakam, entre outros, e também muitos Stotrams, hinos de louvor a diversas deidades, e ainda o Vivaraṇa, o comentário ao comentário dos Yogasūtras de Patañjali, escrito por Veda Vyāsa.
    Nas obras de Ādiśaṅkarācārya, mas mais propriamente no seu Bhāṣya, encontramos exposto o método de ensino de Advaita Vedānta, no qual a mensagem das Upaniṣads é revelada e explicada com muita clareza e profundidade, e o qual, qualquer aluno sério de Vedānta, deve decidir estudar com um professor qualificado para o ensinar.

    Hoje é o dia de reverenciarmos este ilustre mestre, e assim partilho um verso tradicionalmente recitado diariamente por muitos Vedāntins –

    सदाशिवसमारम्भां शङ्कराचार्यमध्यमाम् ।
    अस्मदाचार्यपर्यन्तां वन्दे गुरुपरम्पराम् ॥

    sadāśivasamārambhāṁ śaṅkarācāryamadhyamām ।
    asmadācāryaparyantāṁ vande guruparamparāṁ ॥

    Eu saúdo a linhagem de mestres que começa com Sadāśiva (aquele que é sempre auspicioso), que tem no meio Ādiśaṅkarācārya, e que se estende até ao meu professor.

    Aham vande, eu saúdo, guru-paramparāṁ, a linha ininterrupta de Gurus, Mestres, que outrora foram discípulos, e que aprenderam com os seus respetivos mestres que, por sua vez, também foram discípulos. Quando começou esta tradição? Quem é o primeiro Mestre? O primeiro Mestre é Dakṣiṇāmūrti, Śiva na forma do primeiro professor. Este verso diz isso mesmo: sadāśiva-samārambhāṁ; esta tradição de ensino, samārambhā, começa com Sadāśiva, Śiva Mahādeva, e śaṅkara-ācārya-madhyamām, tem no meio o nosso grande Mestre Ādiśaṅkarācārya, sendo que asmad-ācārya-paryantāṁ, se estende, vem até, ao meu querido Mestre.
    A tradição de ensino chamada Sampradāya vive e mantém viva a chama do conhecimento, que está bem acesa naqueles que a aprendem, seguem e propagam, e que, portanto, ilumina a vida daqueles que procuram e ganham o Conhecimento da Verdade e todos os que a procuram.
    A palavra ādi significa o primeiro. A palavra Śaṅkara é muito significativa – śaṁ kalyāṇaṁ karoti iti śaṅkaraḥ, śaṅkara é aquele que faz śam, o bem, aquele que confere kalyāṇaṁ, graça, aquele que confere o auspicioso. A palavra ācārya significa professor, aquele que primeiro aprende, depois ensina e que também segue aquilo que ensina e que aprendeu. Assim sendo, fica claro que Ādiśaṅkarācārya foi um grande mestre, cuja obra deixada, a explicação da mensagem profunda de Vedānta e tão difícil de compreender, confere o maior bem que um ser humano pode obter em vida, chamado Mokṣa, libertação.
    Que possamos todos nós agradecer e humildemente saudar muitas e muitas vezes, não só hoje, mas sempre, e não só este nosso Mestre, mas todos os mestres de Vedānta, que nos ajudam a viver seguindo o Dharma, com mais sabedoria, e sem os quais ātmajñānaprāptiḥ, o ganho do conhecimento do ātman não seria possível. Fica aqui a minha reverência profunda e total gratidão pela oportunidade de ter este grande Mestre na minha vida expressa pelo meu namaskāra.

