• Mensagem de Natal

    O Natal está à porta e com ele vem o ano novo que nos pede sempre uma reflexão retrospetiva na qual pesamos as coisas boas e as más para fazermos um balanço do que foi o ano.

    Para uns é uma época de muita felicidade, que reencontrarão a família e celebrarão o amor e a felicidade familiar na companhia dos filhos, netos e até bisnetos. Para outros restam a solidão e as memórias dos natais de outrora, quando a família era numerosa, unida e feliz.

    Cada um vive o natal à sua maneira, como deseja ou como pode, seguindo as tradições culturais e familiares, que muitas vezes diferem entre si. Apesar de todas as diferenças superficiais, há um espírito que une todas as pessoas no mundo, é o espírito natalício, que nada mais é do que o espírito de amor, o espírito de Jesus.

    A mensagem que neste Natal de 2022 gostaria de passar é a seguinte: O amor deverá ser bidirecional: deverá ser dirigido para os demais seres vivos que partilham este planeta connosco, e deverá ser também dirigido para si próprio. A prática do amor – sim o amor é uma prática – só ficará completa se se amar e se amar os demais.

    Estas são algumas expressões do amor:

    1 – Amor é cuidar. Cuide-se e ajude os outros a cuidarem-se.

    2 – Amor é compreender: Compreenda-se e faça um esforço compreenda os demais.

    3 – Amor é compaixão: Às vezes é fácil sentir compaixão pelos outros. Sinta-a por si também.

    4 – Amor é respeito: Respeite-se e aprenda a respeitar os demais.

    5 – Amor é gratidão: Agradeça-se a si por ser quem é e seja grato por tudo o que recebe.

    6 – Amor é dar: Dê, partilhe, ofereça, pois quando o faz, está a dar a si próprio

    7 – Amor é receber: Aprenda a receber, e faça feliz aquele que dá.

    8 – Amor é lutar: Lute pelos seus ideais e pelos seus valores.

    9 – Amor é sonhar: Sonhe o futuro lindo e benéfico que quer para si.

    10 – Amor é amar: pratique em pensamento, em palavras e em ações o amor; certamente descobrirá o que é amar.

    Desejo a todos um Bom Natal e um Feliz 2023!

    Paulo Abreu Vieira

    Dezembro, 2023

  • आयुर्वेद – Āyurveda – A mente e o Ayurveda. Parte 2

    No último artigo falámos de algumas considerações acerca da mente de acordo com o āyurveda, hoje seguimos com perspectivas acerca de saúde mental e possíveis tratamentos.

    Saúde mental

    Embora não existam textos clássicos específicos sobre saúde mental, baseado nas informações espalhadas neles, podemos dizer que as doenças da mente são caracterizadas por:

    • diminuição das funções gerais da mente (controle dos órgãos dos sentidos, autocontrole, hipótese e consideração)
    • diminuição do discernimento, memória, etc
    • falta de força de vontade
    • viciação de rajas e tamas
    • possível envolvimento de elementos fisiológicos

    Alguns factores gerais que podem comprometer a saúde mental

    • contacto insalubre com o tempo, intelecto e sentidos (3 factores referidos noutro artigo)
    • não seguir uma boa conduta de valores pessoais, sociais, éticos, espirituais, etc
    • supressão inadequada de impulsos mentais, verbais e físicos.
      • por exemplo, medo, vaidade, mentiras, insultos, etc devem ser suprimidos
      • impulsos naturais como urina, fezes, fome e sono, etc não devem ser suprimidos
    • karma de vidas passadas
    • a natureza ou constituição do indivíduo
    • concretização de desejos ou aversões

    Sendo āyurveda um sistema holístico é por vezes, muito difícil fazer uma distinção clara ou separação do funcionamento do corpo e da mente visto estarem sempre interligados. Mas, de acordo com o āyurveda, distúrbios emocionais como inveja, depressão, ansiedade, raiva são causados por rajas e tamas desregulados. Outras patologias mais complexas têm também um envolvimento com vāta, pitta e kapha.

    Tratamento

    Existem três grandes correntes de tratamento

    • daivavyapāśraya (terapia espiritual) – inclui mantras, oferendas, rituais, peregrinações, etc
    • yuktivyapāśraya – regime de alimentação e estilo de vida, medicação, tratamentos
    • sattvāvajaya – controle da mente ou afastamento da mente de objectos insalubres

    Todas estas correntes terapêuticas podem e são normalmente utilizadas em qualquer doença, mas no contexto específico da mente gostaria de explorar um pouco sattvāvajaya. A palavra sattvāvajaya é composta por sattva, que neste caso quer dizer mente e avajaya que pode ser traduzida como conquista, vitória, etc. Então sattvāvajaya quer dizer: conquista ou vitória sobre a mente.

    A verdade é que esta palavra aparece uma única vez nos textos clássicos e é simplesmente explicada como: “a remoção da mente de objectos prejudiciais”. Mas se olharmos para o resto dos textos, normalmente terapias para a mente assentam no autoconhecimento, conhecimento em geral, aumento do discernimento, coragem, memória e do poder de concentração.

    Então na verdade, uma intervenção ayurvédica no contexto de saúde mental, passa sempre por uma reavaliação de nutrição e estilo de vida, um possível reforço fitoterápico com formulações que suportem as funções mentais e também algumas técnicas de suporte que passam por uma espécie de “psicoterapia” que pode inclui trabalho emocional, regulação dos processos mentais, reformulação de ideias, orientar objectivos, auto controlo, auto conhecimento, reavaliação da realidade, etc.

    Embora não esteja implícito nos textos em si, podemos apreciar a importância que uma vida e prática de yoga, o estudo de vedanta, meditação, e variadas terapias têm nestes processos. De uma perspectiva āyurvedica estes não só são úteis para a prevenção, mas também como um suporte fundamental no tratamento de doenças da mente.

    Existem certas teorias ou opiniões de que o facto de os textos clássicos não se debruçarem muito sobre doenças da mente corpo em comparação a doenças do corpo.

    Uma das teorias diz que possivelmente haveriam pessoas especializadas nesta terapia de sattvāvajaya por isso não havia necessidade de muita explicação.

    Outra seria devido ao facto de que, devido a um estilo de vida mais simples e mais alinhado com a natureza e de forma geral menos stressado, havia menos recorrências de problemas relacionados com a mente.

    Fica aqui uma contemplação para o novo ano!

