O Segredo Por Detrás Das Boas Decisões

Viver implica escolher, simplesmente porque a vida é feita de escolhas sucessivas. A cada momento é esperado de mim uma escolha, uma decisão, que afetará inevitavelmente o meu futuro, para melhor ou para pior. O que nos une em todas as decisões que tomamos é o desejo por uma vida melhor, mais sábia, mais rica e mais realizada. Contudo, se olharmos para a vida de outras pessoas, ou mesmo para as nossas próprias vidas, reparamos que as nossas escolhas ou decisões nem sempre nos colocaram na melhor posição, ou na posição que realmente desejamos, e muitas vezes damos por nós arrependidos ou culpados, e consequentemente revoltados ou simplesmente tristes e desapontados porque tomamos uma má decisão.
Para algumas pessoas as más escolhas ou decisões são de tal forma abundantes que a vida delas é um autêntico drama repleto de sofrimento e arrependimento. Tais pessoas vêem-se constantemente presas num ciclo destrutivo, numa espiral descendente de más decisões que levam a mais más decisões, e que consequentemente as colocam em posições extremamente indesejáveis e muito perigosas. São exemplos assim as pessoas dadas ao crime.
Para outras pessoas parece haver uma predominância de boas escolhas, que levam a mais boas escolhas, permitindo-lhes disfrutar plenamente da vida em todas as suas áreas e usufruir do melhor que a vida tem para oferecer.
Porque é que algumas pessoas decidem mal e outras pessoas decidem bem? Existe algum fator que leve uns a decidir mal e outros a decidir bem?
Somos dotados da capacidade de sentir emoções, o que faz de nós seres emocionais, porém somos também dotados da capacidade de pensar racionalmente, por isso também somos seres racionais. Por vezes, direi mesmo muitas vezes, existe um conflito interno no momento de decidirmos. Como? Racionalmente sabemos o que é melhor para nós, porque muitas vezes isso é simplesmente óbvio e muito claro, contudo, emocionalmente somos empurrados para uma decisão contrária. Darei um exemplo que ilustra bem esta situação. O almoço está simplesmente uma delícia e você come com muito prazer. A certa altura, termina o que está no prato e sente-se plenamente satisfeito, o que indica que já não é necessário alimentar mais o corpo, pois o corpo já deu sinais de que a quantidade de comida foi suficiente. Porém, como a comida está tão deliciosa, o desejo por comer mais empurra-o para encher de novo o seu prato e repetir a dose. No final da refeição, em vez de se sentir satisfeito, você sente-se empanturrado, ligeiramente indisposto e também culpado ou arrependido. Situações como esta são muito comuns; sabemos aquilo que é certo e acabamos por fazer aquilo que é errado. Se você continuar a cometer o mesmo erro, portanto, se persistir em comer demasiado em todas as refeições, ganhará peso e provavelmente problemas de saúde relacionados com o aumento de peso, e isso você realmente não deseja.
Neste caso é o seu desejo ou amor à comida que se sobrepõe ao seu pensamento racional, e na linguagem técnica de Vedānta dizemos que foi uma decisão baseada em rāga, o desejo intenso de obter algo de que gostamos muito, e que causa algum tipo de sofrimento se não for realizado.
Por vezes a decisão não é motivada por rāga, mas sim por uma aversão. A palavra Sânscrita para aversão é dveṣa. A aversão é um desejo intenso de afastar ou de fugir de algo de que não gostamos, de algo que odiamos. E assim como um rāga, o desejo intenso de possuir algo, turva a racionalidade da mente, empurrando a pessoa para uma decisão que no fundo a pessoa não quer, também um dveṣa turva a mente. Como? Darei mais um exemplo. Suponha que é o aniversário de um familiar seu de quem você gosta muito. Haverá uma festa de aniversário para a qual foi convidado e quer muito ir, não apenas para felicitar o aniversariante, mas também porque irá encontrar lá pessoas queridas com as quais não tem um contacto regular, e assim poderá por a conversa em dia confraternizando com elas. Uns dias depois em conversa com outro familiar, você descobre que também vai a esse mesmo aniversário uma pessoa que você não tolera, porque a considera muito arrogante e de conduta imprópria, e que já foi indelicada consigo em aniversários anteriores várias vezes, simplesmente porque você é vegetariano e espiritual. Você reconhece que tem um dveṣa muito forte por esta pessoa, porque você se sente muito desconfortável na presença dela e tem emoções desagradáveis quando a vê, como ansiedade e irritação, que depois se convertem em tristeza quando você se encontra de novo sozinho depois do encontro. Faltam dois dias para o aniversário e você ainda não deu a resposta afirmativa ao convite porque está num dilema – ir, ou não ir. O lado racional apresenta-lhe a escolha certa: “é tão apropriado festejar o aniversário, rever antigos amigos, conviver e ser feliz com eles; eu também adoraria a presença dos meus familiares e amigos no meu aniversário”, porém o lado emocional conta outra história: “aquele fulano que eu detesto vai estar lá e tenho a certeza que se vai dirigir a mim propositadamente para me arreliar e envergonhar à frente de todas as pessoas, só porque sou vegetariano e espiritual; e eu sei que não vou conseguir agir calmamente impondo limites ao seu comportamento impróprio que já é habitual, e também sei que ficarei deprimido quando chegar a casa após rever meticulosamente na minha mente todos os detalhes da situação deplorável por que passei causa por aquela má pessoa; por isso “penso” que o melhor é não ir; direi que estou indisposto e que não poderei ir”.
Este é um dilema muito comum, cuja análise torna claro que a oportunidade de seguir o svadharma, o dever próprio, ou seja, fazer aquilo que deve ser feito, se pode perder quando a mente fica turva pelos dveṣas. Portanto, rāgas, desejos intensos, e dveṣas, aversões intensas, são um dos fatores que nos levam a tomar más decisões, aos quais temos que estar atentos, e para os quais o antídoto é Karmayoga, que foi o tópico do artigo anterior da Mukti.
Outro dos fatores para as más decisões é a falta de informação ou informação errada. Para tomarmos uma boa decisão é importante estarmos bem informados sobre as opções que temos, por isso informe-se devidamente antes de tomar uma decisão ou fazer uma escolha. Normalmente a falta de informação na tomada de uma decisão é devido à impulsividade, que é o impulso brusco e quase inevitável de tomar a decisão naquele preciso momento sem poder esperar e decidir mais tarde. Se tiver a opção de poder decidir mais tarde, sem que isso reduza significativamente as suas opções, então decida mais tarde, pois terá mais tempo para se informar.
Informe-se sempre com quem é da sua confiança, com quem sabe do assunto relacionado com a decisão, e, muito importante também, que seja uma pessoa neutra relativamente à decisão e ao resultado da decisão. A neutralidade do seu informador perante a sua decisão é importante, pois assim terá a certeza que os conselhos ou sugestões que lhe dará não serão motivados por um interesse pessoal que o seu informador poderá manter escondido de si, para tirar proveito próprio através da sua decisão.
Agora falar-lhe-ei um pouco de Viveka, um fator ou capacidade imprescindível para tomar boas decisões. Viveka é comumente traduzido como discernimento ou como discriminação. A palavra “viveka”[1] é composta pelo prefixo “vi”, pela raiz verbal “vic” (vicir), e pelo sufixo “ghañ”. O prefixo “vi” significa viśeṣeṇa, de forma especial ou abundante. A raiz verbal tem o significado de distinção, dividir, separar. O sufixo “ghañ”, confere o mero significado da ação indicada pela raiz. Esta foi a vyutpatti, a etimologia da palavra.
Agora, para entendermos mais sobre viveka, gostaria de partilhar com o leitor duas definições gerais da palavra em Sânscrito:
1 – परस्परव्यावृत्त्या वस्तुस्वरूपनिश्चयः इति विवेकः, viveka é vastu-svarūpa-niścayaḥ, a determinação acerca da verdade de um objeto, paraspara-vyāvṛttyā, através de separar um do outro.
Quando você faz um puzzle, você aplica este método, separando as peças pelas cores e pelos formatos.