    ओं श्रीशङ्कराचार्याय नमो नमः । Oṁ śrī-saṅkarācāryāya namo namaḥ ।

    Maia, 17 de Maio de 2021
    Paulo Abreu Vieira

  • O Problema Fundamental Universal

    Os humanos têm algo de muito profundo em comum – todos querem ser felizes. Se analisarmos a nossa vida e a vida das pessoas que nos rodeiam, como por exemplo a das que são mais significativas para nós e que estão mais perto de nós, como os pais, o companheiro ou a companheira, os filhos, etc., certamente repararemos que todos tentamos fugir ou evitar as situações que trazem infelicidade, e também que todos temos uma atração especial por situações que nos trazem felicidade.
    Por mais simples que possa parecer, a vida é essencialmente pautada por estas duas buscas: a primeira está na forma de negação ou evitação de situações que nos fazem infelizes, a segunda é a busca por situações que nos fazem felizes.
    Uma análise mais cuidada a estas duas buscas, que na realidade são uma só – a busca por felicidade – traz-nos à conclusão de que a felicidade é vista por como o produto ou a consequência de uma ação, ou de um dado acontecimento ou evento. Assim sendo, a felicidade torna-se dependente do sucesso dessa ação ou de determinado evento, situação, etc. e então estaremos sempre dependentes de algo para ser felizes, o que é, em si mesmo, um jogo muito arriscado que a maior parte das vezes não ganhamos, simplesmente porque o mundo é instável, sendo, ainda por cima, o seu comportamento imprevisível.
    Se o mundo e as pessoas fossem realmente previsíveis, então poderíamos prever como e quanto seríamos felizes. Porém, esse não é o caso. As situações inesperadas tanto nos atiram para cima, enchendo-nos de exaltação e euforia, como nos atiram para baixo, inundando-nos de tristeza e depressão, fazendo com a vida pareça um autêntico ioiô ou mesmo uma montanha russa.
    Uma verdade acerca da busca por felicidade que precisa de ser conhecida é o senso de completude ou de plenitude que existe num momento de felicidade. Todos já experienciamos essa plenitude ou realização, por outras palavras, todos já nos sentimos completos num ou em vários momentos das nossas vidas. Isso acontece porque a felicidade manifesta-se como a sensação de plenitude, a sensação de que não nos falta nada, de que não carecemos de nada. Porém, essa experiência é passageira, e assim que passa, a pessoa volta ao que era. A pessoa volta a sentir carência, volta a sentir um vazio, volta a sentir que algo não está bem.
    Gostaria agora de olhar para esse vazio ou senso de carência e dizer ao leitor porque é que ele existe. Esse senso de carência, de insuficiência, de vazio, como quiser chamar-lhe, é sempre referente a algo, está sempre relacionado com um dado aspeto ou esfera da vida.
    Muitas pessoas sentem um senso de insuficiência relativamente ao seu corpo. Sentem que não são suficientemente bonitas, bem feitas, fortes, etc. Este é um senso de insuficiência centrado no corpo, que é muito comum. Isso significa que as pessoas não estão em paz, ou que não são felizes com o corpo que têm e que procuram a todo o custo mudá-lo, para que, aos seus olhos, ele se torne suficientemente bom e esteja à altura das expectativas, próprias e sociais.
    Outro senso de insuficiência é centrado na energia e na saúde. Ninguém gosta de se sentir cansado e sem energia, assim como ninguém gosta de se sentir doente. Então, em questões de saúde e de energia, há um senso de insuficiência. É por isso que existem pessoas obsessivas pela saúde e obsessivas por energia. As primeiras vivem obcecadas com todo o tipo de terapias, para que nada “lhes pegue” e as segundas poerão ser viciadas em cafés, substâncias melhoradoras de desempenho, drogas, ou mesmo viciadas em contacto social de onde extraem a sua energia.
    Ao nível emocional também existe um senso de insuficiência, ou de incapacidade, pois as pessoas debatem-se de forma exaustiva com as suas próprias emoções, desejando a todo custo ficar livres das emoções ditas indesejáveis, como a raiva, a tristeza, o medo, etc. Isso significa que a nível emocional as pessoas gostariam de ser diferentes, e que sofrem porque não são diferentes.