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de āyurveda

    www.instagram.com/wayofāyurveda_pt

    +351 925380997

  • भगवद्गितायाः व्याकरणम् – Análise gramatical da Bhagavadgītā – 19

    Símbolos usados na análise gramatical:

    √ –  raíz verbal; ⊘ –  indeclinável; m – género masculino; f – género feminino; n – género neutro; I/1 – primeira pessoa singular; II/1 – segunda pessoa singular (a numeração romana indica a pessoa, a numeração indo-arábica indica o número, que pode ser singular, dual ou plural; 1/1 – 1º caso singular; 1/2 –  1º  caso dual; 1/3 – 1º  caso plural; 2/1 – 2º  caso singular (existem oito casos, vibhaktis, no total; 7/1 – sétimo caso singular; P – parasmaipadī; Ā – ātmanepadī; U – ubhayapadī; VA – voz ativa (kartari prayoga); VP – voz passiva.

    अर्जुन उवाच ।

    सेनयोरुभयोर्मध्ये रथं स्थापय मेऽच्युत ॥ १.२१ ॥

    यावदेतान्निरीक्षेऽहं योद्धुकामानवस्थितान् ।

    कैर्मया सह योद्धव्यमस्मिन्रणसमुद्यमे ॥ १.२२ ॥

    पदच्छेदो (सन्धिच्छेदः) विभक्तिपरिच्छेदः पदार्थो व्युत्पत्तिश्च

    अर्जुनः 1/1m – Arjuna; उवाच III/1, 2P√वच्, लिट् – disse, falou; सेनयोः 6/2f – dos dois exércitos; उभयोः 6/2f, उभ शब्द, सर्वनाम – dos dois; मध्ये 7/1n – no meio; रथं 2/1m – a carruagem; स्थापय II/1, 1P√स्था, णिजन्त, लोट् – por favor posicione; मे 6/1m अस्मद् शब्द, सर्वनाम – meu (minha); अच्युत 8/1m – ó Acyuta (Aquele que é imperecível, Senhor Kṛṣṇa); यावत् Ø – até;  एतान् 2/3m, एतद् सर्वनाम – estes; निरीक्षे III/1, निर्1A√ईक्ष्, लट्; अहं 1/1, अस्मद् शब्दम्, सर्वनाम – eu; योद्धुकामान् 2/3m विशेषणम् para एतान् – desejos de lutar (योद्धुं कामः, तन्); अवस्थितान् 2/3m विशेषणम् para एतान् – reunidos, estacionados;

    कैः 3/1m, किम् शब्द, सर्वनाम – (por) quais?; मया 3/1, अस्मद् शब्द, सर्वनाम – por mim; सह Ø – com; योद्धव्यम् 1/1n – (a guerra) deve ser lutada; अस्मिन् 7/1m इदम् शब्द, सर्वनाम – neste; रणसमुद्यमे 7/1m – no começo da guerra, no esforço que é a guerra (रणस्य समुद्यमः रणसमुद्यमः, तस्मिन्).

    अन्वयः

    अर्जुन उवच, (हे) अच्युत, उभयो सेनयोः मध्ये मे रथम् स्थापय, यावत् अहम् एतान् अवस्थितान् योद्धुकामान् निरीक्षे,

    अस्मिन् रणसमुद्यमे कैः सह मया योद्धव्यम् ॥

    अनुवादः

    Tradução:

    V.1.21 e 1.22 – Arjuna disse: Ó Acyuta (Senhor Kṛṣṇa, aquele que é imperecível), por favor posicione a minha carruagem entre os dois exércitos até eu (poder) ver estes (guerreiros aqui) reunidos e desejosos de lutar, e (para poder ver) com quem terei que lutar neste começo da guerra.

  • Testemunhos dos alunos – Ricardo Louro

    A minha jornada no Vedanta com o professor Paulo começou em 2020, fruto de uma sede insaciável de aprofundar a minha relação comigo e com o mundo que me rodeia.

    Desde muito cedo comecei a sentir uma insatisfação profunda em relação aos caminhos de vida que me eram apresentados pela sociedade. Vivia com uma certeza inabalável (sabe-se lá de onde) que a vida podia ser muito mais do que aquilo que via à minha volta a acontecer, e com uma frustração extremamente dolorosa de não saber onde procurar aquilo pelo qual o meu coração ansiava. Foram anos em que andei literalmente à procura, de cidade em cidade, de estudo em estudo, de experiência em experiência, de algo que a minha mente racional não fazia a menor ideia do que poderia ser. Foram também tempos de grande tristeza e ansiedade.
    Foi neste panorama emocional que, num dia em que me encontrava particularmente deprimido, surgiu na minha mente a ideia de ir a uma aula de Yoga. Fui no dia seguinte a uma aula em que de longe era a pessoa mais nova da sala. A prática não era de todo uma prática tradicional e, apesar de não me identificar com muita coisa que estava a ser dita, senti que, como o professor costuma dizer, tinha encontrado a ponta solta do novelo.

    A busca continuou agora com uma direção, o Yoga e a espiritualidade indiana. A sensação de insatisfação continuava presente, embora estivesse agora concentrada neste novo mundo que tinha acabado de descobrir. Foi precisamente essa insatisfação (que hoje vejo como uma bênção) que me fez, poucos meses depois de ter começado a praticar, numa procura incansável por profundidade e autenticidade, aterrar numa escola tradicional de Ashtanga Yoga. Daí ao Vedanta foi um pulinho.
    No momento em que entrei pela porta do shala foi como se tivesse reencontrado um passado há muito perdido. Tudo era simultaneamente estranho e familiar. As fotografias dos mestres, as deidades, o altar, as flores, as velas, o incenso. A prática era intensa e a professora direta e assertiva. Lembro-me particularmente da primeira vez que a professora parou a prática para recitarmos todos em conjunto, de pé, o mantra inicial, sentir o meu peito a fervilhar de devoção. Entendi que o que procurava era Deus e que estava no caminho certo para conhecê-Lo.

    Escusado será dizer que mergulhei nesta tradição de cabeça. Rapidamente a minha prática ganhou um ritmo diário e os meus romances favoritos da altura começaram a desaparecer em baixo de livros de Yoga e filosofia indiana. Acabei a muito custo a licenciatura que frequentava na altura e mal tive oportunidade viajei para Mysore, Índia, onde fica a escola raiz deste sistema de Yoga que pratico. Na altura já tinha tido contacto com Vedanta, sobretudo na Internet, mas foi em Mysore que tive o primeiro contacto direto com a tradição de ensino de Shankaracarya.
    Começar a estudar Vedanta foi, na verdade, uma consequência natural do meu caminho espiritual. A prática de Yoga dá-nos a força necessária para lidarmos com o que inevitavelmente vai aparecendo à superfície mas é insuficiente na altura em que precisamos de respostas.