2 – याथार्थ्येन वस्तुस्वरूपावधारणम् इति विवेकः, viveka é vastu-svarūpa-avadhāraṇam, a determinação da natureza ou verdade de um objeto, yāthārthyena, assim como realmente ele é.
Neste momento estamos a ter viveka sobre a palavra viveka, pois estamos a descobrir o que realmente significa viveka.

Ambas as definições são muito reveladoras. Através da primeira entendemos que viveka é o processo pelo qual podemos separar ou distinguir duas coisas quando estas estão misturadas. A segunda indica o conhecimento conclusivo acerca da natureza real de um dado objeto. Se juntarmos estas duas belas definições vemos que viveka é o processo de distinção ou separação de duas coisas quando estas se encontram separadas e é também o resultado na forma do conhecimento conclusivo acerca de ambas as coisas que foram separadas.
Este discernimento de que se fala aqui é a capacidade que você e todas as pessoas já têm e que precisa de ser treinada e devidamente desenvolvida para poder ajudar na tomada de boas decisões. Para isso, aprenda a separar a sua mente racional da mente emocional. Analise se está a pensar corretamente e verifique se as suas emoções estão a turvar o seu discernimento. Identifique essas emoções e diga a si mesmo que as emoções são válidas e fazem parte da sua mente emocional, e que você não está mais disposto a tomar decisões baseadas nos seu rāgas e dveṣas. Depois, aprenda a valorizar o pensamento correto, claro, objetivo e que é permeado pelo dharma.
Gostaria também de lhe dizer que uma das formas de aumentarmos o nosso poder de discriminação é a prece. A prece é um pedido a Īśvara por algo que queremos ver realizado. Peça a Īśvara pare ter mais Viveka e para que as suas escolhas sejam sempre um reflexo desse precioso discernimento.

Existem situações em que a escolha não é entre algo apropriado ou inapropriado, ou seja, não é entre o dharma e o adharma, nem tão pouco é influenciada por emoções que turvam a capacidade de decidir. Essas são situações em que a escolha ou decisão é entre algo que será melhor ou pior para si, mas que você no momento da decisão desconhece o resultado. Nesse caso, aprenda a centrar-se e a seguir a sua voz interior. Por detrás da mente racional esconde-se, por vezes, um saber intuitivo sobre a melhor decisão a tomar. Esta capacidade de tomar decisões com base na intuição, ou no instinto, apesar de ser arriscada, é seguida por muitas pessoas de forma não deliberada, como por exemplo, por homens de negócios, que confiam no seu “instinto” de negociador.

Estas foram algumas dicas para obtermos mais viveka no nosso dia a dia para assuntos práticos. Gostaria ainda de mencionar que Viveka é uma das qualificações que qualquer aluno de Vedānta precisa de desenvolver para ter sucesso no estudo, que passa por puruṣartha-niścaya, pelo discernimento do verdadeiro objetivo da vida, chamado mokṣa. Num artigo futuro falarei sobre Viveka no contexto de Vedānta, mas faço aqui convite a ler o meu livro Tattvabodha onde abordo o tema com algum detalhe.
[1] विवेकः → वि + 7U√विच् (विचिर्, पृथग्भावे) + घञ्

Paulo Vieira

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