O yoga pós pandemia

Desde há milhares de anos que a tradição e ensino do yoga se tem feito de mestre a discípulo, num ambiente de partilha directa, dos ensinamentos e da relação que se estabelece entre ambos.
Esta relação vai para além da de professor aluno, pois baseia-se em confiança, amor, sinceridade, cuidado, e onde QUEM ensina tenta fazer com que AQUELE que aprende vá mais além que ele. O professor vê no aluno uma extensão dele mesmo e do divino, e conhece a responsabilidade de lhe passar tudo o que sabe, para um dia o aluno fazer o mesmo com outros, numa linha de sucessão, que deve ser mantida e preservada…
Em 2020 essa forma de relação mudou, pois o professor e o aluno foram separados por um ecrã, confinados, distantes, uma realidade de que ninguém estava à espera, digna de um filme de Hollywood… Agradecemos a evolução nos ter permitido manter as praticas de yoga on-line, o que abriu a possibilidade de chegar a mais alunos distantes, de outras cidades, e até outros países. No entanto a relação ficou frágil, pois não conhecemos tão bem quem está do outro lado, a receber, as condições de prática nem sempre são as melhores, nas nossas casas, com tantas distrações. Também para o aluno, que escolhia o seu professor, na sua área de residência, agora pode ter a oportunidade de praticar com outros professores de outros países, e muitas vezes usufruir de aula gratuitas.
Muita gente começou a fazer aulas através do Facebook e do Instagram, alinhando em desafios de posturas com pessoas cuja formação e cujo passado desconhecem, mas que têm muitos seguidores, e a fazer aulas apenas porque eram gratuitas, e não por serem verdadeiramente “boas”. O yoga passou a ser muito mais físico do que espiritual, acessível a todos, e por vezes, “des-sacralizado”. Muito mais pessoas estão agora a praticar um novo tipo yoga.
É claro que há vantagens e desvantagens, falta saber qual o impacto a médio prazo, agora com a re-abertura dos espaços de yoga, pelo menos dos que conseguiram sobreviver ao fecho, exigido pela situação de emergência.
É um assunto que preocupa a todos, professores até mais antigos, detentores da experiência da vida e da maturidade dada pelo tempo de prática de yoga, que não se souberam adaptar tão facilmente a esta revolução do yoga nas redes sociais e on-line, que têm agora a insegurança e a dificuldade em manter as suas escolas abertas…
Escrevo sobre este assunto pois é algo que me preocupa e sensibiliza, por também ter um espaço e por estar a sentir a necessidade de constantemente re-inventar soluções que agradem a todos, mas que ao mesmo tempo, seja mantida a visão, a seriedade do trabalho e a capacidade de prestar um bom serviço para a comunidade.
Nada substitui uma aula orientada por um professor ao vivo, que pode prestar a ajuda, a orientação, os ajustes, e estabelecer essa base de confiança fundamental, no guiar cada aluno no caminho da luz e do auto-conhecimento.
Deixo por isso a minha sugestão, a ti, que já fazias aulas de yoga com alguém, procura de novo o teu professor, a tua casa, a tua escola, a tua família. Se nunca passaste por uma escola de yoga, escolhe uma da tua área ou visita algumas, para sentires em qual te sentes em casa, e te identificas. O yoga on-line veio para ficar, mas garanto que não é a mesma coisa, sentares-te em frente a um professor, numa sala, um representante de Shiva, da tradição, e sentires na pele essa relação tão bonita e sincera, que se estabelece quando encontras a pessoa certa, para te orientar.
Boas práticas e Namaste!

Sónia Monteiro

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