Amor ao Próximo

O Natal está mesmo a chegar e com ele chega também o novo ano de 2022. Para quase todos nós esta é uma altura de muita reunião familiar e também de muita reflexão porque mais um importante ciclo está prestes a terminar.

Nesta altura temos a oportunidade e também o oportuno pretexto para dar o amor e o carinho que sentimos às pessoas que nos são especialmente queridas. Muitos fazem-nos com mensagens e telefonemas desejando o melhor, desejando muito amor, paz e abundância. Outros, podendo, viajam para se encontrarem “em carne e osso” com os seus familiares, comprando-lhes prendas e presenteando-os com as comidas e as bebidas típicas desta época, que compraram especialmente para o efeito, para que nada falte na consoada e no dia de Natal.

Os que não podem viajar para estarem juntos presencialmente, seja por questões profissionais, económicas ou familiares, têm a oportunidade de fazer uma consoada virtual por Zoom, Skype, Whatsapp, que, não sendo o melhor, é o segundo melhor, sem dúvida bem melhor do que nada! Outros ainda, devido às angularidades austeras e implacáveis da vida, passam esta época mais sós, lembrando com muita saudade os que já partiram, desejando muito a sua presença e carregando no peito a dura dor da sua ausência. Cada um vive o Natal e a vinda do ano novo à sua maneira, de acordo com a sua educação, valores, e condição atual. Contudo, podemos dizer que a busca por dar e receber amor é transversal, é geral, é universal.

Quando penso no Natal, invariavelmente penso no grande Mestre Jesus e em tudo o que ele representa e lembro um dos seus maiores ensinamentos, senão mesmo o maior – o do Amor ao próximo.

Geralmente dirigimos o nosso amor aos que são significativos para nós. Somente as pessoas queridas, íntimas, significativas, que geralmente são familiares e amigos recebem o nosso amor. Se assim é, então este amor é limitado, é limitado na sua expressão – é um amor pequeno que ainda precisa de crescer.

Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Humanidade. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Vida. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Terra. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos um só Universo.

Este amor cresce quando nos damos conta de que somos um só Ser. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos todos Um. O entendimento deste ensinamento – Somos todos Um – é a base para a expressão do amor incondicional, chamado dayā, compaixão, que é o que Jesus realmente quer dizer com “Amor ao próximo”. O nosso querido mestre Swami Dayānanda disse uma vez numa das suas aulas: a expressão dinâmica do Ser, é a compaixão, é o amor.

A questão agora é a seguinte: se a expressão dinâmica do Ser é o amor, a compaixão, então porque é que todas as pessoas não vivem expressando amor, compaixão?

Esta pergunta é muito importante e a resposta ainda mais. A realidade é que todos conseguimos expressar amor. Isso é facilmente apreciado na forma amorosa em que qualquer ser humano, em situações normais, trata um bebé, ou até um animal. Os animais e os bebés invocam em nós a pessoa amorosa, a pessoa compassiva.

Na presença deles o amor naturalmente surge. Surge porque eles não invocam resistência em nós. Surge porque podemos ser quem realmente somos sem o medo de sermos julgados. Então, preste atenção, o medo de sermos julgados e a nossa resistência interna ao momento presente, ao que estamos a experienciar a dada altura, são bloqueadores do amor.

E mais, quando cuidamos de um animal de estimação descobrimos em nós uma grandeza, a grandeza de contribuir, de contribuir para o bem de alguém diferente de mim. A descoberta desta grandeza é a porta de entrada para o entendimento de um ensinamento profundo – o amor e cuidado que damos aos demais é imensamente curativo, é extremamente sanador do ponto de vista emocional. Porquê? Porque esta grandeza, a capacidade de dar amor ao próximo, tem o potencial de se transformar em profunda gratidão, a gratidão que vem do reconhecimento de ser privilegiado por estar numa posição de conseguir dar amor e cuidado. Isto o dinheiro jamais comprará.

A única moeda de troca para a gratidão é o amor. Somos gratos a quem nos faz bem, a quem nos ama. Se faço bem a mim, sinto-me grato. Se me fazem bem, sinto gratidão por quem me faz bem. A regra é simples: quando mais amor der, mais gratidão sentirá. A gratidão é a bênção que Īśvara nos dá de presente por darmos amor, por termos compaixão.

O segredo para o amor incondicional é conseguir expandir o senso de eu o mais que puder. Expanda-o para o Universo Inteiro e verá o acontece, ficará surpreso com o que acontece. Sentirá amor pela terra húmida. Sentirá amor pela água. Sentirá amor pelo ar que respira. Sentirá amor pelo Sol, pela Lua e pelas estrelas. Sentirá amor pelas formigas, mesmo que elas decidam que o pote de mel e o pacote de bolachas são delas e não seus. Sentirá amor por todas as criaturas. Sentirá amor por tudo e sentir-se-á infinitamente grato por poder sentir amor de forma não limitada.

Talvez o Natal seja renascer nessa pessoa em quem o amor incondicional se manifeste sem resistência. Talvez o Natal seja renascer nessa pessoa em quem a compaixão brota como a água duma nascente. Talvez o Natal seja a descoberta de que essa pessoa chamada Jesus, nosso Mestre, já existe dentro de si.

Paulo Abreu Vieira

Dezembro 2021

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