Gurupūrṇimā

Hoje é um dia muito especial chamado o Dia do Guru. Neste dia, por toda a Índia, tradicionalmente, as pessoas realizam Guru-pūjā, o ritual reverencial para os seus Mestres. Este dia também é conhecido como Vyāsa-pūrṇimā, a Lua Cheia de Vyāsa, pois Veda Vyāsa nasceu na lua cheia (pūrṇimā) do mês Āṣāḍha (Junho-Julho).
Veda Vyāsa foi o compilador dos Vedas, o compositor dos Purāṇas, do Mahābhārata e dos Brahmasūtras. Ele, depois de Dakṣiṇāmūrti é o elo mais importante da nossa Tradição de Ensino, que se chama em Sânscrito Sampradāya, e que detém e protege o Conhecimento do Eu Ilimitado bem como método de o comunicar. Esta tradição é feita de pessoas que constituem guru-śiṣya-paramparā, a sucessão ininterrupta de mestres e alunos. Graças a esta sucessão ininterrupta, ainda hoje os Vedas são recitados como eram há 5000 anos atrás, o que é simplesmente incrível. Esta sucessão ou linhagem de mestres, que outrora foram discípulos, vai desde Śiva, a origem deste conhecimento, o Ādiguru, o primeiro Mestre (Dakṣiṇāmūrti), passando por Veda Vyāsa, por Ādi Śaṅkarācārya, chegando até aos meus Mestres.
Quando reverenciamos o nosso Guru não estamos, na verdade, a reverenciar uma pessoa, mas sim toda tradição da qual ele faz parte, da qual ele é ou foi um elemento significativo. Para além disso, reverenciamos também todo o esforço de preservação, proteção, enriquecimento e tapas de todos os Munis, Sábios, desta nossa linda Tradição de Ensino de Vedānta. E ainda, quando reverenciamos o Guru, estamos na verdade a reverenciar o intelecto dele, no qual brilha o conhecimento de Brahmātman, o Eu Ilimitado, que por sua vez também reverenciamos. Reverenciamos ainda o conhecimento de todas as práticas acessórias necessárias ao florescimento deste conhecimento que liberta, e que habita na mente do mestre, e que ele vai conferindo sempre que necessário aos seus alunos. E mais, reverenciamos também toda a estrutura que apoia as atividades do mestre, pois é graças a ela também que o conhecimento do Eu Ilimitado chega a tantas pessoas por esse mundo fora. Podemos agora entender melhor que a palavra Guru representa uma Instituição de Conhecimento Espiritual e não meramente uma pessoa. Assim sendo, este dia é a oportunidade genuína de mostrarmos a nossa gratidão e expressarmos o nosso carinho. Muitos, neste dia, viajam para visitarem o seu Guru, levando-lhe comida, fruta, flores, roupas, presentes, dinheiro, amor, e tudo o mais que considerem que o Guru possa precisar. Enquanto presenteiam o Guru, oferecem também o seu namaskāra, saudação reverencial, pedindo bênçãos e desejos de sucesso, prosperidade e abundância a todos os níveis.
O Sampradāya revela quatro tipos de bênçãos necessárias para o sucesso em qualquer coisa:1 – Ātma-anugraha, a bênção de si mesmo. 2 – Īśvara-anugraha, a bênção de Īśvara3 – Guru-anugraha, a bênção do Mestre.4 – Śāstra-anugraha, a bênção do śāstra, portanto de Vedānta.
Para um aluno de Vedānta o verdadeiro sucesso será o entendimento claro e firme do conhecimento do Eu Ilimitado. Então, cabe somente à pessoa a decisão de ganhar este conhecimento e ir atrás dele. Esta decisão é, em si mesma, ātma-anugraha. Para que a busca por este conhecimento seja fluida, mais fácil, e sem obstáculos, é necessária a bênção ou a graça de Īśvara, que é obtida através de uma vida de preces, mais concretamente, com uma vida de Karmayoga. Com ātma-anugraha e Īśvara-anugraha, a pessoa irá encontrar o seu Mestre, ou seja, irá ver num ser humano a figura do Mestre, assim como a dada altura, Arjuna passa a ver Śrīkṛṣṇa como o seu Mestre. E tal como Arjuna pediu a Śrīkṛṣṇa para ser aluno dele, também a pessoa deverá pedir para aprender com a pessoa que fará esse papel. Tendo sido pedido o conhecimento ao Guru, recebemos a graça do guru que vem na forma de śāstra-anugraha, a bênção do ensinamento, chamada Mokṣa, a liberdade interior ou a liberdade do sofrimento. A pessoa inteligente entende a dinâmica destas quatro bênçãos e a seu tempo, naturalmente, ganha o conhecimento, ficando liberta em vida. Por essa razão, Mokṣa, o Mestre deve ser reverenciado.
Saúdo reverencialmente o meu querido Mestre Svāmī Dayānanda Sarasvatī, o meu querido mestre Svāmī Paramārthananda Sarasvatī e o meu querido mestre Svāmī Sadātmānanda Sarasvatī, bem como todos os outros aqui não mencionados. Mentalmente ofereço aos seus pés de lótus o meu nasmaskāra acompanhado de flores e frutas, lembrando e reconhecendo a grande diferença que fizeram e fazem na minha vida. Oṁ Śrī Gurubhyo namaḥ ||

Paulo Vieira

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