    Lembro-me que quando ouvi pela primeira vez que o guru da família Jois (família disseminadora do Ashtanga Yoga) era Sri Shankaracarya e que Pattabhi Jois (guru desse sistema de Yoga) tinha sido, antes de ensinar Yoga, professor de Advaita Vedanta no colégio de Sânscrito de Mysore, sentir que tinha encontrado a palavra que ia finalmente responder à minha crónica insatisfação espiritual.
    Durante dois meses estudei, diariamente, Vedanta com um professor que também é da tradição do Swamiji, em Mysore, com certeza a de que quando voltasse a casa continuaria os estudos com o professor Paulo, que na altura só conhecia através do Instagram.

    Começar esta jornada de estudos no centro Arsha Vidya foi, portanto, o culminar de toda uma busca intensiva por respostas, busca essa que provavelmente esteve sempre presente em mim, de uma forma mais ou menos consciente.
    Entrei para as turmas da Bhagavadgita e da Kathopanishad e devagarinho comecei a entender a vastidão e complexidade que é a tradição védica com as suas várias disciplinas. Para conseguirmos navegar de forma segura neste oceano de conhecimento sem corrermos o risco de nos afogarmos, precisamos seguramente de alguém que já tenha feito este caminho antes de nós e que tenha conseguido chegar ao final. O professor Paulo é sem qualquer dúvida esse Yogi que, conhecendo o trajeto com todas as suas planícies e montanhas agrestes, tem o conhecimento e a compaixão necessários para guiar quem pretende seguir o mesmo trilho.

    É importante salientar também que, paralelamente às aulas de Vedanta, que funcionam como uma auto-estrada rumo à Liberdade, o centro oferece uma vasta oferta de disciplinas acessórias a este conhecimento, como aulas de Sânscrito, Canto Védico ou Puja, para que não nos faltem ferramentas de imersão com o Divino, tornando substancialmente mais fácil a compreensão de que Deus e eu somos um só.

    A minha gratidão ao professor Paulo e a toda a equipa do centro Arsha Vidya.

  • ज्योतिष – JYOTIṢA- Períodos Planetários

    A mudança na vida é inevitável! Embora o mapa natal evidencie os karmas a frutificar nesta vida, eles irão manifestar-se em períodos específicos. A influência de cada graha (planeta) tornar-se á- mais proeminente em certos períodos da vida de uma pessoa. O Jyotish avalia e mostra tanto a permanência como a mudança na vida. Enquanto que uma avaliação mais estática revela todo o potencial do mapa, uma avaliação dinâmica mostra quando esse potencial se irá desenvolver.

    O Jyotish utiliza várias técnicas de previsão que auxiliarão o astrólogo na determinação dos períodos mais prováveis para a manifestação dos karmas de um indivíduo. Uma dessas técnicas tem o nome de daśā ou período planetário. É sobre ela que falaremos hoje.

    A palavra daśā significa estado ou condição de vida, indicando as condições das experiências na vida de um indivíduo e a cronologia das mesmas.

    Algumas das daśās mais utilizadas são a Kālacakra daśā, a Yogiṇī daśā, a Ashtottari daśā e a Vimshottari daśa.

    A daśā mais utilizada na Índia, pela sua precisão e simplicidade de cálculo é a Vimshottari daśa, também conhecida como Nakṣatra daśā ou Udu daśā.

    Vimshottari daśa

    Vimshottari daśa é igualmente conhecida como Nakṣatra daśā, pois o ponto inicial dos vários períodos planetários é a nakṣatra da lua, ou seja, a janma nakṣatra ou “estrela de nascimento” correspondente à posição da lua no mapa no momento do nascimento. Na próxima edição focarei no tema das nakṣatras. Cada nakṣatra tem um planeta regente e a cada um desses regentes é atribuído um período de regência entre 6 e 20 anos.

    Vimshottari significa literalmente 120, logo um ciclo inteiro que abarca todos os regentes, duraria cerca de 120 anos, embora seja muito difícil alguém viver todos os períodos planetários.

    O início dos períodos variará de indivíduo para indivíduo, de acordo com a sua janma nakṣatra, a partir da qual todo o cálculo é efetuado.

    Cada período pode ser dividido no período principal, denominado de mahādaśa e no período secundário (uma divisão do principal), denominado de bukti ou antardaśa. Existem outros subperíodos, subdivisões, mas nem sempre a sua precisão é 100% fiável, pois é necessária uma exatidão muito grande no horário de nascimento.

     Assim, teremos um regente principal e um co-regente. O planeta da mahādaśa, o regente principal, confere a tonalidade para aquele período específico e o regente da antardaśa, o co-regente, irá trazer nuances a esse período. Os efeitos dos grahas (planetas) no mapa natal, irão manifestar-se principalmente durante os seus períodos de ativação. Estes períodos, daśas, vão trazer à tona todos os significados desses planetas no mapa natal. A qualidade da manifestação irá depender da natureza funcional benéfica ou maléfica dos grahas envolvidos. As daśas mais favoráveis serão aquelas em que os planetas regentes têm qualidades, força e boas configurações no mapa natal, tal como foi pormenorizado para cada graha, nas edições anteriores. Caso contrário, os efeitos nesses períodos serão mais desfavoráveis.

    Normalmente são mais impactantes os períodos iniciais e finais de cada daśa e antardaśa, pois são considerados momentos de transição, logo mais delicados.

    A duração de cada ciclo de Mahādaśa de cada planeta é a seguinte:

    Chandra (Lua): 10 anos; Maṅgala (Marte): 7 anos; Rahu: 18 anos; Guru (Júpiter): 16 anos; Śani (Saturno): 19 anos; Budha (Mercúrio): 17 anos; Ketu: 7 anos; Śukra (Vénus): 20 anos; Sūrya (Sol): 6 anos.

    Relembro que todos os indivíduos iniciam as suas vidas em períodos distintos (conforme referido anteriormente) e que não irão vivenciar todos os períodos.

    Uma boa análise do mapa será muito importante para entender os desafios, obstáculos e oportunidades que cada período trará para a vida de um indivíduo. Esta análise está sempre afeta ao mapa natal, pois é com base nele que podemos averiguar da qualidade de manifestação de cada graha.

    No fim, está sempre tudo no tempo e lugar certos, para que cada indivíduo possa experienciar tudo aquilo que faz parte do seu caminho! O autoconhecimento é, sem dúvida, a pérola que, residindo dentro de cada um, contribuirá para uma viagem da vida mais consciente e plena, mais feliz!

    Hari Om

    Maria João Coelho

    Imagem – fonte: https://www.ayurvedicayoga.com/

    Contactos:

    saraswativalongo@gmail.com

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  • 10 Dicas Importantes Para o Bem-Estar Psicológico

    O percurso de qualquer pessoa é muitas vezes assolado pelas tempestades karmicas que trazem inesperadamente eventos e situações de vida catastroficamente avassaladores. Há períodos onde essas intempéries são mais frequentes e intensas e há períodos onde a bonança predomina e a vida é um alternar entre estes dois.

