Guru-śiṣya-sambandhaḥ

A Relação entre o Professor e o Aluno

A nossa vida é feita de vários tipos de relações, sem as quais não seria possível viver uma vida normal e equilibrada, porque muito do equilíbrio e força individual advém precisamente do equilíbrio e força ganhos nas relações. A todo o momento nos relacionamos com algo, seja com uma pessoa, com um animal, com uma planta, com um facto, com uma situação ou com um objeto. Quando a pessoa não se relaciona com o mundo externo, é porque, nesse momento, provavelmente está a relacionar-se com o mundo interno. Não podemos abrir mão desta joia de crescimento que são os relacionamentos.

Relações interpessoais


Existem muitos tipos de relações interpessoais. Temos relações interpessoais de sangue ou familiares, românticas ou afetivas, profissionais, amigáveis e também, podemos dizer, neutras, nas quais não há nenhum investimento emocional ou afetivo. Se alguém nos perguntar as horas na rua, há obviamente uma relação interpessoal, contudo é neutra, porque não há um investimento afetivo.


De entre as relações interpessoais, a primeira relação de um ser humano é a relação com a sua mãe. Esta é uma relação tremendamente importante, não só porque um ser humano vive 9 meses dentro de outro, mas porque, será dependente dele por bastantes anos. Um filho literalmente habita no ventre da mãe, absorvendo umbilicalmente todos os nutrientes e oxigénio que precisa. Se não fosse assim não sobreviria. A natureza é incrivelmente magnífica e sábia.

Depois do parto, que é a verdadeira chegada do bebé ao mundo, o cordão umbilical é cortado. Os dois, mãe e filho, são separados fisicamente, porém, continuam juntos pelo milagroso amor de mãe. Temos então um bebé totalmente indefeso e incapaz de sobreviver sozinho, que se completa com uma mãe totalmente pronta, equipada e preparada para defender e nutrir a sua cria. Nessa altura, após o nascimento, apesar do bebé só ter ouvido a voz do pai enquanto ainda estava dentro do ventre da mãe, ele conhece-o fisicamente, sentindo agora uma energia diferente, a energia paterna, da qual também ele é feito. Então, em condições normais, a relação com o pai é a segunda relação. Juntos, pai e mãe, são tudo o que o bebé tem.


A terceira relação que o bebé conhece é a relação entre o pai e a mãe. Ele absorverá tudo o que conseguir dessa relação. Todo o amor trocado entre eles será sentido pela criança. É claro que, mesmo durante a gravidez o bebé já foi tendo conhecimento da relação entre o pai e a mãe, porque os ouvia e sentia, contudo, como ainda não estava separado fisicamente da mãe, como ainda era parte da mãe, era diferente. Ainda assim, todo o amor e também o desamor que o casal experimenta durante a gravidez vai sendo registado e absorvido pelo bebé. Como todos bem sabemos, é importante que o pai e a mãe desenvolvam entre ambos uma relação honesta, amorosa, amigável e de companheirismo para que o bebé a assimile desde muito cedo.


Obviamente, depois, na medida em que vai crescendo e desenvolvendo-se, o bebé que se transformará em criança, conhecerá os seus familiares, os amigos dos pais e fará muitas amizades com as quais terá oportunidade de brincar e aprender a relacionar-se. Eventualmente terminará os seus estudos e, eventualmente, descobrirá também qual o seu talento e contributo para o mundo, usando-o para prosperar financeiramente. Depois, bem mais tarde, caso deseje, independentemente da sua orientação sexual, poderá ter um parceiro ou parceira com quem poderá ter um bebé, seja ele biológico o adotado. Este é o ciclo – nascer, crescer, estudar, trabalhar para prosperar financeiramente, constituir família, aposentadoria e morrer.


Algumas pessoas descobrem que este ciclo, apesar de ser normal, é incompleto. Falta algo a este ciclo, porque a vida não pode ser simplesmente isto. Não faz sentido trabalhar toda uma vida para depois morrer e deixar tudo para trás. Se supusermos que este ciclo é completo então temos que admitir que ele é sem significado, simplesmente pelo facto de que as pessoas não se sentem realizadas, mesmo tendo realizado com sucesso todos os passos do ciclo. Se o ciclo fosse completo, então as pessoas, tendo-o terminado deveriam sentir-se completas e realizadas. Esse não é definitivamente o caso!

A pergunta é: O que falta a este ciclo? O que completa este ciclo?