    Cognitivamente a insuficiência também é notada e isso é visto com clareza nas escolas e universidades, onde os alunos se debatem entre si numa competição subtil para serem os melhores, lutando diariamente com as suas limitações, no que diz respeito à inteligência, à memória, à forma como estruturam a linguagem, etc. Face a estas limitações existe um senso de insuficiência ou incapacidade que torna as pessoas insatisfeitas e consequentemente infelizes.
    Porque é que este senso de insuficiência, de incapacidade, ou mesmo de vazio existe? Este senso existe porque, para a grande maioria das pessoas, o senso de identidade, o senso de “eu”, reside somente no complexo corpo-energia-mente-personalidade. O pensamento da maioria das pessoas é: “eu sou este complexo corpo-energia-mente-personalidade, portanto sou tão bom ou tão mau quanto for bom ou mau o meu corpo-energia-mente-personalidade”. Se o corpo é feio, a pessoa considera-se feia, e sofre, claro, porque o senso de insuficiência respeitante à beleza existe, e a pessoa não suporta essa insuficiência. Se existe pouca energia, a pessoa rotula-se como cansada, precisamente porque existe um senso de insuficiência respeitante aos níveis de energia ou vitalidade, e a pessoa fica infeliz. Se existem frequentemente emoções indesejáveis, a pessoa considera-se emocionalmente fraca, emocionalmente insuficiente, acabando-se por se sentir ainda mais triste. Se a pessoa não tem um bom desempenho a nível intelectual, então poderá ser rotulada como pouco inteligente e, assumindo para si esse rótulo, sofre por se ver como insuficiente no que diz respeito à sua inteligência ou às suas faculdades cognitivas.
    Um facto importante que tem que saber acerca do complexo corpo-energia-mente-personalidade é que ele será sempre limitado. Por isso, por mais que o tente mudar, por mais que o tente melhorar, ele será sempre limitado. Porém, algo profundamente libertador existe na apreciação de que o limitado complexo corpo-energia-mente-personalidade não é tudo acerca de mim. Existe uma presença testemunha consciente de todos os fenómenos corpóreos, energéticos, mentais e cognitivos. Essa presença tem que ser apreciada e entendida como mais profunda do que o superficial complexo corpo-energia-mente-personalidade. Há que descobrir que essa presença não carece de nada, sendo a testemunha, sendo consciente de todas as carências. Enquanto a natureza desta consciência não for conhecida como o eu verdadeiro, a pessoa continuará a viver com o senso de “eu” centrado no complexo corpo-energia-mente-personalidade, portanto continuará a viver centrada nas limitações do corpo, etc. Então, é o desconhecimento do verdadeiro “eu” que constitui o problema fundamental do ser humano. Desconhecendo quem realmente são, portanto, desconhecendo que na realidade são a consciência testemunha dos pensamentos, emoções, memórias, sensações, etc., e mais importantemente, desconhecendo a natureza dessa consciência, cometem o erro fundamental e universal, que é concluírem que apenas são o limitado complexo corpo-energia-mente-personalidade. Assim sendo, atribuem ao “eu” verdadeiro, consciência, todos os atributos e características do corpo, sofrendo por causa disso. Este problema é fundamental pois diz respeito à pessoa fundamental, o “eu verdadeiro”, a consciência. E este problema é universal porque em todos os lugares as pessoas nascem com este desconhecimento ou ignorância acerca da verdade de si mesmas.
    Se o problema é a ignorância, a solução terá forçosamente de ser o conhecimento. Neste caso concreto, como a ignorância é sobre quem eu fundamentalmente sou, portanto, é acerca da pessoa fundamental, o conhecimento terá que ser o da pessoa fundamental, chamado ātmajñānam, o conhecimento do Eu. Assim sendo, a solução também é universal, pois a única solução para a ignorância é o conhecimento; este facto é universal.

    Paulo Vieira, 2021