    Ser objetivo e maduro implica viver com o entendimento claro de que a dualidade experiencial é um facto acerca das nossas vidas do qual ninguém escapará. Esta objetividade madura é assente na compreensão de que o escapismo não é, nunca foi, nem nunca será uma solução; no máximo, se é que pode ser usado – e raras vezes – é um adiamento do inevitável, talvez necessário para se poder obter algum tempo de resposta a uma situação que ainda não a tem, para depois, ser seguido da apropriada resolução.

    Tenho visto intimamente no acompanhamento de muitos alunos que um dos desafios maiores, para talvez 80% deles, é o bem-estar psicológico. Assim sendo, pensei em deixar aqui 10 dicas simples e importantes para que cada um possa trabalhar conscientemente para o seu bem-estar psicológico e se torne o principal protagonista desse seu dever individual, sobre o qual, ninguém – mesmo ninguém – tem autoridade ou jurisdição. Por outras palavras, somente o leitor – você – e mais ninguém, pode e deve zelar pela criação do seu bem-estar psicológico e, se não o fizer, não tem direito de culpar ninguém pela sua negligência ou apatia, porque, realmente, ninguém tem culpa daquilo que você não valoriza e aprimora.

    Seguem então 10 dicas para que possa começar a CRIAR o seu Bem-Estar Psicológico:

    1 – Aprenda a dizer Não quando é preciso: quem diz sim a tudo, eventualmente, nega-se a si mesmo. Esta auto-negação resulta em frustração, raiva, depressão, etc.

    2 – Faça OBRIGATORIAMENTE uma atividade física pelo menos 5 dias por semana. Pode ser caminhar, correr, andar de bicicleta, ou outra atividade fitness. Se for em grupo pode ser ainda mais benéfico. A ciência médica aconselha o exercício físico regular e moderado para todos, ajustado, obviamente à idade de cada um.

    3 – Pratique Yoga duas vezes por semana. Pode alternar o Yoga com os dias do exercício físico. O Yoga ajuda-o a conectar-se com a sua intimidade num ambiente equilibrado que é o da sala de aula. Vai aprender muito sobre o seu corpo, a sua respiração, as suas emoções e a sua mente.

    4 – Pratique Meditação TODOS OS DIAS. Comece por cinco minutos diários e depois vá aumentando gradualmente para 10, 20, até chegar aos 45 minutos diários se o seu tempo permitir. A ciência já descobriu que as pessoas que meditam regularmente são mais felizes e têm mais qualidade de vida interior.

    5 – Faça algum tipo de voluntariado ou atividade onde deliberadamente ajuda o próximo sem esperar nada em troca. Descubra a intensa riqueza interna que é ajudar os outros.

    6 – Recorde-se de uma atividade que o fazia feliz em criança ou jovem e recomece a fazê-la. Pode ser cantar, dançar, pintar, tocar um instrumento, jogar futebol, etc. Pelo menos uma vez por semana faça 30 minutos a 1h dessa atividade. Irá com certeza reconectar-se com a força da sua criança interior.

    7 – Estabeleça pequenas metas diárias na expressão da gratidão e do amor. Estabeleça, por exemplo, que vai expressar a sua gratidão e o seu amor duas vezes de manhã e duas vezes de tarde à sua esposa, à sua mãe, aos seus filhos, etc. Sinta-se criança de novo nessa expressão dos sentimentos nobres.

    8 – Alimente-se conscientemente para que possa estabelecer-se no peso adequado à sua altura.

    9 – Em vez de passar tempo nas redes sociais, leia um bom livro, veja um bom filme, dê bons passeios na natureza.

    10 – CHEGA DE DESCULPAS. Se ao ler as 9 dicas anteriores a sua mente colocou objeções e desculpas, então repita para si mesmo: CHEGA DE DESCULPAS e comece a trabalhar para criar o seu bem-estar.

    Para a maior parte das pessoas, quer estudem Vedānta ou não, as dicas aqui apresentadas vão trazer imenso benefício se seguidas diligentemente. Só há uma forma de saberes se resultam ou não – é seguindo-as.

    21, Novembro 2022

    Paulo Abreu Vieira

  • भगवद्गितायाः व्याकरणम् – Análise gramatical da Bhagavadgītā – 18

    Símbolos usados na análise gramatical:

    √ –  raíz verbal; ⊘ –  indeclinável; m – género masculino; f – género feminino; n – género neutro; I/1 – primeira pessoa singular; II/1 – segunda pessoa singular (a numeração romana indica a pessoa, a numeração indo-arábica indica o número, que pode ser singular, dual ou plural; 1/1 – 1º caso singular; 1/2 –  1º  caso dual; 1/3 – 1º  caso plural; 2/1 – 2º  caso singular (existem oito casos, vibhaktis, no total; 7/1 – sétimo caso singular; P – parasmaipadī; Ā – ātmanepadī; U – ubhayapadī; VA – voz ativa (kartari prayoga); VP – voz passiva.

    अथ व्यवस्थितान्दृष्ट्वा धार्तराष्ट्रान् कपिध्वजः ।

    प्रवृत्ते शस्त्रसम्पाते धनुरुद्यम्य पाण्डवः ॥ १.२० ॥

    हृषीकेशं तदा वाक्यमिदमाह महीपते ।

    पदच्छेदो (सन्धिच्छेदः) विभक्तिपरिच्छेदः पदार्थो व्युत्पत्तिश्च

    अथ Ø – então, depois; व्यवस्थितान् 2/3m, वि-अव-1P√स्था + क्त – em formação (prontos para lutar) (adjetivo de धार्तराष्ट्रान्); दृष्ट्वा Ø √दृ + क्त्वा – tendo visto, avistando, vendo; धार्तराष्ट्रान् 2/3m – os filhos de Dhṛtarāṣṭra (धृतराष्ट्रस्य पुत्रान्); कपिध्वजः 1/1m – aquele que tem Hanumān na bandeira (कपिः हनुमान् ध्वजे यस्य अर्जुनस्य सः आर्जुनः); प्रवृत्ते 7/1m प्र1A√वृत्+क्त – no começo, na iminência do começo (adjetivo para शस्त्रसम्पते, सति सप्तमि); शस्त्रसम्पाते 7/1m – no encontro, na colisão das armas; धनुः 2/1n – o arco; उद्यम्य Ø उत् 1P√यम् + ल्यप् – tendo pegado; पाण्डवः 1/1m – o filho de Pāṇḍu (Arjuna); हृषीकेशं 2/1m – Hṛṣīkeśa (Senhor Kṛṣṇa) (o mestre dos órgãos dos sentidos, हृषीकानां इन्द्रियाणां ईषः हृषीकेशः); तदा Ø – depois; वाक्यम् 2/1n – discurso, frase, palavras; इदम् 2/1n सर्वनाम् इदं शब्दः) – este; आह III/1, 2P√ब्रू, लट्, forma opcional para ब्रवीति; – diz (disse); महीपते 8/1m – ó senhor da terra, ó governante da terra (Dhṛtarāṣṭra).