Este ciclo é assente, do início ao final, em ignorância – a ignorância fundamental, a ignorância universal. Que ignorância é esta? É a ignorância da verdadeira natureza de si mesmo e de todas as coisas. É esta ignorância a causadora do senso de vazio, o sendo de inadequação, o senso de insuficiência, que acompanha a pessoa enquanto ela atravessa todas as etapas do ciclo, mas que apenas se começa a manifestar em criança quando o senso de individualidade fica formado, e que se torna inegavelmente visível na adolescência, perdurando para o resto da vida.


Ignorando a dimensão espiritual de si mesmo e consequentemente concluindo que tudo o que a pessoa é, é somente o complexo corpo-mente, naturalmente surge insuficiência, porque o corpo, a energia vital e a mente são insuficientes. Por outras palavas, há um senso de insuficiência centrado no corpo, por isso a pessoa pensa: “não sou suficientemente bonito”, ou, “não sou suficientemente alto”, etc. Há um senso de insuficiência centrado na energia vital, e há também um senso de insuficiência centrado na mente. Este senso de insuficiência é transversal e condena a pessoa a desejar ser mais, ser mais em termos de corpo, ser mais em termos de energia e ser mais em termos de mente. Então, é esta insuficiência vestida de desejo que empurra e motiva ferozmente as pessoas para agir, agir para serem mais, agir para serem diferentes, agir para serem melhores.

Há um problema radical neste ciclo incompleto, simplesmente pela razão de que não é resolvido com a ação. Por mais que a pessoa aja, continuará a sentir-se insuficiente, continuando a desejar mais e mais. Assim é porque a ação não remove o senso de insuficiência, nem remove a ignorância que o causa. Este é o feitiço da vida que aprisiona a pessoas a um ciclo intrinsecamente incapaz de as satisfazer e realizar.

Como acabar com o feitiço? Há que recorrer à magia, há que recorrer a um mago. O mago é chamado guru, mestre ou professor. Guru é a pessoa que remove a escuridão A sílaba “gu” representa a escuridão e a sílaba “ru” representa o removedor. Qual é o feitiço? É a ignorância. Qual é o antídoto? É a poção mágica chamada conhecimento que desenfeitiça a pessoa, que a faz sair da falsa fantasia. Qual é a falsa fantasia? É a pessoa acreditar que é somente o corpo-mente e que não existe uma dimensão mais profunda em si. Sem receber a poção mágica do conhecimento, ninguém conseguirá por si mesmo livrar-se do feitiço, porque o feitiço é a própria vida que é tida como real na qual a pessoa vive.


Fica claro, agora, que esta última relação é muito, muito importante. Todas as relações são importantes, mas três são as que se destacam: a relação com a mãe, com o pai e com o mestre. A relação com o mestre é a mais peculiar destas três, porque, apesar de, geralmente, não ser uma relação familiar ou de sangue, encontramos no mestre uma figura tanto paternal e maternal. O mestre é simultaneamente o pai e a mãe espiritual, e o aluno é o bebé espiritual.
Esta não é uma relação de troca, simplesmente porque o mestre não recebe nada. Quem recebe é somente o aluno. Recebe o conhecimento de si mesmo, que é a poção mágica que o desenfeitiça.

Esta relação é destinada a isso mesmo e a nada mais – remover a ignorância que o bebé espiritual tem para que fique livre do saṁsāra, para que fique livre do sofrimento que é a constante insuficiência sentida durante a vida. Se a mãe e o pai trazem a criança ao mundo, ao saṁsāra, é o guru e mais ninguém que a retira do saṁsāra, e, por vezes, retirando também o seu pai e a sua mãe.
Imaginem alguém que caiu em areias movediças. Quando mais essa pessoa se mexe, mais ela se afunda. Sozinha não conseguirá sair e morrerá a tentar. É uma aflição, é um sofrimento O saṁsāra é isto mesmo!

As pessoas estão nas areias movediças da vida, sofrendo da insuficiência, do vazio, do senso de inadequação, causados pela ignorância, esperando em vão, que, sozinhas e através da ação, consigam se soltar e ficar livres.

Mas isso nunca chega a acontecer. Quanto mais agem, mais se fundam nas areias movediças da vida. Repare no seguinte, que é muito importante: os que pensam que casar é a solução, geralmente desiludem-se e acabam divorciados, porque casar vai com certeza revelar o senso de insuficiência enquanto marido ou mulher; os que pensam que ter filhos é a solução, esses certamente se desiludem e muito rapidamente entenderão a quantidade de insuficiência e inadequação que está centrada em ser pai e mãe e toda a culpa inerente à parentalidade; os que pensam que a profissão é a solução, na aposentadoria claramente entenderão que não é. Quanto mais agem, mais se afundam. Merece ser contemplado este facto.