    अन्वयः

    हे महीपते, अथ प्रवृत्ते शस्त्रसम्पाते कपिध्वजः पाण्डवः व्यवस्थितान् धार्तराष्ट्रान् दृष्ट्वा धनुः उद्यम्य तदा हृषीकेशं इदं वाक्यम् आह ॥

    अनुवादः

    Tradução:

    V.1.20 e 1.21 – Ó senhor (governante) da terra (Dhṛtarāṣṭra), então, na iminência do começo do desferir das armas, o filho de Pāṇḍu (Arjuna), aquele que tem Hanumān na sua bandeira, tendo visto os filhos de Dhṛtarāṣṭra em formação (e prontos para lutar), depois de ter pegado no seu arco, disse a Hṛṣīkeśa (Senhor Kṛṣṇa, mestre dos órgãos dos sentidos), as seguintes palavras.

  • आयुर्वेद – Āyurveda- A mente e o Ayurveda. Parte 1

    “Embora todos nós tenhamos mentes e as usemos constantemente, não sabemos o que realmente é nossa mente. Estamos tão envolvidos nas atividades da mente que não paramos para descobrir o que a própria mente realmente é. Sem conhecer a natureza da mente e suas funções, como podemos realmente abordá-la? O problema é que, para conhecer a mente, devemos primeiro conhecer a nós mesmos. Devemos entender quem realmente somos.”

    David Frawley

    O objecto de estudo do āyurveda é a vida humana. Dentro deste conceito de vida existem 4 aspectos que são levados em consideração, o corpo físico, os sentidos, a mente e ātma.

    Então já que não é possível falar em saúde plena sem falar de saúde mental, hoje vamos explorar um pouco as perspectivas ayuvédicas sobre mente.

    A mente, é chamada antaḥkaraṇa, ou a “consciência interior”. Toda a criação se baseia e se manifesta através da mente e esta é responsável pela nossa percepção do mundo externo. A mente pode ser vista então como a causa do conhecimento.

    De acordo com os textos clássicos do āyurveda, aquilo que é responsável pelo acto de contemplar e pensar é conhecido como manasa ou mente.

    A mente apresenta as seguintes características:

    É singular

    A qualquer momento a mente pode ser associada a um único orgão do sentido e recebe informação desse orgão. Porque é tremendamente rápida pode parecer que se consegue associar a mais do que um sentido ao mesmo tempo mas na verdade só no conseguimos focar numa percepção de cada vez

    É subtil

    É considerada uma partícula subtil na natureza. Pode assumir qualquer forma ou tamanho. Conseguimos pensar num átomo ou num planeta e a mente consegue viajar e permear ambos.

    É activa mas sem consciência própria

    A mente executa as suas funções mas não actua por si própria, ela é inspirada pelo ātma

    Está além de percepções sensoriais

    É a causa do conhecimento externo e percepções internas, consegue perceber os objectos dos sentidos e controla todos os sentidos do corpo.

    É responsável pelas acções dos orgão dos sentidos

    Os órgãos dos sentidos só são capazes de perceber objetos quando estes estão associados à mente.

    É tridimensional

    Tem 3 qualidades, sattva, rajas e tamas

    É dito que manasa tem seis “objectos

    – pensamento – acerca do que pode ou não ser feito

    – análise ou consideração

    – raciocínio ou especulação

    – concentração ou meditação

    – determinação ou intenção definitiva

    – tudo o resto que pode ser conhecido por manasa – por exemploprazer ou dor

    Algumas funções de manasa

    – controle dos sentidos

    – auto controle

    – criar hipóteses

    – ponderar

    Desta forma āyurveda considera que uma pessoa é mentalmente saudável se

    – tem o seu intelecto, resiliência e memória intactos

    – consegue discriminar entre o certo e o errado, o saudável e o insalubre

    – tem controle apropriado sobre si mesmo e os seus sentidos

    – tem o poder dos 6 objectos (referidos acima)

    No próximo artigo vamos explorar de uma maneira mais prática, um pouco sobre saúde mental de acordo com o āyurveda

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de āyurveda

    www.instagram.com/wayofāyurveda_pt

    +351 925380997

  • Relações e Ralações

    Todos os seres humanos se casam com a esperança de encontrarem a felicidade, porque essa é a experiência da paixão. A paixão mútua, a paixão correspondida, que que ambos sentem um pelo outro, produz um senso união, de pertença, um senso de união, um senso de que acolhimento, de que se é amado. Este senso é tão, tão grande, que é mais importante que a própria mãe. Por isso somente, a pessoa sai das “saias da mãe” e vai casar, e vai fazer uma vida a dois com outra pessoa, na esperança que vá produzir a felicidade última de todas as coisas, a completude da união apaixonada.

    Porém, acontece que a pessoa começa a relacionar-se intimamente e a relação íntima naturalmente causa uma fricção, causa um atrito natural, como quando duas coisas se encostam e roçam uma a outra. Este atrito vai ser tão maior quanto maiores quanto maiores for as questões emocionais que já vem de trás, quanto mais e mais intensos forem os traumas.

    Contudo, a pessoa parte para um relacionamento amoroso, que pode ser um casamento ou um namoro, totalmente esperançosa de encontrar a felicidade, a eterna paixão, o senso de união, de acolhimento, de pertença e de ser incondicionalmente amada, o que não acontece. No início até acontece, mas depois naturalmente esvai-se. A pessoa espera em vão que a paixão se mantenha inalterada até ao fim da vida, tal e qual como nos filmes de Hollywood e em todos esses contos, porém, não acontece assim, porque uma relação não é um mar de rosas. Uma relação raramente ou nunca acontece vemos nesses filmes e contos. É que nem mesmo os atores de Hollywood que fazem esses papéis conseguem viver o sonho de Hollywood. Eles acabam por se separar, muitas vezes de forma triste e litigiosa.

    A fricção que vem ao de cima durante os relacionamentos por causa dos traumas emocionais já trazem e obviamente por causa das diferenças de personalidade, que têm que se ajustar para o relacionamento funcionar, fluir e ser saudável, é natural, é normal. Não existe relacionar-se sem fricção. O truque é minimizar as fricções pois assim minimizamos as ralações. Não transforme a sua relação numa ralação.

    As pessoas têm que fazer cedências, têm que aprender a fazer cedências de parte a parte, de modo a que os dois sintam que estão a ganhar. A pessoa eventualmente descobrirá que uma das coisas mais importantes da vida é o casamento e que este é um projeto comum a longo prazo, talvez o projeto mais a longo prazo que existe entre dois seres humanos, onde há filhos para educar, de forma a que estes possam dar o seu melhor ao mundo e se tornarem bons seres humanos e contribuírem para um mundo melhor.

    Então, não é só a mensagem genética que é passada geracionalmente, há também uma passagem de valores éticos, morais, culturais e familiares dos pais para os filhos, como é óbvio. Apesar do ideal ser este, ambos descobrem que o projeto casamento, a maior parte das vezes, não tem nada a ver com a união que sentiram durante a fase da paixão. O casamento pode começar por paixão, mas em si nada tem a ver com paixão.

    Apreciamos facilmente que em muitos casos, se não na maior parte deles, a relação a dois traz mais dor do que prazer. Se realmente a pessoa que está num relacionamento quer crescer, haverão inevitavelmente desafios desagradáveis e dolorosos, e não serão poucos. Pensar de outra forma é inocência.

    Apesar das muitas dificuldades inerentes à vida de casado, tem que haver momentos alegres e de prazer, pois senão é praticamente impossível manter a relação. Se o balanço entre os momentos bons e maus for muito negativo, obviamente a relação não tem pernas para andar. Na medida em que ambos, não interessa se são dois homens, ou duas mulheres, ou um homem e uma mulher, estão dispostos a crescer na relação e a encarar as suas dificuldades emocionais, que vêm de trás, como vimos, com a disposição e a intenção de se tolerarem e de aceitarem as dificuldades de cada um, nessa medida têm algo muito importante, que é um projeto de crescimento emocional comum, que não tem nada a ver com a inocente ideia ideal do relacionamento, que era: vamos ser eternamente felizes porque a paixão vai durar para sempre.

    Para a maior parte das pessoas que têm filhos a paixão dura até ao primeiro filho ou então abranda muito. Depois dos filhos tudo muda e muito. A mulher muda muito do ponto de vista hormonal e o homem também. Depois, a energia e a atenção deixam de estar centradas em cada um e são dirigidas para o filho. Porque dou o exemplo do casamento? Porque é uma das decisões e fases mais importantes da nossa vida e é, no fundo, uma decisão em que investimos muito emocionalmente, temporalmente, financeiramente, etc. O ser humano investe muito nas relações íntimas, seja o casamento, a união de facto ou um namoro, pois há a partilha de casa, há contas conjuntas, há a intimidade das famílias do companheiro ou companheira, etc.

    A intimidade é um investimento a longo prazo. A companheira diz-nos coisas que mais ninguém iria dizer porque se dissessem provavelmente nunca mais falaríamos com essa pessoa. Como é a companheira, ou companheiro, a dizer e muitas vezes tem razão no que diz, o outro ouve e isso precipita a mudança para melhor. Ela conhece a nossa intimidade, ela sabe os nossos calcanhares de Aquiles, e vice-versa, obviamente.

    Portanto, a decisão de viver com alguém é uma decisão muito importante e necessárias para a maior parte dos seres humanos. Que todos possam crescer emocionalmente e espiritualmente através da união amorosa.

    Paulo Abreu Vieira

    Outubro, 2022

    (Texto retirado de um dos cursos do Prof. Paulo)

  • ज्योतिष – JYOTIṢA –  Ketu

    Este mês, com Ketu, terminamos o tema dos navagraha (9 planetas), que nos acompanhou durante os últimos meses.

    Por ter muito em comum com Rahu, e porque muitos poderão não ter tido oportunidade de ler a edição da newsletter sobre Rahu, tudo o que é comum a ambos, inclusive a história mitológica que lhes está associada, volta a estar presente aqui neste texto, nesta parte inicial.

    Ketu e Rahu (este último foi abordado na última edição), são os chamados chāyā grahas, ou planetas sombra/invisíveis, pois não possuem corpo físico. Correspondem aos pontos astronómicos no céu chamados de nodo norte da Lua ou cabeça do dragão (Rahu) e nodo sul da Lua ou cauda do dragão (Ketu). Fazem parte do eixo kármico das nossas vidas – uma espécie de ligação invisível entre vidas passadas e os nossos dilemas psicológicos desta vida atual. Estes pontos, os nodos lunares, são os lugares de interseção entre a órbita da Lua e a órbita aparente do Sol – o caminho simbólico traçado pelo astro rei no decorrer do ano, tendo como ponto de referência a observação aqui da Terra.  Nos dois pontos em que as trajetórias lunar e solar se cruzam, são delimitados o Nodo Norte (Rahu) e o Nodo Sul (Ketu). Nestes pontos acontecem os chamados eclipses solar ou lunar. O eclipse Solar ocorre durante a Lua Nova, quando o Sol está em exato alinhamento com a Terra e a Lua está mais ou menos 18° distante dos Nodos; o eclipse Lunar acontece quando a Terra está em exato alinhamento entre a Lua Cheia e o Sol, e a Lua está mais ou menos 11° distante da posição nodal.

    Os Nodos são exatamente contrários, diametralmente opostos. Se o Nodo Norte está em Áries (Carneiro), por exemplo, o Nodo Sul estará em Libra (Balança), que é o signo oposto.

    São considerados inimigos do Sol e da Lua, pois no momento dos eclipses, eles escurecem o céu, tirando todo e qualquer brilho, luz e força a estes. Estes momentos de eclipse (grahaṇa), são bastante poderosos e transformadores, normalmente relacionados com mudanças, inícios e finais.

    Existe uma história da mitologia védica que está associada ao surgimento de Rahu e Ketu:

    “O Simbolismo do Oceano de Leite e o Néctar da Imortalidade”

    “Para descobrir o néctar da imortalidade, devas e asuras resolveram se juntar para bater o Oceano de leite. Pegaram uma montanha e colocaram no meio do oceano. Amarraram uma cobra no meio e cada um deles puxou de um lado fazendo a cobra como corda para que, assim, a montanha batesse o oceano de leite.  Começaram a bater e coisas lindas e maravilhosas surgiram desse oceano de leite. As coisas que foram surgindo e foram sendo divididas entre eles. Porém, antes de surgirem essas coisas lindas, surgiu um veneno. O veneno (halahalā) começou a se espalhar pela superfície do oceano e a matar todos os seres do oceano. Devas e asuras assustados, chamaram Shiva para resolver a situação. Ele resolveu tomar o veneno inteiro. Após ele tomar, Uma, apertou o seu pescoço que começou a ficar a azul (nīlakaṇṭha). Então eles continuaram a bater e bater.