Como sair das areias movediças? Primeiro é necessário compreender que sozinho não será possível. Depois, é necessário pedir ajuda, é necessário gritar bem alto para que alguém ouça e venha ajudar. Depois, é necessário confiar que essa pessoa que vem ajudar e que está livre das areias movediças nos consiga ajudar. Finalmente, é necessário colaborar com a ajuda que nos está a ser dada.


Que troca existe entre a pessoa que salva outra das areias movediças?

Nenhuma. Uma salva a vida à outra e a outra ficará eternamente agradecida por ter sido tirada de lá. O guru é a pessoa que está na terra firme do conhecimento, livre, e que possui a capacidade e as ferramentas necessárias para ajudar outra a sair das areias movediças do saṁsāra. Para isso a pessoa tem que pedir ajuda, tem que pedir para ser ensinada. Este pedido resulta da compreensão de que sozinha não consegue resolver o problema. Então, tem que haver total confiança no guru, assim como tem que haver total confiança da pessoa que está a afundar-se em areias movediças na pessoa que a irá tirar de lá. Enquanto isto não for percebido, não há verdadeiramente uma relação entre o aluno e o mestre.

Saṁbandha significa relação. Neste caso a relação é algo que prende duas pessoas, o guru, mestre, e o śiṣya, aluno, a um propósito – a remoção do feitiço chamado ignorância. Este propósito maior, a liberdade, é o que junta ambos. Podemos dizer que é uma conspiração cósmica porque é um evento único e muito especial.


Śiṣya é uma palavra muito significativa, pois significa śikṣaṇīyaḥ, aquele que é para ser ensinado, aquele que merece ser ensinado. Isso significa que o aluno deverá reunir ou fazer por reunir tudo aquilo que o ajudará a colaborar com o trabalho do professor. O trabalho do professor é ensinar e transmitir o conhecimento para a mente do aluno. Então, torna-se óbvio que a colaboração do aluno é em desenvolver as qualidades mentais necessárias para poder aprender o melhor possível. Aqui não estamos somente a falar de qualidades cognitivas, como a atenção e o raciocínio. Estamos também a falar de inteligência emocional, a capacidade de lidar saudavelmente com as emoções. Tudo isso é esperado do aluno, tudo isso é a sua colaboração com o professor e com o ensinamento. Quanto melhor for o crescimento em termos de maturidade, melhor é a colaboração do aluno.


Como invocar o professor na pessoa que desempenha o papel de professor?

O segredo é a humildade e a prontidão para a aprender e ajudar no que for preciso. A humildade do aluno invoca o professor. Se o aluno tem o ego grande e pretende enganar o professor fazendo de conta que já sabe, ou que sabe muito, o professor não ensina, porque é inútil ensinar quem já sabe, e mais inútil ainda é ensinar o ego que acha que já sabe. É fácil acordar quem dorme. Contudo, é impossível acordar quem está acordado ou quem finge que dorme. Quem está acordado não precisa que o acordem porque está acordado.

Quem finge que dorme não vai acordar, porque está a fingir. Similarmente, o aluno que acha que já sabe e vaidosamente o mostra, nunca despertará do sono da ignorância. A honestidade é um dos valores de qualquer relação. Não há vergonha nenhuma em não saber. Porém, há muita vergonha em revelar que fingiu que sabia, quando na realidade não sabia. Ser honesto é um requisito fundamental na relação professor-aluno. Se não houver honestidade, não há relação possível.


O professor é também invocado pelo respeito adequado, seguindo um determinado protocolo. O professor é amigável, mas isso não significa que seja amigo. Por isso, é bom ter sempre em mente que o professor é o professor e não o amigo de infância ou adolescência com quem se vai almoçar. O respeito protege o aluno, porque respeitando o professor, o próprio aluno é respeitado.


A honestidade, o respeito e a humildade e outras virtudes formam a estrutura que permite que o amor se manifeste. O aluno sentirá amor pelo professor e vice-versa. É este amor que torna a relação única. É um amor livre porque o propósito é a própria liberdade, na qual o aluno descobre que, essencialmente ele não é diferente do guru.

Paulo Abreu Vieira
Janeiro 2022

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