    Finalmente conseguiram o Amrita, o néctar da imortalidade. Assim que apareceu esse Amrita, os asuras o roubaram e fugiram com o veneno. Os Devas então chamaram Vishnu para restaurar a harmonia. Vishnu transformou-se numa mulher linda, chamada Mohini e assim apareceu entre os asuras e todos ficaram surpresos e maravilhados e começaram a ouvi-la. Ela então sugeriu que poderia ela mesma distribuir o néctar. Atônitos com rara beleza, obviamente os asuras aceitaram a proposta e logo Mohini começou a distribuir o néctar entre todos, devas e asuras.

    O plano dele era distribuir entre os devas e quando chegasse a vez dos asuras ele diria que o acabou o néctar. Mas entre os asuras havia um espertinho que entrou na fila dos devas para receber o néctar. Então, quando a primeira gota caiu em sua boca, Vishnu se deu conta, mas a gota já havia caído. Ele jogou seu disco e cortou a cabeça do asura. Mas como o asura bebeu o néctar, ele já era imortal. Então a Cabeça foi para um lado e o corpo para o outro: estes são Rahu e Ketu. Cabeça do dragão e cauda do dragão, que estão presentes na astrologia védica.

    Detalhe, na hora que Mohini estava distribuindo o néctar, a lua e o sol estavam lá e se deram conta de que o asura não era deva e o denunciaram para Vishnu. O asura viu e ficou com raiva. E por isso eles, divididos, Rahu e Ketu, tiram o brilho do sol e da lua de vez em quando, causando os eclipses.”

    Retirado de www.vidadeyoga.com.br (Tales Nunes) (Texto baseado em aulas de Marília, do Centro de Estudos Vidya Mandir www.vidyamandir.org.br)

    Nos textos clássicos, Ketu é descrito da seguinte forma: “Os olhos de Ketu são avermelhados e a sua aparência é feroz. Sua língua é venenosa, o corpo elevado, ele porta armas e é um pária. O seu corpo é da cor do fumo, está sempre a fumar, tem marcas de feridas, é magro e brutal por natureza.”

    Ketu é a cauda da serpente, a outra metade da serpente e é um corpo sem cabeça. Enquanto Rahu é obsessivo com a vida material, Ketu procura a libertação. São opostos. Ketu consegue ver a essência de tudo, mas é insatisfeito com os aspetos materiais do mundo, buscando a renúncia e a transcendência. Enquanto que Rahu é muito ativo e extravagante, Ketu é passivo e introvertido. Devido à sua retração, constante insatisfação e com tendência para a dúvida, Ketu tem medo de avançar e então estagna.

    Dado à contemplação e ao recolhimento, Ketu é dotado de um controlo obsessivo, mas como lhe falta iniciativa, o seu descontentamento pode gerar efeitos muito negativos, principalmente na casa do mapa onde se situa, tal como quando ativado por trânsito a fazer algum aspeto importante no mapa natal (tal como Rahu), sobretudo se a pessoa não vivenciar a espiritualidade na sua vida.

    Outros nomes para Ketu são: Śikhi, Dhūma, Mṛtyuputra, Dhvaja.

    Em termos de associação com uma deidade, associa-se Ketu a Gaṇeśa.

    Outras caraterísticas de Ketu

    É do género feminino, de natureza vāta, krūra(cruel) e tamas (inércia, escuridão). Está associado ao elemento ar (vāyu) e engloba varṇas mistas. Está associado à cor de nevoeiro.

    Não rege nenhum rāśi (signo) e não se exalta nem se debilita em nenhum rāśi (embora existam correntes astrológicas que consideram que sim, eu sigo opiniões de astrólogos, com as quais concordo, que não consideram). É significador do bhāva 12, bhāva de mokṣa, pois é significador de temas como renúncia, libertação, transcendência.

    O seu movimento é bastante lento e retrógrado, transitando cerca de um rāśi (signo) a cada ano e meio.

     As melhores posições por casa (bhāvas) num mapa para Ketu são os bhāvas 3, 6, 10 e 11.

    Alguns dos seus principais significados são: mokṣa, renúncia, isolamento, experiências místicas, silêncio, contemplação, ilusão, sensibilidade, mudanças, dúvidas, enganos, práticas espirituais austeras, conhecimento oculto, intuição, desapego, qualidades obtidas numa vida anterior.

    Algumas caraterísticas positivas associadas a Ketu são: intuição, contemplação, compaixão, espiritualidade, desapego, introversão, capacidade de renúncia, autocontrolo.

    Algumas caraterísticas negativas associadas a Ketu são: ilusão, desequilíbrio, impulsão, fanatismo, extremismo, apatia, descontrolo, desmotivação, passividade, antissocial, falta de rumo.

    Ketu, tal como Rahu está associado às doenças de vāta, doenças do foro psicológico, loucura, doenças incuráveis e / ou de difícil diagnóstico, lepra, problemas com espíritos e fobias, medos, envenenamentos e picadas de animais como serpentes e escorpiões, assim como problemas de audição, da fala e infeções virais.

    Hari Om

    Maria João Coelho

    Imagem – fonte: https://www.gemstoneuniverse.com/

    Contactos:

    saraswativalongo@gmail.com

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  • Ricardo Barreto

    Testemunho dos Alunos – Ricardo Barreto

    Desde adolescente que sou fã da expressão “carpe diem”, mas é interessante como a interpretação do seu significado tem vindo a mudar para mim. Até ter encontrado yoga e āyurveda sempre vivi focado nos prazeres imediatos e dava pouca importância às possíveis repercussões das minhas ações.

    Não tendo sido muito dado à espiritualidade, com o yoga fui ganhando uma perspectiva diferente da realidade e “carpe diem” passou a ter outra dimensão, já não era só o prazer imediato, havia algo mais a ser explorado. Uns anos mais tarde, pelo āyurveda, fui ganhando consciência da responsabilidade que tenho sobre as diferentes áreas da minha vida e então, “carpe diem” ganhou uma vertente de qualitativa, já não é só aproveitar o dia mas sim aproveitar o dia de maneira a que o próximo tenha mais qualidade. Há uns anos encontrei vedanta e comecei a perceber que tudo o que tinha conhecido anteriormente, ainda que profundo, não estava enraizado.

    Já tinha ouvido falar do Professor Paulo mas o meu primeiro contacto directo com ele foi através de aulas de sânscrito. Ter conhecido o Professor foi despertando em mim o desejo de estudar Vedanta de forma estruturada. Comecei por fazer os cursos introdutórios e foi uma descoberta maravilhosa. Ter acesso a este conhecimento passado de forma tão profunda e articulada é uma experiência transformadora. Comecei agora mesmo o estudo da Bhagavadgītā e estou super entusiasmado para aprofundar o meu conhecimento.

    Tem sido uma benção poder estudar com um Professor Tradicional com a habilidade e agilidade necessárias para navegar as limitações dos alunos. A remoção de ignorância acerca de nós mesmos não é tarefa fácil, mas ter um alguém genuíno que nos leva pela mão por este processo é algo que não deve ser desperdiçado. O caminho é longo e a minha jornada ainda agora começou, mas tenho toda a confiança no Guia.

    Obrigado por me mostrar que não pode haver verdadeiro “carpe diem” sem o conhecimento do Eu.

    Parabéns a toda a equipa do Centro Āṛṣavidyā pelo trabalho fenomenal.

    Ricardo Barreto

  • आयुर्वेद – Āyurveda- Estilo de Vida Saudável

    Excepto em casos de maior gravidade, os maiores desafios relacionados com a nossa saúde e bem estar estão ligados às coisas que fazemos (ou não fazemos) diariamente. São estas acções que determinam como nos vamos sentir a curto, médio e longo prazo. Normalmente são coisas relativamente simples como dormir o suficiente, como nos alimentamos, como usamos o nosso corpo, quanta estimulação damos à nossa mente, etc.

    Hoje em dia somos bombardeados com mil e uma alternativas para atingir o bem estar pleno. Há sugestões para todos os gostos e feitios: do crudivorismo à dieta cetogénica, do crossfit ao tai chi, sono polifásico ao sono de 8 horas, das meditações dinâmicas ao yoga nidrā. E claro, todas as possibilidades entre estas hipóteses mencionadas e podemos adicionar também os extremismos….  é muita coisa.

    O āyurveda menciona 3 pilares de tratamento. āhāra (alimentação), vihāra (estilo de vida) e oṣadhi (medicamento)

    Em artigos passados já falámos de alimentação (1,2), falaremos de medicamentos no futuro, então hoje gostava de falar brevemente acerca de Estilo de Vida.

    Normalmente associamos alimentação e estilo de vida a intervenções fundamentalmente ligadas à prevenção mas na verdade, o primeiro passo num tratamento em āyurveda passa por remover a causa da doença.

    Por exemplo, se eu tenho refluxo por excesso de consumo de álcool, parar ou reduzir o consumo eliminará o refluxo. Se eu tenho insónias porque bebo café, parar de beber café dar-me-á um sono descansado. A lógica é simples mas criámos uma mentalidade que nos dá a liberdade para continuar a fazer o que queremos sem grandes repercussões a curto prazo, onde solução prática e imediata passa por tomar um antiácido e continuar o consumo excessivo de álcool e um comprimido para dormir para continuar com o consumo de cafeína. E não uma questão de demonizar o álcool ou o café mas se o corpo dá sinais de incompatibilidade eventualmente a médio e longo prazo complicações irão surgir.

    A verdade é que, em muitos casos, se os desequilíbrios não forem crónicos ou bem enraizados, alterações na alimentação e estilo de vida são suficientes para reverter a situação.

    Quando falamos de estilo de vida estamos a falar das actividades que suportam o bem estar e o equilíbrio.

    Neste campo, as recomendações normalmente assentam em:

    • exercício físico 
    • sono e descanso
    • rotinas diárias, rotinas sazonais
    • saúde mental e emocional
    • autoconhecimento

    Em āyurveda dá-se extrema importância à individualidade portanto estas recomendações devem ser adaptadas de forma individual mas gostaria de deixar aqui alguns pontos básicos que podem servir, de forma geral, como um guia diário.

    • deitar cedo e cedo erguer
    • actividade contemplativa
    • actividade física (idealmente até suar)
    • seguir recomendações de alimentação (1,2)
    • não suprimir nem forçar os impulsos naturais (fezes, gases, urina, sono, etc)
    • não usar demasiado os sentidos (demasiada exposição a aparelhos electrónicos, música, etc)
    • parar actividades físicas, verbais e mentais antes de chegar ao ponto de exaustão
    • praticar compaixão com todos os seres vivos
    • ter discriminação acerca do potencial resultado das acções e agir de acordo

    Agora restam as perguntas: Como se quer sentir amanhã? Que passos poderia começar a dar hoje para garantir que isso aconteça?

    Ricardo Barreto

    Terapeuta de āyurveda

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  • भगवद्गितायाः व्याकरणम् – Análise gramatical da Bhagavadgītā – 17

    Símbolos usados na análise gramatical:

    √ –  raíz verbal; ⊘ –  indeclinável; m – género masculino; f – género feminino; n – género neutro; I/1 – primeira pessoa singular; II/1 – segunda pessoa singular (a numeração romana indica a pessoa, a numeração indo-arábica indica o número, que pode ser singular, dual ou plural; 1/1 – 1º caso singular; 1/2 –  1º  caso dual; 1/3 – 1º  caso plural; 2/1 – 2º  caso singular (existem oito casos, vibhaktis, no total; 7/1 – sétimo caso singular; P – parasmaipadī; Ā – ātmanepadī; U – ubhayapadī; VA – voz ativa (kartari prayoga); VP – voz passiva.

    स घोषो धार्तराष्ट्राणां हृदयानि व्यदारयत् ।

    नभश्च पृथिवीं चैव तुमुलो व्यनुनादयन् ॥ १.१९ ॥

    पदच्छेदो (सन्धिच्छेदः) विभक्तिपरिच्छेदः पदार्थो व्युत्पत्तिश्च

    सः 1/1m (सर्वनाम तत् शब्दः) – aquele; घोषः1/1m – barulho, som; धार्तराष्ट्राणां 6/3 –  dos filhos de Dhṛtarāṣṭra (धर्थराष्ट्राणां अपत्यं इति धार्तराष्ट्रः, तेषां धार्तराष्ट्राणाम्); व्यदारयत् III/1 वि1P√दॄ, णिजन्त, लङ् लकार, कर्तरि;  नभः 2/1n (नभस् शब्दः) – o céu;  च Ø – e;  पृथिवीं 2/1f – a terra; च Ø e – एव Ø – de facto; तुमुलः 1/1m – estrondoso (adjetivo para som); व्यनुनादयन् 1/1m वि-अनु-10P√नद् शत्रान्तः – ecoando, ressoando alto.

    अन्वयः

    स तुमुलः घोषो नभः च पृथिवीं च एव व्यनुनादयन्, धार्तराष्ट्राणां हृदयानि व्यदारयत् ।

    अनुवादः

    V.1.19 – Aquele som estrondoso, ressoando alto, de facto, no céu e na terra, despedaçou os corações dos filhos de Dhṛtarāṣṭra.